12.6.09

Orgulho de ser brasileiro

Encontrei em um blog abandonado na internet ( http://andredeoliveira.blogspot.com ) mais uma boa e sintética definição do típico brasileiro desses tempos atuais:

" Orgulho de ser brasileiro

A melhor palavra para conceituar o brasileiro é prepotência. O brasileiro é, acima de tudo, um prepotente. Porque prepotente é aquele que tem uma potência prévia, um poder prévio. Mas prévio a que? Prévio a tudo - ao esforço, ao conhecimento, à dedicação, ao estudo. Brasileiro é o que tem o poder prévio de saber qual o melhor regime de governo sem nunca ter estudado nenhum deles, é o que tem o poder de discutir assuntos dos quais nunca ouviu falar, é o que tem o poder de entender tudo sem ter lido nem analisado nada, enfim o brasileiro é aquele que pode tudo sem ter adquirido forças para nada. "

Quem assina esse texto, no blog que se chamava "A Barbárie dos Tempos Modernos", é André de Oliveira.

16.5.09

Misandria

Este pseudo-autor já se encontrava morto, com promessa de ser abandonado; mas eis que as agruras do cotidiano neste país de merda o clamaram para novo desabafo. Então vamos lá.

Algum infeliz que tenha lido os outros textos (sim, não se engane, nenhuma pessoa “feliz” lê textos como estes) poderia pensar que eu, Tomázio, vivo na mais completa solidão e penúria. Mas não. Sou um burguês hedonista. Minha única diferença frente à plebe desvairada é ter a maldita necessidade de pensar sobre a merda, e não apenas lambuzar-me nela.

Até certo ponto, sou uma pessoa comum. Vivo da forma que é possível neste mundo decadente e ensandecido. Trabalho, como, tento dormir, dirijo um carro pra lá e pra cá; e às vezes escrevo. E também sou casado. Sim, não suportei a solidão por muito tempo. Embora viver só seja a única forma de se distanciar do caos, não suportei viver assim. Acabei deixando-me levar por minhas próprias ilusões e, principalmente, pelas dos outros, a fim de ter algum porto relativamente seguro, em alguns momentos, onde pudesse socorrer-me da encardida realidade desses dias difíceis.

Como é bom sonhar, e como é duro pisar o chão. Amor é uma ilusão, e isso sequer merece comentário. Mas casamento é realidade; e como é duro ver-se metido nele, a repetir o que tanto se cansou de ver nos milhares de lares onde duas pessoas se afunilam entre ilusões, ressentimentos, implicâncias e ódio. Ninguém mais culpado pela desgraça de uma vida do que um ex-cônjuge; ou um pai ou uma mãe que infernizaram a vida dos filhos com infinitas brigas em casamentos que só acabam quando a desgraça já está bem esparramada. Se o mundo fosse racional e sensato, os brasileiros seriam todos esterilizados. Deixaríamos estas terras para o pasto. Mas, como dizem alguns gringos, alguém tem que limpar bosta de vaca e carregar caixotes nos portos...

Está sobrando brasileiros, mas isso faz tempo – em essência, o brasileiro é uma sobra, um resto, o que sobrou da exploração colonial e acabou virando um povo. E ainda nos sentimos “excluídos” das benesses do mundo burguês, como se tivéssemos direitos naturais ao luxo e ao prazer, simplesmente por estarmos vivos. Mas, obviamente, não existe direito natural a nada. O mundo é de quem chegou primeiro, ou de quem não chegou primeiro, mas foi mais inteligente ou mais agressivo.

O Brasil é um péssimo lugar para se viver, quando se deseja ser burguês e feliz. Mas é um ótimo lugar pra se pensar porque os sonhos modernosos burgueses não deram certo.

No Brasil, além de Jesus Cristo, o casamento ainda persiste como acontecimento inerente à vida. Casa-se por ilusão, por comodidade, ou simplesmente por ser aquilo que “todo mundo” faz. Depois se separa quando a realidade vira uma desgraça, ou quando uma nova ilusão aparenta refazer as energias que a primeira deixou secar. Nisso nascem os filhos: antes, durante, depois ou fora de casamentos. E vão eles crescendo no meio da zona de gente trancada dentro de casa a se iludir, se suportar ou se odiar. Às vezes os casados até são amigos ou amantes, quando conseguem cessar de se atazanar por alguns instantes. Mas isso é raro. Quem quer ser amigo ou amante não se casa.

A imbecilidade de se dormir na mesma cama toda noite (principalmente se for em uma cama de 1,20 x 1,90 m, em um minúsculo apartamento) é das piores. Só mesmo cachaça, drogas para dormir ou excesso de cansaço pra tornar esse engaiolamento suportável por muito tempo. Isso funcionava na época em que a mulher, para o marido, era um móvel a mais na decoração da casa e uma empregada a mais na educação dos filhos. Mesmo que essa época seja muito recente, as mulheres hoje já não são mais assim. Elas agora querem o melhor de dois mundos: a igualdade entre os sexos, quando lhes convêm, e a proteção do mundo patriarcal, também quando lhes convêm. E deste último, ser um objeto usado ou desprezível elas não querem mais (pelo menos não todo o tempo).

Ser um capacho para o marido, no entanto, não era de todo mal para as mulheres no mundo patriarcal. Se fossem um bom capacho – cuidando bem da casa, tendo filhos saudáveis e não reclamando muito, e ainda “servindo” o marido de vez em quando (quando ele quisesse variar o sexo da rua) –, teriam seu lugar de esposa garantido por toda a vida. E se fossem conformadas com isso (como a maioria era), se sentiriam “felizes”; ou, se não felizes, ao menos vivendo “como tinha que ser”.

Esse, contudo, era o Brasil patriarcal. O Brasil até a primeira metade do século XX. O Brasil dos coronéis, dos “machões”, da homofobia total, da esposa assassinada se traísse o marido. Em poucas décadas, contudo, o país saiu do medievalismo cristão e se tornou uma festa gay nova-iorquina. Um típico casamento brasileiro, da década de 1990 a 2010, tem o melhor e o pior desses dois mundos, e ao mesmo tempo.
Num típico casamento brasileiro da era feminista, a mulher quer ter o prazer sexual que só uma outra mulher sabe lhe dar. Quer ser acariciada como se auto-acariciaria. Quer estar tão apaixonada quanto uma adolescente imbecil por seu príncipe idealizado; e, às vezes, só às vezes, quando assim desejar, quer ser tão comida quanto uma égua no cio. Comparará o prazer do pau do seu marido não com outro pau, nem com o mesmo pau em outro momento, mas com o seu dedo.

Fora da cama, quererá materializar toda a sua ilusão de casinha feliz: todas as cores de parede que lhe der na telha (ou que tiver visto numa revista, numa novela ou num filme); quererá todos os móveis das lojinhas ordinárias onde os atendentes bichas lhe bajulam dissimulando todo seu nojo e desprezo; quererá todos os bebezinhos fofos que terá visto nos comerciais da Parmalat (antes deles crescerem e se tornarem adolescentes obesos, drogados e delinqüentes). E a sua determinação quanto a tudo isso será intransigente, intolerante e imutável. Uma onda inabalável, vinda de todos os lados e a todo instante, e de todas as formas imagináveis, a tentar contornar todos os obstáculos que a realidade desse país agonizante impuser ao seu desejo de ter uma casinha feliz com criancinhas rosadas e alegres.

Um bom marido dessa mulher será um escravo louco. Será ora mulher, ora macho. Ora será acusado de ser machista, grosso, insensível ou escroto (quando tentar ser homem), ora será acusado de ser fraco, infantil, “viado” ou egoísta demais, quando não quiser mais brincar de casinha colorida ou de modelar os filhinhos dos sonhos. Ora será acusado de ser tirano, ora de ser ausente. Ora terá que se ater à igualdade entre os sexos, compartilhando os cuidados com a casa, ora terá que ser “cavalheiro” e “provedor”, pagando as contas sozinho e bancando o sustento das caras fantasias da “casinha feliz” e da “mulher fatal”.

O típico homem desse típico casamento brasileiro da era feminista e gay, ora encherá a cara quando quiser ser “machão”, dono da situação e extrovertido (fazendo piada machista e mandando a mulher calar a boca), ora ficará sóbrio, apático e murcho perto de uma mulher segura, chefe da casa e dona da verdade. Pegará outras mulheres fora do casamento (estando bêbado), mas só se meterá em confusão; com freqüência voltando ainda mais humilhado para o casamento, a pedir perdão e a se submeter ainda mais às exigências da esposa. Não será respeitado pelos filhos, à medida que eles crescerem, e terá que se conformar em ser um pai omisso e permissivo, em troca de seguir sentindo que os filhos lhe têm pelo menos algum carinho. Dispensará a maior parte de seu tempo a tentar contornar os problemas que a esposa, a casa e os filhos não cessam de lhe arrumar; e terá que se tornar suficientemente idiota para acreditar que tudo isso é o que dá sentido à sua vida, e motivação para trabalhar como escravo em um emprego idiota, a fim de poder bancar toda essa miséria falseada em vida feliz. E quando tudo desandar,e as fantasias também não se mantiverem de pé, ainda terá que ouvir uma psicóloga ou uma juíza de direito lhe dando sermão e lhe culpando de ser um pai ausente, um marido ruim e um homem fracassado e bêbado.

E se antes disso tudo acontecer ele começar a pensar no assunto e a falar sobre o que está acontecendo ao seu redor, será acusado de misoginia e homofobia. E ainda será tratado como um débil ignorante se não souber o significado de palavras tão óbvias.

Pois, para entender o que está lhe acontecendo, ele terá que ampliar ainda mais seu vocabulário, vindo a conhecer uma palavra ainda nova: MISANDRIA. Ódio aos homens. O controle e culpabilização da masculinidade, por parte das mulheres, por parte dos gays, por parte da religiosidade cristã (e sua ética feminina), e por parte da civilidade ocidental moderna (e seu horror a quaisquer hierarquias e ao poder). E se esse homem confuso do início do século XXI não aprender por bem o que é misandria, terá que aprender por mal, ao ver que, diante das leis e da justiça, o Brasil (e o mundo) se tornou um lugar misandro, onde todo homem é previamente culpado. Assim como todo sujeito branco, rico, estudado, educado e heterossexual assumido será considerado perverso e “mau” caso manifeste orgulho de si mesmo.

Se no meio do furacão, contudo, o típico homem desses tempos confusos conseguir pensar, talvez consiga compreender sua condição, de homem brasileiro no início do século XXI: um sujeito amorfo em meio a uma guerra por poder ou sobrevivência; onde aquele que ele seria já perdeu a guerra, vencido pelas associações feministas, dos gays, pelos movimentos sociais dos miseráveis, pelos fanáticos religiosos, pelos sindicalistas oportunistas, e por mais uma infinidade de grupos e gangues que se organizaram para defender cada qual seus “direitos” particulares. Sobra-lhe resignar-se às ilusões dos outros: às bobas fantasias sexuais e românticas novelescas de sua namorada, a ser um bedel para seus filhos, a se esforçar por ser ora “cavalheiro” e “provedor” para a esposa, ora um homem sensível que divide todas as tarefas com a mulher (menos aquelas que não interessarem a ela) e a ser um trabalhador braçal semi-escravo (e fingindo que isso é normal) para sustentar toda essa merda sem pé nem cabeça. Talvez ainda terá que se resignar a entrar para uma igreja, ou se escorar nos antidepressivos e na lábia dos psiquiatras e psicólogos. Raros serão os homens que seguirão o caminho das mulheres, dos gays e dos negros, adentrando ONGs ou movimentos sociais “masculinistas”, como o Movimento Machista Mineiro ou o National Coalition of Free Men (http://www.ncfm.org/), a fim de tentar transformar a desmoralização pessoal em uma luta razoavelmente coletiva em meio ao caos.

Meu casamento, felizmente, não é assim. Mas sei que ele está sempre a um passo de poder ser. Porque toda hora que saio à janela à procura de ar puro, o que sinto é a podridão que emana das outras janelas. E ninguém está imune a este ar, a esta terra, a esta gente.
Gosto da mulher a quem chamo de esposa, e queria que fôssemos diferentes. Até certo ponto somos, mas tudo parece poder ser engolido pela merda. Eu mesmo sou um emaranhado de tudo isso, e tendo visão e sofrendo com a própria condição inevitável em que é possível viver. Fico entre a arrogância e a humildade. Ora me sinto em guerra contra tudo e contra todos; ora tento me resignar a me apegar ao que ainda sinto de bom pelas pessoas e elas por mim, e tentando ter a alegria do descompromisso total com o mundo e do humor negro.

Por isso eu quisera que esses momentos de clareza aguda, sofrida e revoltada tivessem acabado, morrido, desaparecido. O melhor seria o auto-engano, o “laissez faire”, a vida descompromissada e hedonista, o imediatismo e o egoísmo. E tudo temperado com uma defesa cínica diante das verdades, de quaisquer verdades, de todas as verdades.

Vou apenas escrever e ler, ler e escrever; e fechar a porta do quarto, ligar o som e ouvir boa música. Como sempre fiz com o mundo. E me unir aos artistas loucos que transformaram sua desesperança ao menos em alguma coisa agradável aos sentidos. Vou ficar ainda mais ausente para as lamúrias, os queixumes e os compromissos. E sinto muito para os que ficam. Que se lambuzem sem espirrar em mim!

20.2.09

O que é a medicina? E o que é a medicina no caos brasileiro?

Definir o que é a medicina, de um ponto de vista social e cultural, é algo muito simples, embora muitos acadêmicos fiquem fingindo que é algo difícil e complexo (o que é compreensível, já que os acadêmicos precisam vender sua erudição aos crédulos e aos mais ignorantes do que eles). Mas vamos por partes.

Sou médico. Quer dizer, fui médico. Há pouco tempo consegui abandonar essa profissão de merda. Infelizmente, contudo, fiquei tempo demais trabalhando na medicina, e acho que para o resto da vida vou levar o ranço de quem precisa ganhar dinheiro em meio à podridão humana.

Nos últimos dias, para piorar, tive que de novo exercer o papel de médico, e isso me deixou ainda mais enojado da medicina; e sendo justamente por esse motivo que escrevo este texto.

Minha namorada teve um diagnóstico recente de um problema que os médicos, como é de praxe, começaram a dar opiniões confusas e contraditórias: um dizia para operar, outro para não fazer nada, outro que o problema sequer existia, e por aí foi... Resolvi, então, me inteirar melhor do que estava acontecendo e cuidar da relação dela com a medicina, já que eu não estava disposto a abandoná-la por conta própria cuidando de um problema que ela não tinha capacidade de entender e lidar, principalmente junto a toda sorte de picaretas e profissionais exauridos e confusos. Fui, portanto, intermediar a relação dela com esse mundo médico repleto de charlatães, picaretas e técnicos sem capacidade de raciocínio.

Por enquanto, ela não se deu mal na mão de nenhum deles, e o seu problema também não piorou. Mas isso porque ela ainda não necessitou de qualquer intervenção médica. Para que nada piorasse na mão de médicos carniceiros, entretanto, tive que me esgueirar feito cobra no meio de outras serpentes venenosas e espertas, num meio bastante confuso e perigoso – sendo justamente isto que se tornou a medicina, ou a área da saúde em geral, neste início de século XXI, principalmente neste país decadente.

Para quem não sabe, a medicina em toda a sua história (de mais de 2500 anos, na tradição ocidental), sempre foi um misto de três elementos principais: charlatanismo, benevolência e comércio. Antes do século XX, o charlatanismo (a arte de fazer parecer que uma ação resultaria em um efeito prático desejável) predominava em praticamente tudo que qualquer médico viesse a fazer. Esse charlatanismo, entretanto, somente existia e fazia sentido devido à benevolência que o acompanhava: uma vontade (sincera) que o médico tinha de ajudar alguém que estivesse sofrendo ou alguém que estivesse caminhando para a morte. À benevolência também se somava a crença do doente ou sofredor no fato de que o médico poderia realmente lhe fazer alguma ação benéfica (nem que fosse propiciar-lhe conforto em um momento demasiadamente difícil). Não raro, porém, esse “consolo” ou conforto vinha por intermédio do charlatanismo: o médico fazia algum ato ritual que, parecendo tratar algum mal no paciente (físico, espiritual ou psicológico) o afastava simbolicamente da dor e da morte, ou pelo menos de uma morte muito dolorosa ou solitária. Acreditando no médico e em seu ato, o paciente passava a ficar ao menos confortado por alguma ilusão de melhora, ou com menos dor e sofrimento em uma passagem difícil e incerta. Com o charlatanismo, os médicos conquistaram, até meados do século XIX, algum prestigio social – o prestígio que recebe aquele que alivia o sofrimento e cuida dos moribundos e fracos. Conseguiram também a recompensa por esse prestígio, que não tardou a ser em forma de presentes ou dinheiro (além de poder político, cargos públicos e coisas do tipo).

Logo, invertendo-se essa equação, ser médico, praticar charlatanismo, parecer ser bom e demonstrar ter vontade de ajudar tornou-se uma boa maneira de ganhar dinheiro e prestígio, principalmente quando, nos últimos séculos (sobretudo no século XX), o dinheiro tornou-se a busca maior de quase todo ser humano.

Desde o começo da medicina, por outro lado, o charlatanismo fora muito bem disfarçado, praticamente tornado invisível para os não-médicos, e mesmo para os médicos. Fazer sangrias nas pessoas, fazê-las vomitar, impossibilitá-las de dormir por vários dias (ou o contrário, fazê-las dormir em excesso) ou simplesmente nelas bater ou lhes mandar fazer alguns atos sem sentido (comer certos alimentos, não comer outros, beber determinada água ou chás, fazer compressas, tomar certos banhos, etc. – tudo isso que já foi ato médico consagrado) não eram, em suas épocas, ações médicas vistas pelos próprios médicos que as aplicavam e pelos pacientes que as recebiam como fraudes escandalosas (como depois passou a ser). Ao contrário, todos acreditavam que estas ações eram verdadeiramente terapêuticas, dando resultados concretos, ou seja, que doenças realmente estavam sendo tratadas por estes atos.
Lentamente, porém (principalmente no século XX), essas técnicas charlatãs foram dando lugar a técnicas naturalistas com eficácia real; quer dizer, que eram técnicas verdadeiras. Antibióticos, vacinas e outras substâncias químicas que puderam ser isoladas ou sintetizadas em laboratórios vieram a revolucionar a medicina no século XX, e não só a medicina: elas também ajudaram a propiciar a explosão demográfica ocorrida em todo mundo no século XX, fazendo com que o ser humano, ao final deste período, saísse definitivamente da posição de vítima dos acontecimentos naturais para a posição de algoz da natureza. Do ponto de vista do planeta, o ser humano se tornara uma praga, uma infestação maléfica a todo o resto.

Do ponto de vista “interno” à vida humana, contudo, a cientificidade técnica da medicina do século XX viera trazer avanços para as pessoas que a ela tinham acesso. Além dos antibióticos e vacinas, cirurgias vieram a postergar em anos ou décadas a vida dos moribundos, ou mesmo vieram possibilitar uma vida normal ou próxima disso a sujeitos que antes morreriam muito precocemente (frequentemente ainda crianças). Analgésicos, anestésicos, calmantes e antidepressivos vieram a mitigar objetivamente a dor e o sofrimento individuais e imediatos de centenas de milhões de pessoas.
O século XX foi verdadeiramente o século da tecnificação na medicina. Por esse período, boa parte das técnicas charlatãs deixaram de figurar em primeiro plano na ação médica – embora continuassem intensamente presentes no dia-a-dia de todo médico, acreditadas como técnicas de efeito físico real por simularem as técnicas naturalistas de eficácia verdadeira. O século XX veio a conhecer, portanto, como constante parceiros das técnicas de eficácia real, um outro tipo de charlatanismo: o charlatanismo por imitação de método, o substituto do charlatanismo ritualístico (que na antropologia social veio a ser conhecido como ato de “eficácia simbólica”), o qual, contudo, não desapareceu. Conseqüentemente, o comércio da medicina, que já existia no charlatanismo tradicional, transformou-se velozmente em comércio de técnicas que prometiam objetivamente salvar vidas e aliviar o sofrimento, onde algumas cumpriam o prometido e outras (a maioria) compunham um simulacro das primeiras. Esse conjunto (de técnicas mais charlatanismo por imitação técnica) fez o sucesso da medicina no século XX, como esta área jamais havia experimentado em qualquer outra época ou cultura.

Tão acreditada tornou-se a medicina, no século XX, que todos passaram a desejá-la. Acreditando-se iguais em direito nas sociedades democráticas modernas, todas as pessoas passaram a exigir o direito de acesso às modernas técnicas médicas consagradas no século XX. O resultado deste desejo de popularização da medicina foram as tentativas de se construir saúdes públicas com acessos universais a toda a população. Embora esta popularização da saúde se travestisse de uma espécie de benevolência médica levada às massas populares (em parte apenas para conter as epidemias), o que também surgiu desta popularização foi o que podemos chamar de medicina burocrática. No lugar de todos os cidadãos comuns terem real acesso a todas as reais técnicas da medicina moderna, a medicina burocrática das saúdes públicas passou a padronizar uma série de técnicas para serem aplicadas em série, em massa, à população, o que dificultava a colocação em prática das técnicas de eficácia verdadeira (que exigem tempo, dedicação profissional, raciocínio lógico acurado, alta tecnologia, muito dinheiro, etc.). Por esse caminho, o misto de charlatanismo e técnica passou a pender para o predomínio do charlatanismo por imitação, já que este passou a ser o ato médico predominante na medicina burocrática nos serviços massificados das saúdes públicas mundo afora (e mesmo em outros tipos de massificação da medicina, como nos planos de saúde).

Agindo mecanicamente, automaticamente, um paciente após o outro, o médico burocrata (o tecnocrata da saúde pública) age repetindo atos padronizados para os quais ele não precisa pensar nem refletir sobre o que está fazendo. Ao contrário, o que ele faz é encaixar os pacientes que têm queixas e sintomas semelhantes dentro de rotinas estandartizadas, padronizadas, ou, como é mais comum de se falar atualmente, que estão previstas nas guide lines (as quais, muitas vezes, principalmente em serviços precários de saúde, como no Brasil, terminam se transformando em rotinas que são padronizadas apenas na base do improviso). O médico burocrata quase sempre alterna (meio aleatoriamente meio tentando “acertar o diagnóstico”, no improviso) alguns poucos tratamentos disponíveis (ou mais fáceis de aplicar) para os vários pacientes que lhes vão surgindo à frente. Quase todas as faculdades brasileiras (e também do resto do mundo) ensinam este “modelo” de medicina, já que são integradas à saúde pública. A maioria dos médicos, portanto, se querem trabalhar com uma cientificidade real e individualizada, teriam que se dedicar a isso depois de formados, o que dificilmente fazem, já que a maioria das residências médicas são apenas “tocação de serviço”, ou seja, trabalho em série na rede pública sucateada.

Nessas situações, o médico, empurrado para a massificação da medicina (atendendo dezenas de pacientes por dia), às vezes esforça-se (a depender do que lhe sobrou de idealismo científico, de benevolência ou de energia) por tentar colocar em prática algumas técnicas científicas verdadeiras no meio do ato contínuo e inespecífico que ele se vê obrigado a executar em série, um paciente após o outro (tendo que demorar o menos possível com cada um deles).

Freqüentemente, contudo, o médico já é formado em seu saber (na faculdade e na residência médica) para chegar a conclusões rápidas e sem grande precisão técnica, sendo ensinado a “fechar o diagnóstico” apenas com alguns sinais ou sintomas colhidos apressadamente ou com exames inespecíficos que lhes sejam apresentados também às pressas, iniciando rapidamente um tratamento inespecífico e padronizado, o qual, se não der certo, não lhe causará grande problema ou desconforto pessoal, já que está prescrito em um guide line. Além disso, a medicina de massa acaba se organizando (em sua confusão) de maneira que seja sempre um outro médico que veja o resultado e as conseqüências daquilo que o primeiro médico iniciou. Além disso, como a maior parte das “doenças” humanas “curam-se” espontaneamente, freqüentemente o ato burocrático do médico (o charlatanismo tecnificado) será visto como bom simplesmente se ele não fizer o paciente piorar. E ainda assim, caso ele piore, devido à doença ou ao tratamento, logo outro médico atribuirá o mal à gravidade da doença, mesmo que isso não seja verdadeiro. A verdade na medicina, como no direito, é uma questão de convencimento e de consenso.

Desse modo, portanto, estabelecemos rapidamente a equação do que vem ser a medicina: um misto de cinco aspectos estruturantes fundamentais: charlatanismo, benevolência, comércio (que são os elementos “tradicionais”), e mais dois aspectos típicos do século XX: cientificidade técnica e ato burocrático (que é a soma de charlatanismo por imitação técnica com atos padronizados para se tentar difundir a cientificidade técnica). Mas ocorrendo também, com freqüência, interferência dos interesses comerciais sobre o saber técnico-científico oficial.

A depender de onde e com que fim a medicina vem a ser praticada, alguns destes aspectos predominam sobre os outros. No sistema público de saúde brasileiro, o SUS, por exemplo, predomina charlatanismo e ato burocrático. Um pouco de comércio também há, neste caso, já que os médicos aceitam trabalhar praticando principalmente charlatanismo e burocracia em troca de dinheiro, da estabilidade de funcionário público (com direito a aposentadoria e outros benefícios) ou pela possibilidade de justamente poderem levar o trabalho médico “nas coxas”, sem ter que se tornar bons técnicos (o que exige grande esforço e capacidade pessoal) ou para não se tornarem escravos das empresas privadas de saúde (grandes hospitais ou operadoras de plano de saúde).

Já com o médico que atende (ou atendia) consultório ou serviço particular (como aquele tipo de consultório que existia, em alguns países da Europa e EUA, principalmente, até algumas décadas atrás), a situação é outra. Almejando ter um bom nome como um bom profissional, ou trabalhando com o objetivo de alcançar um grande nível técnico-científico, este se esforça para ter na sua prática particular a predominância do aspecto técnico-científico, da benevolência (já que é fundamental que os pacientes “gostem”, afetivamente falando, do médico, e lhe indiquem outros pacientes) e uma certa dose de charlatanismo por imitação técnica (já que se o médico não executar alguns rituais consagrados popularmente, mesmo que tecnicamente desnecessários em algum momento, como a ausculta de coração e pulmão, ou não lhe pedir determinados exames complexos, o paciente poderá sair falando que não foi examinado nem atendido direito). Além disso, também soma-se, nesta medicina privada, uma dose bem administrada de comércio, já que o médico costuma ser considerado bom apenas se for rico, em vias de ficar ou se aparentar ser rico, ou se souber convencer a população de sua arte e riqueza. Para isto ele precisa, em tempos atuais, tornar-se um bom marqueteiro de si mesmo. Aliás, costuma-se concluir que este último aspecto é que tem feito desaparecer os bons médicos particulares, já que aqueles que se tornam apenas charlatães-marqueteiros têm ocupado o lugar do médico mais cientificamente orientado, tornando praticamente impossível a estes concorrer com a voracidade dos charlatães-marqueteiros, que costumam se associar às grandes empresas da saúde (principalmente à indústria de remédios), à grande mídia e, não raras vezes, às cátedras das universidades (neste último caso como forma de cobrar muito caro na iniciativa privada).

Sabendo de tudo isso, em minhas peregrinações com minha namorada eu tentava encontrar algum médico que buscasse principalmente o esmero técnico. Obviamente não consegui encontrar isso em um só médico. Tive várias opiniões, tendo que nelas tentar filtrar o que havia de técnica em meio a tanto comércio, charlatanismo e ato burocrático sendo repetido sem qualquer crítica ou raciocínio clínico individualizado. Obviamente passei longe do SUS, já que o pesado charlatanismo do ato burocrático sucateado não ajudaria em nada. Apenas um único hospital escola, dos três com que tive contato, parecia não ter se afundado por completo no caos da saúde pública brasileira e no charlatanismo marqueteiro de seus professores. Não me desvencilhei, entretanto, completamente do ato burocrático da medicina. Como não sou rico, tive que ir a muitos médicos através de “planos de saúde”, ou através de “cortersia”, já que não daria para ficar pagando 300 ou 400 reais para cada um dos inúmeros médicos que procurei, apenas para tentar verificar se tinham real conhecimento técnico ou não. Ser atendido por médicos que atendem “planos de saúde”, no Brasil, tem se tornado cada vez mais parecido com atendimentos do SUS.

Nos planos de saúde tem predominado comércio, não diretamente nem principalmente dos médicos, mas das empresas, dos donos de hospitais, dos donos de laboratório, etc., a colocar os médicos a trabalhar quase tão burocraticamente quanto no SUS; situação na qual alguns aproveitam para desistir de vez do esforço técnico-científico (como acontece também no SUS), vindo a se acomodar no atendimento em série, também por dinheiro. Nos planos de saúde, a meta do médico é atender ou fazer o maior número de procedimentos em menos tempo possível. Como os planos tendem a pagar cada vez menos aos médicos, estes, para conseguirem manter a mesma renda, têm que atender cada vez mais pessoas no mesmo intervalo de tempo. Nos SUS, os tempos de atendimento são também cada vez menores, mas por outros motivos: porque a fila de espera está grande demais, porque não adianta perder tempo com atendimentos bem feitos (já que a população não entende o que o médico fala ou explica, ou porque não tem acesso aos exames e tratamentos indicados, ou ainda porque não consegue se organizar para fazer o que é necessário, continuando mais a manter a crença nos passes de mágica e nas panacéias de cura do que realidade técnica) ou ainda porque a maioria dos problemas que têm caído nas mãos dos médicos do SUS não tem nada a ver com medicina (gente “deprimida” ou tendo “ataques dos nervos” ou “de pânico” por estar vivenda imersa no caos social, bêbados baleados e esfaqueados aos montes, funcionários explorados ou desempregados tentando “cavar um atestado” ou um benefício do INSS, etc.).

Nos planos de saúde, a situação ainda não é tão caótica, embora tenha tendência a ficar. Como os médicos têm que atender muita gente em pouco tempo, e ainda assim tendo que aumentar sua carga horária até o máximo suportável (e sem ter qualquer limite legal de jornada de trabalho), boa parte dos médicos tendem a se tornar pessoas cronicamente exauridas, que não conseguem descansar, manter uma boa capacidade de raciocínio ou ter uma vida pessoal razoavelmente equilibrada, muito menos tendo capacidade de se dedicar a serem tecnicamente bons. Como a relação dos médicos que atendem plano de saúde com sua clientela costuma ser de alta rotatividade (quer dizer, os pacientes ficam constantemente trocando de médicos, em busca de algum que o atenda bem pelo menos durante algum tempo), a necessidade de serem tecnicamente bons vai se perdendo (caso tenha chegado a existir). Logo se conclui que, atendendo por planos de saúde, é mais rentável, do ponto de vista financeiro, atender mal do que atender bem, já que a consulta é mais rápida no atendimento mal feito e o paciente não se torna “íntimo” do médico, vindo a ter conversas sociais que tomam tempo (com perguntas do tipo “como é que vai?”, “como é que foi de férias?”, etc.).

Além disso, os médicos que ficam alguns anos atendendo predominantemente planos de saúde tendem a perder a capacidade de raciocínio clínico, mesmo quando, eventualmente, desejam tê-lo. Como são obrigados a chegar a diagnósticos muitas vezes complexos em poucos minutos, tendem a se habituar a “pensar aos saltos”; quer dizer: com poucos sintomas e sinais de doenças são obrigados a concluir causas orgânicas complexas, numa simplificação de raciocínio lógico que tende para a distorção da realidade clínica (e, consequentemente, do diagnóstico e do tratamento). Atualmente, até mecânicos de carro mais sérios (o que também é difícil de se encontrar no Brasil) tendem a demorar mais tempo ao concluir por um defeito no “alternador” do que médicos ao fazerem um diagnóstico de intolerância à lactose, por exemplo. Frequentemente os médicos pedem um turbilhão de exames laboratoriais para ver se os exames fazem o raciocínio por eles. Não por acaso apenas os especialistas e os cirurgiões têm conseguido se sobreviver junto aos planos de saúde: os primeiros estão tendendo a se especializar em diagnosticar e tratar no máximo 10 a 20 “doenças”, quando muito, e apenas aquelas “doenças” cujos tratamentos são rentáveis junto aos planos de saúde; e os cirurgiões estão se concentrando em operar (e a preencher papéis), se impacientando sempre que lhes é exigido qualquer coisa além disso, como, por exemplo, ter que discernir se uma determinada cirurgia é mesmo necessária ou não – motivo pelo qual também estão restringindo suas atividades a cirurgias onde o paciente é que escolhe se opera ou se não opera (como nas cirurgias plásticas estéticas), ou a cirurgias de emergência. Ou seja: os médicos que atendem planos de saúde estão se tornando tão toscos quanto os do SUS. E como a clientela também vai se tornando tosca (pouco instruída) à medida que os planos de saúde se popularizam, o resultado é uma roda de cegos, à volta com exames que não sabem direito para que servem (feitos nas coxas por quem os realiza) e múltiplos remédios usados quase ao acaso. É possível que vá acabar restando pouco médico e pouco paciente no Brasil que consigam saibar o que vem a ser uma medicina de qualidade. Consequentemente, quem quiser se tratar vai ter que se mandar ou ficar procurando agulha no palheiro (como eu fiz), tentando encontrar um ou outro médico que não tenha se perdido completamente na caótica medicina brasileira.

De qualquer modo, mesmo atendendo por plano de saúde, muitos médicos se esforçam (ou ainda vão ter que se esforçar) para se mostrar bons tecnicamente, além de benevolentes e marqueteiros, ou não vão ter pacientes. Alguns ainda mantêm a esperança de que no futuro poderão trabalhar apenas com consultas particulares, vindo a ter um consultório e uma clientela personalizados e de bom nível sócio-cultural, que saibam o que querem e que consigam escolher um bom médico e lhe pagar de forma honesta por um trabalho bem feito. Isso vai se tornar muito raro, se já não é. A maioria dos médicos que atendem planos de saúde, contudo, logo perdem esse tipo de esperança, passando a encarar todo o seu trabalho como um grande mercado desregulamentado onde tudo é válido para aumentar a renda: deixam de lado qualquer apego técnico-científico (exceto um discurso pseudo-técnico feito para enganar, usando apenas nomenclaturas técnicas vazias – como nomes de sintomas em latim, por exemplo), mantendo a benevolência apenas “da boca para fora” (quando muito), e já se sentindo capazes de fazer qualquer charlatanismo ou ato burocrático desde que o resultado comercial seja lucrativo. Trabalham para o marketing dos laboratórios de remédios, aceitam fraudar pesquisas, imitam uma falsa cientificidade onde for bem pago para fazê-lo (inclusive nas aulas universitárias), obrigam os médicos de suas clínicas ou hospitais a prescreverem procedimentos desnecessários aos pacientes que atendem, prescrevem remédios e exames em troca de “brindes de laboratório”, fazem perícias fraudulentas para os planos de saúde, e qualquer outra coisa que resulte em dinheiro e que não seja perigoso demais a ponto de levá-los para o banco dos réus (embora muitos, no Brasil, aceitem também esse risco, certos da ineficácia dos conselhos éticos e da justiça comum, todos afundados no caos da burocracia e da corrupção). Muitos médicos, por esse caminho, ainda acabam ficando ricos, de modo que ainda há muitos médicos desse tipo sendo festejados como bons profissionais, principalmente quando fazem bom marketing, quando conseguem ter acesso à grande mídia (revistas, jornais, televisão, etc.) ou quando conseguem se tornar professores de universidades.

Em minha andança com minha namorada, topei com alguns médicos “bem sucedidos” desse tipo (charlarães-marqueteiros), o que às vezes embaralha ainda mais a busca por técnicas adequadas em meio a tanto comércio, charlatanismo e jogo de cena. Freqüentemente os médicos bons marqueteiros e bons comerciantes são muito bem camuflados em um disfarce técnico, não raras vezes até em benevolência muito bem encenada. Poucas classes profissionais costumam gerar tão bons mentirosos quanto a medicina. São capazes de mentir até para amigos e familiares, até para si mesmos. Não é à toa que, além de não mais trabalhar com medicina, continuo meu esforço para deixar efetivamente de ser médico. Livrar-se do ranço de ser médico, nesse circo que se tornou o Brasil, não é fácil.

Para minha namorada, felizmente, até onde consigo enxergar, pude encontrar algumas conclusões técnicas que me pareciam verdadeiras. Até certo ponto eu também havia me perdido, enquanto me formei como médico e trabalhei como tal, entre a pseudo-cientificidade e a cientificidade real. Mesmo assim ainda me sinto um pouco capaz de tentar filtrar todo esse jogo de cena: as mentiras, a camuflagem, a picaretagem e a burocracia. Acho que consegui achar para minha namorada, depois de rodar por mais de 20 médicos bem recomendados, em pelo menos seis hospitais renomados e em três cidades, alguns profissionais tecnicamente capazes de dar opiniões honestas e com conhecimento de causa, e iniciar um acompanhamento mais tecnicamente orientado para o seu problema.

A medicina sempre foi obscura, e não deixou de ser assim durante o século XX, e nem nesse início do século XXI. Agora existem técnicas efetivas em meio ao obscurantismo, mas isso, em si, não garante nada.

Para piorar a situação, existem ainda muitos profissionais críticos ao que está ocorrendo, porém a maioria deles está se unindo ao que, no Brasil, tem sido chamado de “humanistas” da saúde, geralmente profissionais de áreas não-médicas (como psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, etc.) que estão com movimentos políticos ideológicos defendendo a “humanização” da saúde no Brasil. Eles entendem que a medicina brasileira é um caos devido aos médicos terem se tornado técnicos demais, o que, obviamente, não é o caso. Como esses outros profissionais não sabem discernir entre técnica e charlatanismo técnico, terminam por atacar toda a medicina em conjunto, dificultando ainda mais que técnicas efetivas possam ser colocadas em práticas por médicos com capacidade e tempo para fazê-lo. Além disso, os “humanizadores” da saúde pública brasileira estão conseguindo levar para o SUS (já que eles ocuparam, juntamente com o Partido dos Trabalhadores, postos políticos importantes) ainda maior número de impostura técnica, como a legitimação das práticas alternativas de saúde. Eles confundem humanização com a antiga benevolência do charlatanismo tradicional. Mas isso, é claro, apenas os ingênuos. Boa parte desses “humanizadores” também já se corromperam, e apenas defendem junto à saúde pública seus próprios interesses empresarias: suas consultorias, suas ONGs, seus centros de formação de “terapeutas alternativos”, suas clínicas, seus partidos políticos, seus cargos públicos, etc.

Ao final das contas, portanto, tem-se que saúde brasileira está como o resto do país: na merda. É possível ainda que, quando as vacinações em massa e os antibióticos prescritos aleatoriamente deixarem de funcionar para conter epidemias e infecções banais, a demografia e a expectativa de vida no país comecem a ser afetadas pelo caos. Por enquanto, as estatísticas ainda garantem um certo ar de eficiência e de modernidade. Mas é difícil que isso continue por muito tempo.

31.1.09

Não existe bala perdida; ou como ser alternativo à brasilidade decadente no Rio de Janeiro

Andando pela cidade do Rio de Janeiro, por volta de 9 da noite, numa sexta-feira. É horário de verão no Brasil. Mal começou a ser noite. Eu e minha esposa, como turistas, e mais algumas milhares de pessoas, perambulamos pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Num percurso de pouco mais de 50 metros, é o segundo mendigo que nos aborda – e eu já estava ficando de saco cheio dessa cidade:

- Me dá um dinheiro!... Me dá um dinheiro!!...

O pedido do mendigo é mais uma ordem do que uma súplica. Mas eu sei que não é assalto. Há dezenas de pessoas passando por todos os lados. O olhar do mendigo é de desespero. Ele olha rapidamente para a minha mão, enquanto carrego algumas compras de supermercado: ele sabe que minha resposta automática, “não tenho”, é mentira. Por mais que eu tenha tentado disfarçar continuo com cara de turista, e minha esposa mais ainda.

Tudo isso não dura mais que alguns rápidos segundos. Eu já estava impressionado, passando alguns dias em Copacabana, com o pesado desespero dos pedintes e de alguns vendedores ambulantes da cidade. Parece faltar pouco para te xingarem ou te enfiarem uma faca no “bucho” simplesmente por se recusar a comprar um boné ou dar alguma esmola. A minha maior recordação desta curta viagem vai ser a voz fina, desesperada, insistente e incrédula deste último mendigo desgraçado:

- Me dá um dinheiro?... Me dá um dinheiro! Me dá um dinheiro!!... – vem à minha cabeça a imagem de livros de história, quando era retratada a mendicância e o desespero de pedintes molambentos na idade média européia, castigados pela fome e por doenças.

Ele era magro, jovem e escuro, de pele e de sujeira. Parecia ter uma pele emborrachada, escorregadia. Mas segui adiante sem dar dinheiro algum. Fomos para nosso minúsculo apartamento. Não dormi tranqüilo aquela noite, como em todas as demais. Não por compaixão ou culpa pela desgraça do mendigo, mas pelo barulho incessante daquela rua, onde não cessava de passar carros, ônibus e táxis nem mesmo durante a madrugada.

Mendigos já não me sensibilizam mais. Aquele me marcara apenas como síntese daquela nova cidade do Rio de Janeiro que eu estava conhecendo, onde agora era possível ver turistas perguntando aos guias, que insistiam em falar na “garota de Ipanema”, quando é que eles começariam a falar da verdadeira cidade do Rio de Janeiro (se referindo às casinhas sem reboco amontoadas em todos os morros que surgiam em todos os trajetos dos ônibus turísticos em direção às atrações da “cidade maravilhosa”).

Não há nada de novidade no Rio de Janeiro; mas se eu fosse um antropólogo ou um psicanalista morando, estudando e dando aulas naquela cidade, eu me mataria antes de ficar velho e de ir morar sozinho em algum apartamento minúsculo e mofado de Copacabana. Não é à toa que o carioca rico e instruído está afundado em drogas e álcool, ou se refugiando em seitas, fanatismo religioso e bacanais. O Brasil parece estar à beira de conhecer sua “idade média”.

Pouco antes de topar com este último mendigo, eu estivera em um supermercado e em uma grande loja de departamentos. Em ambos tocava MPB e Bossa Nova. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim e suas respectivas gangues de rapinas da “cultura popular brasileira” são tão doentemente repetidos em todos os lugares que até os axés, os sertanejos e os pagodinhos paulistas se tornam seus rivais em minha prateleira mental de poluição musical – um dos grandes lixos que o Brasil produz para o resto do mundo.

Andar pelo “calçadão de Copacabana” (uma calçadinha repleta de cachorros, ambulantes, pedintes e gringos bêbados ouvindo a renitente e insuportável “Garota de Ipanema”) foi um suplício no início daquela noite: se não bastasse o pedantismo de toda essa gente melosa (pegajosa), a cada dez minutos a ridícula música mais conhecida do cancioneiro popular brasileiro ecoava em alguma caixa de som ou em algum chato violão de algum “músico de barzinho”. Ao povo carioca parece que restou a sina de virar mendigo, puta, guia, michê, traficante, bajulador ou repetidor de canções idiotas para gringos curiosos, incrédulos ou deslumbrados – em todas as situações, quase sempre bêbados. Um horror de cidade foi o que vi o tempo inteiro diante de meus olhos, mesmo enquanto a maioria dos cariocas, diante dos turistas, forçavam uma alegria demasiadamente falsa ou chapada.

Se bem que eu tentei. Após alguns dias passeando como um típico turista babaca(participando de passeios tradicionais junto a gringos), tentei me refugiar junto aos ambientes da “letrada” e “sofisticada” elite carioca. Encontrei algumas peças de teatro que pareciam mais interessantes do que freqüentar os bares com batuques que tocavam samba ou os restaurantes “chiques” ao som gosmento da Bossa Nova. Mas a elite e a classe média intelectualizada do Rio de Janeiro me pareceram tão doidas (e ao mesmo tempo tão lúcidas) quanto aquele mendigo que se transformara em animal esganiçado e desesperado.

O típico carioca (e parece que eles se orgulham disso) tenta fazer pose e falar frases de efeito ou “tiradas inteligentes” e debochadas o tempo inteiro, como se a todo momento estivesse diante das câmeras da Rede Globo (cercados de closes num Big Besta Brasil), tendo que, em poucos segundos, aparecer ao máximo – mostrando os peitos, as bundas ou se esgoelando sem parar. A última moda das ruas do Rio parecia ser os decotes femininos a deixar entrever uma parte do bico do seio. Ninguém suporta ser comum nessa cidade. Onde quer que se vá, fica parecendo que os personagens estereotipados das novelas globais estão ao redor. Das velhinhas com cara de “asilo dos artistas” que povoam os prédios e os “restaurantes por quilo” de Copacabana aos playboys e bibas saradas de Ipanema e do Leblon, tudo fede a glamour. Todos tentam ser o mais glamorosos possíveis, dizem conhecer “artistas” da Globo, recomendam algum filme imbecil como se fosse grande coisa, discutem músicas e artistas pops idiotas, freqüentam os lugares badalados da “incrível” noite carioca como se estivessem numa passarela.

Cada qual dos grupinhos de gente “elitizada” da cidade parece viver como se a desgraça não os cercasse, e eles não fizessem parte dela enquanto típico produto da brasilidade decadente. Cada grupinho de cariocas (cada “tribo”, como dizem na mídia global) parece viver como se fosse um núcleo de teledramaturgia das novelas da Globo, a encenar sua própria ilusão da realidade, vivendo nela intensamente para não ter que ouvir a vozes desesperadas dos mendigos (quase pronto a matar ou morrer por algumas moedas) nem o barulho dos tiros. É um cenário surreal: em meio à miséria, à guerra civil, ao desespero e à drogadição disseminada, turistas tentam passear e se divertir, cantorzinhos e atores se acham artistas, e o populacho que ainda não está na mira dos tiros brinca de ser celebridade. Chego a pensar que Juscelino Kubitschek cometeu a insanidade de fundar Brasília apenas para ver se salvava a cidade do Rio do colapso precoce. Antes deixar que a miséria nacional buscasse refúgio no meio do nada do que deixar a cidade maravilhosa afundar na pobreza e no caos deixados por Portugal.

Se eu tivesse nascido carioca, e acordasse para o mundo lá pelos meus 15 anos de idade, sem estudo e filho das favelas, podendo apenas me sujeitar a virar vendedor de muambas, de drogas ou de qualquer outra merda para turistas ricos ou para cariocas cheios de pose, certamente eu tentaria deixar de ser covarde e me lançaria ao projeto de ser burguês a qualquer custo. Não é à toa que muitas ONGs, políticos e a Rede Globo estão tentando forjar o "orgulho de ser favela", de ser “da comunidade”. Os ricos estão com muito medo que os miseráveis optem pelo óbvio.

A vida de rico no Rio de Janeiro parece ser bem simples e objetiva: buscar sexo e badalação com pessoas que se enquadram nos estereótipos da Rede Globo (a Meca da região, e mesmo do Brasil inteiro), usar drogas (inclusive álcool), jantar em lugares sofisticados, ganhar dinheiro a qualquer custo, e se envolver com jogatinas para obter prazer imediato; além, é claro, de desfilar em carros caros, bairros e ruas famosas, cinemas e teatros “da mídia”, além de frequentar coberturas, hotéis e festas badaladas (quer dizer, que apareçam nas colunas sociais televisivas). Parece mesmo que o ápice da vida carioca é ser perseguido por paparazzis.

Tentei, claro, freqüentar lugares alternativos à merda dominante, para ver se ficava mais fácil suportar melhor os poucos dias que me restavam na ex-cidade maravilhosa (que talvez tenha sido maravilhosa apenas antes da chegada dos portugueses). Visitar os pontos turísticos, sempre apinhados de gatunos e de turistas com cara de ressaqueados, cheirados ou idiotas, não me pareceu uma boa pedida. Eu precisava encontrar lugares freqüentados pelas pessoas “alternativas”, saber onde e como elas viviam, além de trancados dentro de suas casas, a esperar a morte ou a hora de ir embora.

Eu já conheci muitos lugares estranhos nesse grande país decadente, de capitais nordestinas consumidas por turismo sexual pedófilo a grandes cidades sucumbindo aos seus entornos miseráveis e violentos formados por retirantes da miséria e do caos nordestino (seqüela de um colonialismo canibal). O Rio de Janeiro parece ser uma fiel síntese desse país.

Nas maoria das grandes cidades brasileiras há dois tipos de “pessoas alternativas” à brasilidade caótica do começo do século XXI. Um desses tipos de gente alternativa é o alternativo pop, que se abastece da cultura pop americana para conseguir novo eixo de identidade pessoal, e assim tentar viver e entender o mundo sob a ótica de “tipos pessoais” que são mais comuns nos Estados Unidos do que no Brasil (playboys, nerds, geeks, losers, patricinhas, etc.).

Outro tipo de pessoa alternativa desse período é o intelectual “multiculturalista europeu” (mais ao estilo francês). Este tipo, contudo, está em decadência, diminuindo em quantidade desde os anos 1980, quando o outro tipo passou a aumentar. O multiculturalista europeu é o alternativo que insiste em ler livros, freqüentar teatros, virar antropólogo ou psicanalista e freqüentar cafés ou restaurantes com a típica pose de “intelectual”. Este tipo de alternativo parece, coontudo, estar muito assustado e pessimista, tentando inutilmente se adaptar aos “novos tempos”. Ainda tenta manter seus rituais “culturais” em meio ao caos, fingindo ou tentando fingir que aquilo que antes tinha valor (ou parecia ter, como o saber erudito) ainda tem alguma importância na brasilidade decadente do início do século XXI.

Somente encontrei, no Rio de Janeiro, este último tipo de pessoa alternativa (nos teatros, nos centros culturais, nas livrarias...). Não encontrei nenhum gueto de roqueiros vestidos de preto mandando tudo à merda, ou cantando sua melancolia – onde eu talvez me sentisse um pouco mais à vontade. Tive que me contentar, então, com os cafés e com os centros culturais (e seu povinho blasé), e torcer para que uma bala perdida não me confundisse com um carioca ou gringo antes que eu fosse embora daquela merda.

Sentir a cidade, suas favelas e seu cheiro ficando para traz à medida que o avião subia foi o melhor momento de minha curta visita ao Rio de Janeiro.

Pobre povo. Daqui de cima daria para cuspir em suas cabeças.

27.1.09

Academicismo em geral - Parte II: O que sustenta uma sociedade que se organiza em torno de falsos especialistas

O que sustenta as especializações do saber, e a adesão cega das pessoas a elas (mesmo que inutilmente), é, além da necessidade que o especialista tem de possuir uma profissão (uma função social remunerada e valorizada) e um salário, é a crença popular, generalizada, de que as especializações do saber têm realmente a capacidade transcendental de emitir verdades, capacidade esta que estaria acima da média das demais pessoas sobre determinado aspecto da vida (o que é justamente aquilo que garante a função social do especialista). A reunião destas duas forças, a do especialista em ter valor e função e a da população em acreditar em algo transcendental, é que deixa tudo que existe com alguma explicação que pareça fazer sentido à maioria das pessoas. Ou seja, juntando a necessidade popular com a habilidade do especialista são pruduzidas crenças coletivas onde quase tudo parece ter seu lugar bem definido, bem explicado, em um mundo dotado de sentido. Para isso, é preciso sempre haver um ser humano especialista que domine o conhecimento de determinada área, a fim de que, quando algo sair errado, sempre haja alguém que diga porque e como se fazer para resolver o que está “errado”, para que o mundo, a vida humana, continue sendo vista como algo promissor e que continua progredindo, evoluindo; esta é a crença dos iludidos racionalistas modernos.

Estes dias uma amiga me perguntava qual a explicação neurológica (especialista que sou nesta área) para o fato de o cachorro dela, já um cão velhinho, ficar latindo para a parede da sala, como se ali estivesse algo a provocá-lo. Cansado de, em minha prática diária, como profissional especialista, ter que mentir “pelo bem da profissão”, para os amigos tenho o hábito de tentar dizer a verdade, mesmo que eles não gostem muito de ouvi-la. Acabei respondendo para esta minha amiga que não havia explicação neurológica para a alucinação, seja de cachorro ou de gente, e que também não era sabido por que o cérebro de um ser vivo que se aproxima da idade em que a maioria dos outros seres de sua espécie morrem pode passar por situações de deterioração que provocam alucinações, assim como esquecimentos, construção incorreta de pensamentos, interpretações fantasiosas, etc. Minha amiga, como era de se esperar, diante de minha explicação, disse-me, decepcionada e um pouco revoltada comigo, que eu não estava lhe dizendo o motivo de seu cãozinho latir para as paredes porque eu simplesmente não queria, por eu estar com preguiça de responder de modo simplificado algo muito complexo ou simplesmente por eu estar fazendo pouco caso de sua pergunta, ou mesmo de seu cãozinho. Vendo sua indignação, disse-lhe que não era nada disso: eu realmente não sabia responder porque seres vivos tendem a “demenciar” ou deteriorar-se depois de algum tempo de vida e depois morrem; e que, justamente por eu ter estudado profundamente esta questão, eu podia lhe garantir que as respostas para isso eram, como infindáveis outras questões em neurologia, pontos absolutamente cegos para nossa intelectualização filosófica ou científica. Com esta minha resposta, minha amiga ficou ainda mais irritada comigo e falou: “Você é que não quer responder! Eu sei que tudo no mundo tem uma explicação!” Mais interessado na conversa fiquei diante dess resposta tão tipicamente moderna. Então lhe disse, já com um pouco de sarcasmo e ironia: “você que pensa...”. Expliquei-lhe, com seriedade, para que ela continuasse a me levar a sério, que não faltavam teorias a respeito do que ela me perguntava, e que algumas destas teorias haviam se tornado relativamente populares, freqüentemente através de ensinamentos dos “especialistas” da área, que costumam falar de teorias como se fossem explicações verdadeiras e realistas, como costuma fazer o famoso Antônio Damázio, por exemplo, autor português que minha amiga gosta muito de ler. Damázio, expliquei a ela, costuma fazer longas dissertações em seus livros (pseudo)científicos explicando através de hipóteses várias coisas que só têm explicação se as pessoas acreditarem nas tais hipóteses e em suas premissas, as quais, no entanto, apenas quem não as conhece profundamente acreditam, por serem hipóteses que costumam não se sustentar em uma análise mais acurada.

Como eu explicava isto à minha amiga com um certo deboche, mesmo me esforçando para continuar sério, ela continuava achando que eu estava brincando, de maneira que logo voltava a me pedir uma explicação séria sobre o seu cãozinho. Resolvi, então, fazer diferente. Disse-lhe, com ar de quem tinha enfim parado de brincar, com uma real veracidade na voz e na expressão facial (destas que os médicos fazem ao contar uma mentira que explique algo que o paciente diz querer entender), que, ao envelhecer, o cérebro começa a ter deficiência de dopamina (um neurotransmissor) no núcleo da base, uma região importante na articulação entre memória e pensamento, o que ocorre principalmente quando alguns genes passam a determinar uma produção protéica cerebral que não mais garante a existência da dopamina com a mesma função de sinapse (de ligação de uma célula nervosa à outra) que teve durante toda a vida. Além disso, lhe expliquei que isto era um mecanismo que se tornava mais acentuado na doença de Alzheimer, por exemplo.

Com esta minha explicação, parcialmente vinda das teorias em moda no momento e parcialmente inventada por mim de improviso na hora, porém usando a linguagem e termos neurológicos que o “pseudo” cientista Damázio costuma usar em seus textos, minha amiga ficou bem satisfeita com a minha explicação, e até dizendo-me coisas do tipo: “eu sabia que você tava só chateando, e não queria me explicar direito...”.

Minha amiga sabia, isso assim, que eu era um sujeito estudioso (embora não soubesse exatamente do que), e que, formalmente, eu havia feito um doutorado em neurobiologia do envelhecimento. Mal sabia ela, porém, que, ao me aprofundar neste campo, estudando algumas centenas de trabalhos originais publicados em revistas afamadas do mundo inteiro, as mais prestigiadas e consideradas mais sérias de minha área, e sérias justamente por seu rigor científico, eu chegara à conclusão de que praticamente quase tudo que eu aprendera antes em minha especialização em neurologia eram teorias, hipóteses válidas somente naqueles anos em que eu era um médico fazendo minha primeira especialização em neurologia. Depois de minha especialização (minha residência médica, que antecedeu em alguns anos o meu doutorado), continuei acreditando e reproduzindo as teorias transitórias que eram tratadas como verdades por meus professores e foram assim ensinadas a mim. Aprofundando-me em meu doutorado, contudo, aprendi que as drogas que eu costumava receitar, quer dizer, as medicações que faziam algum efeito para sintomas do envelhecimento, haviam sido descobertas empiricamente, na base da tentativa e erro, ou ao acaso, em experimentações naturais. Isso quando tais medicações realmente faziam algum efeito, já que a maioria das medicações nesta área eram e continuam sendo “placebo”, ou seja, apenas fazem efeito de acordo com a crença que tem quem acredita nos efeitos que ela possa fazer.

As pessoas em geral, entretanto, como a minha própria amiga que acabei de mencionar, que não é especialista em neurologia, mas sim em música e teoria musical (apenas uma racionalidade técnica, além de domínio da própria técnica de tocar seu violino), não querem saber de conclusões céticas como estas minhas sobre as teorias neurológicas. As pessoas em geral querem é acreditar que o especialista tem o poder de explicar algo que as outras pessoas, por não serem especialistas (e apenas por isto), não sabem. A existência, no modo de conceber o mundo da maioria das pessoas, de que há grande segurança e certeza sobre tudo devido ao fato de que o mundo é feito e explicado por vários especialistas, cada qual dominando um fragmento do que existe, confere à vida uma estabilidade no todo que estes múltiplos especialistas formam. É esta confiança no saber e no poder do outro, do especialista em algo que a pessoa não conhece (mas que pode vir a precisar um dia), que confere ao mundo dos sujeitos modernos esta sensação (ainda) generalizada de que o ser humano atual é senhor do seu destino, de seu futuro, de seu planeta, sendo capaz de salvar o mundo das intempéries edas catástrofes, das conseqüências das guerras e de esgotamento do planeta, do caos crescente nas sociedades atuais, e assim por diante.

Geralmente quando algum especialista admite algum ponto cego em sua própria área de especialização, é com a alegação de que o avanço do conhecimento, das pesquisas e das técnicas logo esclarecerá este ponto, e tudo retornará para o controle do saber. Freqüentemente, especialistas costumam admitir algum ponto cego quando estão dispostos a se promoverem, eles próprios, como aqueles que trazem alguma novidade para esclarecer aquele tal ponto obscuro.

O que mais fazem os especialistas a respeito daquilo que não sabem, entretanto, é fraudar o conhecimento especializado de sua área, com teorias, hipóteses ou com mentiras deslavadas, principalmente quando ditas ao grande público. Falseações e mentiras, no entanto, são o que mais frequentemente mantém a maioria das pessoas convencidas do saber de uma determinada especialidade científica (ou médica, no caso), e, por conseguinte, mantendo-as convencidas do poder e do saber do próprio especialista – o que pode lhe resultar dinheiro, prestígio e, senão uma vida bem confortável, ao menos uma sobrevivência melhor do que a média das demais pessoas.

A maioria dos especialistas costuma acreditar em suas teorias, mesmo que furadas, e não por acintosa “picaretagem”, mas por ingenuidade, já que para o seu trabalho diário apenas tem a necessidade de reproduzir, quase que no automático, sem qualquer análise mais profunda, o que outros especialistas, com maior prestígio e fama, lhe convence ser verdadeiro. Aqueles que estudam a fundo e com senso crítico algum tema, como eu fiz com a neurologia do envelhecimento, tendem a abandonar a área na qual se aprofundaram, já que sair falando por aí que a conclusão é que quase tudo era e continua sendo mentira não interessa muito à maioria das pessoas, muito menos aos próprios colegas de especialidade, já que estes necessitam da ignorância coletiva para continuarem acreditando no que fazem e para continuarem terem clientes que lhes ovacionem ou paguem por seu saber e técnicas especializadas. Uma real cientificidade sobre as coisas não costuma dar prestígio nem dinheiro, principalmente em países com a mentalidade tacanha como no Brasil. A crença nos especialistas da ciência, entretanto, ultrapassa os âmbitos individuais. É, em realidade, um fenômeno cultural moderno.

Como as especializações “científicas” existem em número gigantesco, de milhares de especialidades da ciência e da tecnologia, em praticamente todos os países do mundo atual, e em todos eles ou em quase todos sempre com os especialistas ocupando um lugar de relativo poder e prestígio social (o que acontece até no Brasil, onde predomina apenas a pseudociência), mundialmente as especializações científicas formam uma grande rede de construção e manutenção de algo que pode ser chamado de mitologia científica moderna.

Os especialistas da “ciência”, na modernidade ocidental, substituíram os párocos, padres e místicos em seu poder de gerar significados e valores morais para a vida cotidiana. Os especialistas da ciência e da tecnologia, porém, não chegam a consensos e não conformam uma visão única do mundo – embora tentem, ainda não conseguiram forjar algo como a igreja católica durante a idade média européia. Ao contrário, esta mitologia estruturada pelas especializações científicas, que é constantemente construída, reconstruída e mantida pela própria existência das especializações científicas, existe exatamente devido ao fato de as especializações não formarem um todo racionalmente articulado e dotado de sentido, ou mesmo um todo que possa ser acessível a indivíduos particulares. Ou seja, esta mitologia existe devido à ignorância que um especialista sempre tem em relação às outras especializações que não a sua própria; ignorância, a bem dizer, na qual se sustenta a crença que ele mesmo tem no especialista da especialidade a qual ele desconhece. Assim, esta mitologia existe também devido ao fato de que a população em geral acredita apenas e exclusivamente no especialista da área em que ele é reconhecidamente um sábio, e isso apenas quando este especialista mantém seus discursos concordantes com o que dizem os demais especialistas da mesma área, ou quando, ao dizer algo diferente, consegue modificar o discurso hegemônico dos demais especialistas, para tornarem-se concordantes com o seu. Não difere muito, portanto, de qualquer outra mitologia, mesmo que em muitas especialidades existam grande número de técnicas que modifiquem objetivamente algumas coisas (como acontece na medicina cirúrgica, por exemplo).

Desse modo, a mitologia cientifica moderna, acreditada pela população em geral do mesmo modo semelhante a que os gregos acreditavam em seus deuses do Olimpo, se mantém sem a possibilidade de ser atacada ou desacreditada por delatores e críticos, ou mesmo por cientistas mais sérios. Não se pode fazer, portanto, com a mitologia moderna, o mesmo que pensadores pós-renascentistas passaram a fazer com os dogmas da igreja católica medieval: desmascará-los como farsas e crendices populares; num processo de desmascaramento gradual que ocorreu até que a maioria da população, durante séculos, gradualmente tenha deixado de acreditar nos aspectos fundamentais da mitologia que dava sentido ao seu mundo (o que, é claro, não vale para países como o Brasil; aqui a mentalidade predominante continua cristã, mesmo que de um cristianismo “renovado”).

Na modernidade ocidental (e na pós-modernidade, para quem acha que há alguma diferença substancial), essa rede de especialistas da ciência e da tecnologia, na qual os especialistas acreditam ou respeitam, por ignorância, o saber das outras especialidades, tudo que existe passa a ser explicado racionalmente, porém dentro de uma racionalidade que, detalhando e esmiúçando o seu campo de estudo, acaba por criar uma linguagem e erudição próprias e inacessível a quem não venha a ser especialista. Tudo que existe passa racionalmente a fazer sentido para aqueles que acreditam que cada especialista tem o domínio de um fragmento do todo. Desse modo, para quem não é especialista, apenas a existência por si só de uma dada especialização já garante uma segurança (ontológica) pelo poder da ciência e de suas especializações, pelo fato de que se imagina, mesmo sem se saber detalhes (ou até por isso), que a especialização tem o saber e o poder sobre o campo de estudo e trabalho a que se dedica. As várias especializações científicas modernas, se reunidas, conformariam um todo explicado e dotado de sentido, e mantido sob controle intencional do ser humano.

Graças às especializações científicas modernas, portanto, é que as complexas sociedades atuais não se despedaçam, com grupos de pessoas desesperadas voltando a acreditar em misticismos mais claramente religiosos. (Isso, é claro, também não vale para o Brasil, e também parece ser algo que gradativamente está deixando de valer para o resto do mundo – na prática, as ciências modernas estão voltando a ter que disputar popularidade com os outros misticismos).

Neste processo, aqueles sujeitos que individualmente descobrem a falsidade que domina a sua área de especialização e que, por algum motivo, não abandona a sua área, passa a ter que, cínica e hipocritamente, continuar fingindo acreditar nos dogmas de sua especialização científica, a fim de continuar mantendo um jogo duplo com as demais pessoas de seu convívio: no íntimo seguem desacreditando daquilo que é obrigado a falar se quer convencer as outras pessoas de alguma coisa; e exteriormente têm que fingir acreditar no que é hegemônico em sua especialidade, para que o restante da sociedade continue lhe dando valor, poder e dinheiro enquanto especialista.

Falei da neurologia apenas por ter sido esta a minha área de especialização dentro da medicina, porém poderia ter falado de qualquer outra. Toda especialização teórica é assim. Conheço alguns filósofos e eles me falam que a maioria das especialidades filosóficas é fundada em engodos retóricos, da mesma forma que o filósofo oitocentista Schopenhauer falava sobre seus contemporâneos no início do século XIX (como mencionei na Parte I). Alguns amigos psiquiatras já me disseram o mesmo de sua especialidade. Uma vez fui a um seminário de filosofia da biologia, e vi um biólogo que resolveu colocar sob crítica as teses fundamentais da genética molecular. Ele concluiu que as premissas básicas de sua área, que moldam o pensamento dos geneticistas em geral, eram demasiadamente frágeis para serem levadas a sério.

Para quem tem um pouco de paciência, dar uma estudada na teoria do tempo segundo a relatividade de Einstein, ou nas “teorias das cordas”, sobre as múltiplas dimensões de nosso universo, algo bastante em moda atualmente (início do século XXI), é suficiente para ver que boa parte das teorias astronômicas atuais se transformaram em pura especulação metafísica, embora disfarçadas de matemática e de física, o que raros astrônomos admitem publicamente; geralmente o fazendo quando estão em vias de abandonar a profissão, pois, caso contrário, não conseguiram empregos ou verbas públicas para pesquisas. O último acelerador de partículas que fora lançado no ano passado (2008, com o nome de LHC), no subsolo francês, por exemplo, parecia uma grande e bilionária piada: seu principal objetivo seria encontrar uma micropartícula atômica, apelidada de “partícula de Deus”, a qual poderia gerar um buraco negro, reconstiuindo-se em laboratório a origem do universo.

Também já me cansei de ler artigos e livros sobre a decadência do racionalismo moderno, muitos dos quais usam o exemplo da matemática e da física para mostrar que fatos reais baseados em cálculos precisos somente existem em tese, jamais na vida real, de modo que técnicas práticas como a da construção civil e engenharia eletrônica precisam se basear bem mais em simulações prévias (onde se pode fazer tentativa e erro até se acertar) ou construir objetos baseados em cálculos físicos e matemáticos que extrapolem em muito os cálculos feitos, a fim de se ter uma enorme margem de segurança. O racionalismo jamais consegue ser uma representação fiel da realidade, mesmo onde a realidade se mostra imensamente objetiva e mensurável.

Em todos os cantos, as especializações do saber que tentam explicar fenômenos da vida real apenas constroem ilusões racionalistas sobre essa vida (semelhante ao que uma doutrina religiosa faz construindo dogmas e sua mitologia própria a representar o mundo humano). A crença nas doutrinas religiosas, contudo, são mantidas devido às crenças de algumas pessoas em revelações a partir de entes sem existência sensível (visível), para o que se faz imprescindível a crença da maioria em uma inteligência superior que pode tudo e dá sentido e significado a todas as coisas e, simultaneamente, a crença desta mesma maioria nos grupos de místicos mais elevados que trazem a verdade dos deuses ou espíritos. Já as crenças atuais na ciência moderna como explicadoras de tudo e gestoras do mundo dependem da própria existência das especializações científicas, e da ignorância que um especialista em algo tem acerca das outras especialidades. Alguém como eu pode até descobrir que sua especialidade científica vem a ser essencialmente uma fraude, uma colcha de retalho de centenas ou milhares de hipóteses improváveis costuradas entre si, mas em geral fica intocável a crença nas outras especialidades da razão. Um astrônomo pode, por estudar muito a sua área, descrer da astronomia, mas ele tenderá a procurar um neurologista quando sua memória começar a falhar muito, assim como continuará acreditando naquilo que um antropólogo escreve sobre alguma cultura remota do pacífico, a qual que ele nunca ouviu falar, assim como seguirá dando crédito naquilo que um economista explica sobre mercado de ações, etc. Um psiquiatra pode descrer de sua área profissional, mas ele continuará acreditando no endocrinologista quando resolver emagrecer, ou na física, na química, na biologia, quando estas inundarem a psiquiatria com suas teorias sobre a ação de neurotransmissores causando depressão ou transtorno do pânico. Ou seja: cada especialista pode até vir a desacreditar daquilo que ele conhece, mas a estabilidade e segurança de sua própria vida somente será mantida se sua crença se mantiver naquilo que ele próprio não conhece, mas que ele acredita que está no poder de conhecimento e de ação de algum outro especialista científico. Justamente esta necessidade de segurança e de manutenção de um sentido para a sua vida dentro de um todo que é que mantém sua crença nas especializações científicas e na razão.

Quem , abanda sua especialização única e resolve se aprofundar criticamente no estudo de várias especialidades da ciência costuma conseguir chegar apenas ao niilismo, à descrença total no racionalismo e no poder da humanidade atual em lidar com todos os seus problemas; e, portanto, desacreditando até naquilo que dá a própria sustentação da vida coletiva atual em todo o mundo. Por isso mesmo, o século XIX viu seus grandes niilistas florescerem e, rapidamente, já darem lugar à era dos especialistas. Até o século XIX parece que ainda era possível pensar a totalidade das coisas; mas quando pensar sobre a totalidade das coisas revelou-se um ato quase inevitável de cavalgada para o niilismo, as especializações tornaram-se o modus operandi de a ciência continuar sustentando a visão de mundo dos modernos.

Alguns niilistas costumam retornar à religiosidade, como já discutido no texto sobre Olavo de Carvalho. Outros se matam; outros se tornam escritores; outros ainda se refugiam em algum lugar isolado, o mais isolado possível, até que a morte os leve. Quase todos aprendem que aquilo que sustenta o que ainda resta das sociedades organizadas modernas são resquícios de valores religiosos passados, além da ignorância da maioria das pessoas sobre o conhecimento da racionalidade científica do século XX e XXI.

Espero que as coisas continuem assim pelo máximo de tempo possível, embora a gana pela verdade de pessoas como eu às vezes tendem a atrapalhar um pouco que assim seja. Felizmente, no entanto, a maioria das pessoas tem mais ouvidos para as reportagens de programas como o Fantástico (da Rede Globo) ou para documentários da National Geografic do que para blogueiros desiludidos, para escritores malditos e ou para ex-cientistas que resolvem delatar as fraudes de seu meio.

Um brinde à ignorância, é ela quem sustenta nossa vida.

16.11.08

Carta aos brasileiros mortos

Há algum tempo sei que escrever a brasileiros esperando a interlocução é um ato inútil. Juntei-me aos mortos já faz alguns anos. Somente nessa completa solidão tenho conseguido sentir algum resto de vida.
A brasilidade me é tão estranha que, quando apenas ela é reconhecida por todos como “vida”, sinto que apenas a morte dessa brasilidade me faz algum sentido.
Há alguns anos, no começo de minha desistência de ser brasileiro, um amigo perguntou-me o que eu fazia dentro de um apartamento se a vida estava “pululando” lá fora. Ele chamava de vida o ato de trabalhar, ganhar dinheiro, arranjar mulheres, beber, transar, namorar, casar, se divertir, comprar coisas, progredir na vida, ter filhos, enfrentar problemas “reais” do cotidiano, etc. Também tornei-me alguém, há muitos anos, acreditando que isso era viver. Volta e meia, portanto, estou sobre alguma pressão para aderir a este “estilo” de vida do brasileiro típico. Vivo cercado de brasileiros e não consegui ser uma ilha totalmente isolada. Logo, essas pressões nunca cessam por completo, no máximo me dão alguma folga de vez em quando; mas sempre que me distraio e deixo de estar atento a elas, retornam para tentar me fazer aderir à vida dessa manada de fodidos.
Preciso de algumas pessoas, e elas de mim – e neste ato de precisar incluo o gostar, o amar, o “ter afeto”; essas coisas que os brasileiros crêem como aquilo que os interliga numa comunhão enquanto povo. Entre eu e quase todas as pessoas, contudo, sempre se forma um atrito: eu costumo querer delas só o suficiente para delas não voltar a precisar durante o máximo de tempo possível; quer dizer, para ter um pouco de conversa, alguns olhares, um carinho, sexo, um salário, um atendimento cordial em alguma loja, algum diretor que faça um filme interessante, escritores que tenham escrito algo que me desperte o interesse, etc. Para além disso prefiro minha angústia e minha solidão.
Porém ao me aproximar das pessoas, quaisquer pessoas, para ter este pouco (ou já será muito?) de que preciso, quase sempre me vejo às voltas com a ânsia de vida (de ação, de desejo, de poder, de prazer imediato) que todo o brasileiro parece ter desenfreadamente, como um animal no cio, ou no desespero de uma manada estourada. Se tenho um carro, logo me perguntam quando vou comprar um mais novo. Se vejo TV, me questionam quando vou mudar para uma TV de plasma. Se estou só, quando vou namorar; se estou namorando, quando vou casar; se estou casado, quando vou ter filhos; se tenho um filho, quando vou ter outro...; se moro de aluguel, quando vou comprar a casa própria; se tenho a casa própria, quando a reformarei; se a reformo, quando terei um sítio... E isso não tem fim.
O brasileiro é totalmente cego para sua crença na progressão da vida. E agora que não vão mais para o céu, esperam pelo regozijo no dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte. Por isso, se fosse em outros tempos, eu teria que decepcioná-los dizendo que já estou no inferno. Agora, no entanto, tenho que me defender dizendo que já estou morto.
Deixem-me em paz!... Se aparento estar vivo é um mero ato teatral: finjo a vida que esperam para das pessoas ter o pouco que preciso para ficar recolhido no meu canto o máximo de tempo possível. Se saio, é sempre uma ação negativa: se faço algo é sempre pressionado por alguma coisa que me obriga a fazê-lo pela subsistência ou para alívio de um incômodo.
Em termos de erudição filosófica, nada disso que escrevo é novidade. Mas para a brasilidade nada disso existe, exceto no campo da aberração, da doença, da loucura, da maldade absoluta, da estranheza total. Conseqüentemente, a morte que o brasileiro conhece nunca é esta na qual vivo. Esta é justamente a negação da ação e do desejo constante. Já a morte na brasilidade é sempre por excesso deste apego cego à vida mundana e imediata: é a morte pelo crime passional, a morte pelo crime por dinheiro ou poder, é a morte pelo infarto por stress ou por gula, é a overdose de substâncias químicas, é o acidente de carro, é o suicídio pela raiva, pela insuportabilidade do tédio, ou é a morte visando alcançar um último instante no centro do espetáculo.
Mas se estou de novo tendo que pensar sobre a vida que não quero e não suporto, é justamente por ter dela me aproximado demais, e outra vez. Não sou herói. Sou apenas um fraco. Para o heroísmo humano apenas sorrio ou dele tenho pena. No Brasil, então, qualquer heroísmo tornou-se apenas uma fúria cega lutando contra falsos inimigos, possíveis de derrotar apenas para o deleite do candidato a herói. E isso não me interessa.
Não sendo herói, portanto, não faço nem mesmo de minha angústia e solidão algo porque valha a pena lutar tanto. Diversas vezes sou levado para a brasilidade, para a vida cotidiana da ação e da satisfação imediatos, e, sem heroísmo, me deixo arrastar na correnteza, sem confrontar os cegos que me carregam, os sedentos que me sugam, os desejosos que querem também algum desejo meu em resposta aos seus. Apenas reajo a estas forças quando todo esse desejo e enredamento incontidos ultrapassam demais os limites de minha solidão, de minha quietude e tendência a não agir. O que resulta desta ação, além de vontade de encontrar um lugar para viver (ou para morrer) onde a distância entre as pessoas seja maior, é, com freqüência, dizer adeus a um tipo de gente que me cerca, a seus prazeres ou ganhos materiais, que nos últimos meses me seduziram um tanto quanto demais. Espero, nos próximos dias, enterrar mais alguns brasileiros que se acham muito vivos. E não visitarei o seu sepulcro...

O Academicismo Brasileiro, Parte II: A decadência da aristocracia intelectual brasileira

Enquanto a maioria das pessoas seguem acreditando e respeitando a autoridade de saber dos mestres e doutores brasileiros (e em qualquer outro lugar do mundo), a realidade das relações entre orientadores acadêmicos e orientandos (assim são chamados os alunos de pós-graduação no Brasil) revela um outro aspecto da aristocracia intelectual acadêmica em tempos de decadência da razão.
Nunca foi novidade, na história humana, que a retórica, as falácias, os sofismas e persuasão conformaram a essência do saber racional da humanidade ocidental que se julga civilizada, a partir do poder conquistado por aqueles pensadores que foram capazes de convencer sociedades inteiras de suas verdades aparentemente lógicas e objetivas. Entretanto, a institucionalização do saber racional em universidades, bem como a regulamentação oficial por parte do estado moderno da autoridade do especialista “diplomado”, e, mais recentemente, a manipulação marqueteira dessa autoridade do “cientista especializado”, foi que levaram o uso do saber institucionalizado a níveis inéditos de grande prestígio social e popularização. Além de, ao mesmo tempo, de estrondosa legitimação de uma civilização globalizada baseada em saberes fraudulentos.
A visão de mundo moderna – civilizada, racionalista, laica, tecnológica e evolucionista – foi criada por alguns poucos grandes pensadores que ganharam prestígio e popularidade (a par de serem falseadores do que se propunham, que era conceber o mundo e a humanidade com lógica, verdade e realismo) a partir da visão de mundo cristã, ou melhor, a partir da decadência desta visão de mundo após o renascimento europeu. Após esta decadência da mitologia cristã (que ainda não chegou inteiramente a seu termo) tais pensadores de prestígio criaram apenas, ao mesmo tempo em que foram incorporados às suas criações, uma instável mitologia de argumentação retórica, a permear todo o conhecimento que se seguiu ao período medieval. O saber de técnicos, filósofos, cientistas, acadêmicos, professores, doutores e especialistas em geral, infelizmente, é tão mitológico quanto qualquer outra autoridade de saber atribuída a deuses gregos, cristãos, islâmicos ou quaisquer outros, sempre intermediados por aristocracias eclesiásticas variadas – com a diferença que as religiões são mais estáveis e conseguem, por mais tempo, totalizar a vida social humana e sustentar ontologicamente uma sociedade. Coisa que o racionalismo puro (nascido da própria intelectualização de alguns) não consegue. O Brasil contemporâneo, como um triste exemplo de como a humanidade ocidental moderna decai, nos dá aulas e mais aulas de como a institucionalização da razão (ou seja, o academicismo) se perpetua como válido em alguns meios apesar de ter se tornado estéril de realidade.
Para os mais ingênuos, explico que o racionalismo moderno ocidental tornou-se irrealista pelo fato de que a mitologia racionalista moderna atualmente conseguir se manter apenas como de real valor para a maioria das pessoas por meio da grande mídia de massa, pelo ensino não-reflexivo de saberes antigos, pela negação e rejeição dos saberes racionalistas mais complexos e pelo ensino apenas memorizador de saberes que perderam contato com a vida prática. Ou seja: o racionalismo atual (mais claramente do século XIX para cá) apenas tem reproduzido os seus próprios mitos, afim de que estes se mantenham com valor social até que novas religiões retomem o poder de totalizar e dar sentido à vida cotidiana das pessoas – o que, no Brasil, já está acontecendo rapidamente (Aqui, em verdade, nem houve um período racionalista laico muito nítido).
Se os mais ingênuos ainda não conseguiram entender, recomendo, se até aqui conseguiram fixar sua atenção canina, que continuem a ler, pois daqui pra frente vou deixar de lado estas explicações que podem parecer demasiadamente abstratas e relatar, mais que dissertar, o que estou afirmando; de modo que aí sim talvez o texto volte a ficar mais parecido com a linguagem de novelas, romances e de literaturas de auto-ajuda.
Bem, mas antes de destilar mais rancor e desprezo às pessoas em geral, e aos acadêmicos em particular, deixe-me voltar logo ao foco da questão.
O academicismo brasileiro tem atualmente uma única finalidade, que é a de servir aos seus integrantes como meio e espaço onde cada um deles possa vir a adquirir individualmente um certo status social, conquistando uma linguagem erudita em alguma área e mesmo a possibilidade de defender moralmente algum interesse que a maior parte da população crédula acredita ser também seu. Ou seja, embora sem poder de governar nada e ninguém, o academicismo brasileiro tornou-se uma aristocracia intelectual, adquirindo algum poder real (corporativo) à medida que se mantém agregada à burocracia estatal e à medida que vive com seus aristocratas voltados para os pequenos jogos de poder das instituições a que pertencem, misturados a tangenciamentos de discussões intelectuais que pareçam relevantes para a vida no país. Entretanto, nem mesmo servir de apoio ideológico às elites políticas plutocráticas, ajudando estas a melhor ludibriar a massa popular (como acontece nos países mais modernos e civilizados), o academicismo brasileiro tem conseguido fazer: a publicidade na grande mídia e o jornalismo (se é que ainda seja necessária essa diferenciação) tem servido muito melhor a este fim.
Contudo, como o academicismo brasileiro continua vindo a público apenas para tentar fazer jus ao dinheiro que consegue tirar dos governos, e ao prestígio que a maioria da população ainda lhe dá (tirando dinheiro desta também de modo direto, através dos mercados de ensino, de livros, de tratamentos de saúde e outras atividades especializadas, etc.), a relação dos ingênuos candidatos ao mundo acadêmico com as velhas raposas das cátedras universitárias é um bom lugar para se perceber ao que ficou reduzido o racionalismo na atualidade brasileira.
Muitos me dirão que o que escrevo aqui vale para qualquer academicismo do mundo atual. Pode ser, mas por uma questão de fé em mim mesmo, e de grande dúvida em relação a tudo o que outras pessoas dizem, apenas generalizo o que aqui escrevo para todas as universidades brasileiras, públicas ou privadas, e para nenhuma outra; embora sabendo que existam raríssimas exceções, as quais costumam se manter heroicamente pelo esforço pessoal de alguns poucos pensadores brasileiros que tendem, contudo, a levar seu heroísmo para a cova, por já estarem velhos e cansados, além de não terem mais a possibilidade de deixarem reais discípulos dentro das universidades (as velhas e novas raposas tomaram conta de tudo; quer dizer, do que sobrou).
O pouco que restou para os acadêmicos se sentirem importantes e signatários do poder que a massa popular (apenas à distância) lhes atribui é muito pouco. Como as universidades, cursos superiores, especializações, mestrados e doutorados se multiplicaram ao sabor do mercado (ao sabor da vontade que a massa tem de se tornar aristocrática, ou pelo menos de fugir do desemprego, tornando-se cada vez mais diplomada em algo marqueteável e vendável, ou tornando-se possuidor de bom currículo para tentar vaga em concursos públicos), e como os salários achatam-se à medida que aumenta o número de professores doutores à disposição dos empresários do ensino, nem mesmo a possibilidade de tornar-se endinheirado e consumidor alienado resta, de modo tranqüilo, para o regozijo dos acadêmicos.
Na prática universitária brasileira, os alunos de graduação logo aprendem que seus professores são, na verdade, uns coitados, mal sabendo ter domínio do que ensinam, não gostando de serem questionados em aula (pois facilmente se embaraçam nas perguntas medianamente complexas), quase sempre terminando por se revelarem, mesmo diante de alunos ainda deslumbrados e adolescentes, como pessoas que apenas decoraram meia dúzia de conceitos de um ou outro autor de renome a fim de reproduzi-los mecanicamente, uma aula após a outra.
Muitos destes professores também mal conseguem esconder que apenas usam a fama de algumas universidades para ganhar dinheiro em seus negócios privados, vendendo “consultorias”, trabalhos de escritórios, consultas médicas, projetos fantoches para financiadoras de pesquisas (a maioria destas provenientes de governos) e construindo toda uma literatura “científica” falsa, porém vendável, a quem nela acreditar ou dela precisar para convencer ou seduzir outros crédulos.
Não resta aos acadêmicos brasileiros, assim, a adesão nem mesmo a uma busca por um saber legítimo, nem a possibilidade de enriquecer com facilidade no mercado privado (neste último apenas mediante trabalho dobrado ou triplicado, de manter aulas e mais aulas, além de vender seus produtos e disputar bolsas e financiamentos públicos), a quase totalidade dos professores acadêmicos vive cotidianamente exaurida, sem fé no que faz e no que ensina (o fazendo, quase sempre, por obrigação e tediosamente, a duras penas), sentindo-se humilhada e ainda tendo que teatralizar (ou forçar-se para acreditar) que tem ainda algum saber verdadeiro.
O sentimento de humilhação é, sem dúvida, o que mais corrói a alma amargurada da maioria dos catedráticos brasileiros do início do século XXI, principalmente daqueles que um dia sonharam que eram semi-deuses por terem feito um ou outro doutorado na Alemanha, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos..., quando então retornaram ao Brasil sentindo-se os donos do saber em relação a uma ralé sub-humana e iletrada. Rapidamente, entretanto, estes sonhos de grandeza e poder intelectual, de serem admirados ao menos por aluninhos deslumbráveis, de serem tratados como autoridades em algum assunto, logo se viu transformado em aulas e mais aulas para alunos cada vez mais debochados, cínicos, descrentes e que entram e saem da sala a hora que bem entendem, ou simplesmente desligadamente dormem a maior parte do tempo, apenas esperando o diploma.
Além disso, muitos doutores e mestres ainda adentram este antro de diplomação automática das universidades brasileiras como professores substitutos nas universidades públicas ou como contratados temporários das faculdades-empresas particulares, invariavelmente ganhando mixaria e tendo que sustentar grades e mais grades curriculares a fim de que os cursos, ao menos formalmente, não desapareçam.
Humilhados, exauridos e ainda crentes de que podem alcançar fama e poder como intelectual (ou ao menos dinheiro), os professores acadêmicos brasileiros, mestres e doutores, terminam por tentar se auto-afirmar única e exclusivamente uns sobre os outros, ou sobre alguns alunos que têm o azar de precisarem deles; já que, na prática, nada mais lhes resta a lhes dar alguma importância e poder social verdadeiros.
Desse modo, nos bastidores da vida acadêmica, bem longe daquilo a que a população em geral tem acesso, em reuniões de equipe, nas disputas e eleições por cargos nas universidades, ou na concorrência por bolsas de pesquisa, toda a sorte de intrigas, conluios, conchavos, traições, fofocas, ameaças, discussões, troca de tapas, etc. eclodem freqüentemente, quando não mais conseguem (e cada vez menos conseguem) manter a superficial civilidade e o autocontrole que julgam inerente a um aristocrata intelectual. Muitos se reúnem em grupinhos de bajuladores, tentando dominar um ou outro nicho financeiro, tentando assim se proteger dos ataques dos que cobiçam o mesmo, ou tentando cooptar com pequenos ganhos aqueles que conseguem se manter fiéis aos conchavos, sem delatá-los e sem cobrar um preço alto demais para se corromperem. Mas essa disputa departamental não é para todos, ou não é capaz de fornecer tudo aquilo que todos desejam (até porque grandes egos insuflados, quando cronicamente humilhados, podem se tornar um saco sem fundo de ações para se sentirem recompensados).
Muitos, portanto, dentro deste percurso mesquinho, senão se refugiam em devaneios intelectuais particulares, ou se tornam alcoólatras boêmios e fanfarrões antes de morrerem de infarto ou derrame, ou senão se aposentam (e isto tem se tornado o grande sonho de muitos), ou acabam por passarem bons anos exercendo um (nem sempre) sutil sadismo com alunos, sadismo este regado a pedantismos, dissimulações e explorações as mais variadas daqueles alunos mais ingênuos e caxias, os quais terminam por trabalhar para os “mestres”, aceitando a exploração em troca de possíveis facilitações para entrar e prosseguir nesta vida acadêmica inútil.
Acordar no meio de um academicismo que se transformou em um circo de falsidades e perseguições tornou-se o fim do sonho de Brasil moderno que deixaria de ser subdesenvolvido pela educação formal de sua população.

26.10.08

Vida de médico no caos e liberdade de expressão no Brasil

Depois que comecei a escrever minhas “crônicas de saco cheio” e falas também de medicina, alguns amigos andam mais solícitos em me contar histórias pitorescas de seu cotidiano. O que me contam há muito me intriga pelo fato de revelar, de história em história, o que acontece nos bastidores da medicina no Brasil; sendo fatos que não costumam vir a público, nem em forma de literatura, de filmes, de ensaios, de nada; simplesmente todo um mundo desconhecido habita os subterrâneos da medicina brasileira. Quando alguns acontecimentos desse subterrâneo vêm a público quase sempre é em forma de “pesquisas sociológicas”. Mas os pesquisadores brasileiros, em geral, estão muito aquém de sequer conseguir pelo menos descrever o que acontece na área da saúde, quanto mais entender. E os médicos, por seu lado, preferem não contar nada dessas histórias que ouço na surdina. Alguns temem o corporativismo da área, já que existe uma guerra ideológica mercantil no Brasil contra os médicos, e os delatores podem ser julgados, literalmente falando, como traidores em uma guerra quase invisível para o grande público. Outros temem ser vítimas de processos na justiça; outros ainda temem “queimar o seu filme” com a clientela particular que lhes garante o sustento; outros, como eu também atualmente, sabem que é inútil falar qualquer coisa em qualquer lugar a respeito do assunto: no máximo, o falador colecionará inimigos e ganhará falsos amigos, aqueles que querem utilizar o que se conta em proveito próprio, em favor de sua própria corporação nos ataques a corporação médica. Assim, corporativismo por corporativismo, quase todos os médicos, então, acabam mesmo ficando com o corporativismo de sua própria área, já que qualquer outro que use suas palavras logo termina por lhe passar rasteiras quando elas não interessarem mais para ataques políticos.

Mas acho que a maior causa da situação da medicina brasileira não vir a público está ligada à vaidade e auto-estima do médico, que não quer assumir pra si e para as suas pessoas próximas (esposa, marido, filhos, pais, irmãos, etc.) como está seu ambiente de trabalho, a “honestidade” na sua profissão, o seu desamparo e cobrança crescentes (e irreais), o clima de acusação contra ele, o desgaste com os pacientes (principalmente os mais pobres) e pesada e desonesta competição com outros médicos (principalmente com os médicos que se tornam empresários da medicina – que costumam ser os que têm menos escrúpulos).

Ainda assim, eu e os médicos que conheço melhor acabamos quase sempre nos chocando com situações que vemos ou das quais às vezes temos que participar ou, mesmo não participando, temos que fingir que é “normal”.

Felizmente, como resolvi, entre outras coisas, escrever crônicas (literatura, portanto), crio histórias entre a ficção e a realidade – ou seja, como praticamente tudo verdadeiramente é. Às vezes, claro, conto pequenas histórias “sem por cento realistas” dentro da minha interpretação da realidade. Às vezes conto histórias metafóricas em que tudo que é escrito é pura criação ficcional, que vem apenas a imitar histórias reais, mas em formatos um pouco mais interessantes para a escrita popularesca e sem compromisso intelectual com a verdade.

O mais curioso de tudo é ver como quase todos meus amigos reagem, sejam eles médicos ou não-médicos, quando coloco em algum lugar publicamente visível algumas histórias meio pesadas da área médica, como já contei acho que uma ou duas vezes. Em geral, para valorizar as minhas fontes e o meu próprio “eu” como um mito literário em construção, nunca digo a estes meus amigos se as histórias escritas são verdadeiras ou puramente ficcionais. E espero, com o tempo, nem eu mesmo saber mais se existe essa distinção.

Quase todos, médicos e não médicos, como disse, reagem com certo receio quando lêem as histórias recheadas de inescrupulosidade e falta de ética que se tornaram o trivial na medicina brasileira. Sempre me dizem: “Cuidado! Use um pseudônimo”; “não se exponha desse jeito em relação à medicina”; “preste atenção senão você ainda acaba mal!”.

É claro que a maioria dos meus conhecidos não lê o que escrevo, já que estão mais comprometidos com sua própria busca de felicidade e alegria, ou apenas estão perdidos no emaranhado de afazeres que os ocupa e cansa integralmente, e o que escrevo não traz alegria exceto àqueles que gostam de humor negro ou de um certo realismo literário um tanto quanto “doido”, e ainda tenho escrito aqui de um modo denso, com longos parágrafos, sem preocupação estética, sem muitas correções, o que faz qualquer médico brasileiro dormir na primeira linha de leitura. De qualquer modo, aqueles que me advertem para tomar “cuidado” com o que falo me parecem ser as pessoas que realmente lêem, mesmo que uma vez ou outra, o que escrevo, gostando ou não do que lêem. E parecem realmente preocupadas comigo, e não apenas agredidas pelas minhas palavras.

Todos, no geral, demonstram implicitamente terem a certeza de não vivermos com liberdade de expressão no Brasil, como se soubessem que de algum lado ou de outro sempre virá alguém com disposição a perseguir aqueles que falam da corporação mercantil a que pertence – e praticamente todas as pessoas de classe média no Brasil têm que se filiar a alguma corporação mercantil, mesmo que indiretamente. Implicitamente, portanto, quase todos meus amigos imaginam que logo alguém como eu poderá ser perseguido por um processo na justiça, por uma associação de classe que invente algum pretexto para infernizar minha vida (já que o motivo real alegado, já que oficialmente vivemos em uma democracia com liberdade de expressão, não poderia ser abertamente mencionado), um secretário de saúde municipal que crie alguma desculpa idiota para não renovar um contrato de trabalho, e coisas do tipo. Aliás, já conheci alguns médicos críticos a políticas oficiais de saúde que perderam seus contratos devido a contarem alguns podres dos bastidores do seu trabalho. Para quem não sabe, boa parte das prefeituras e governos gosta mais de ter os médicos em contratos temporários do que como concursados, e isso não é apenas por uma questão de desorganização burocrática dos governos e prefeituras e por falta de dinheiro; é que assim podem mais facilmente pressionar os médicos pelo silêncio diante do que acontece na saúde pública do país, um lugar onde é fácil se verificar como a degradação social brasileira se encontra acelerada.

Na medicina privada, nem se fala, todos os médicos têm pavor de serem vistos como “criadores de casos” por outros colegas de seu meio privado, de planos de saúde, pelas diretorias de hospitais, associações de classe, jornalistas e diretores de rádio e TV, etc. Em todos esses meios, o médico é todo o tempo pressionado para não dar voz ao que lhe acontece, tanto para não prejudicar as instituições e seus interesses, quanto para não gerar um clima pessimista.

Desse modo, o médico acaba podendo ter uma visão aguçada sobre a realidade brasileira. Mas todo esforço que ele faz é justamente para se alienar dessa realidade e continuar mantendo a pose de burguês (classe média) feliz e realizado. Chopes, novelas, shoppings, academicismo, corrida estética, calmantes, etc., estão aí para isso. Mas boa parte dos médicos vive tensa por saber que transita em campos minados do ponto de vista moral, nos quais precisam se policiar a todo instante sobre o que falam, sobre o que fazem e sobre o que acontece a seu redor, nas instituições em que trabalham.

É por tudo isso que desejo boa sorte aos meus amigos médicos. Sei que têm que trabalhar sorridentes em uma guerra mercantil e amoral, sem nem mesmo direito a desabafos públicos. Mas eu, como alguns já sabem, estou caindo fora. Sei que vou ter que fazer algum esforço, como pessoa, para me libertar do estilo médico de ser, da vaidade, da dissimulação essencial, da necessidade de estar trabalhando com fatos concretos, de fazer algo que pudesse ser útil para esse país e pra essa gente fodida. Preferi, contudo, não afundar junto com o barco.

Comecei esta crônica dizendo que iria tratar das histórias pitorescas que alguns amigos andam me contando. Não consegui, acabei descambando para um comentário sobre como estão os atores que andam presenciando algumas das histórias trágicas na área médica brasileira. Mas foi só um deslize. Não vou fazer destas crônicas um local de denúncia sobre a apodrecida “saúde” brasileira. É inútil denunciar a picaretagem corporativa e científica “ou pseudocientífica”. No caos o princípio ético fundamental é outro, é sobreviver contra tudo e contra todos. Não existem mais movimentos coletivos em favor de nada, para controlar nada, nem ética nem criminalidade, tudo se tornou uma coisa só. Na guerra não há moral. Mesmo se ainda não se pode falar dela e, principalmente, de seus bastidores. Ainda vou falar da medicina, mas sem qualquer denuncismo, e sem pena dos ingênuos.

6.10.08

Brasil Apocalíptico V: A guerra de todos contra todos

Vou tentar agora ser mais claro, sucinto e direto em relação ao que está acontecendo, em termos políticos, com o Brasil nesta primeira metade do século XXI.

Podemos, para fins didáticos (e sem total correspondência estatística com a realidade) dividir o país em três grupos populacionais: 10% de ricos; 70% de pobres e 20% de pessoas que têm características dos dois grupos. Os 70% de pobres* (principalmente eles, mas não apenas) estão caminhando mais aceleradamente para um caos com características de “guerra de todos contra todos”, sem ideologia, sem finalidade, sem ganhos coletivos, e sem qualquer organização centralizadora das “manadas” em estouro.

Tentando conter este caos popular, e ao mesmo tempo tentando canalizar para algumas finalidades coordenadas as forças humanas nele contidas, estão as lideranças políticas de movimentos sociais variados; os quais, mais visivelmente, resultaram na força eleitoral que adquiriu o PT na primeira década do século XXI. Todavia, muitos petistas e outras lideranças políticas que conseguiram canalizar alguma força destes 70% de pobres tornaram-se apenas oportunistas: passaram a ser eles próprios integrantes dos 10% mais ricos, vindo a se relacionar com a pobreza que lhes deu riqueza da mesma forma que os 10% ricos sempre fizeram, com alguma comiseração, com assistencialismo (a “Esmola Família” comprando votos no norte e nordeste, por exemplo) e com muita exploração, manipulação e indiferença - isto, contudo, e a maior parte do tempo, camuflado em populismo. Com o Bolsa Família o governo do PT institucionalizou a esmola no Brasil.

Boa parte dos petistas (entre outras lideranças originalmente populares), entretanto, seguiu mantendo sua vontade de chegar a ter o máximo de controle (de real governabilidade) sobre a massa pobre do país, mesmo depois de já terem ficado pessoalmente ricos - ou depois de já terem garantido uma boa aposentadoria ou dinheiro no exterior, para quando forem engolidos pela massa e precisarem deixar o país.

A massa popular pobre tende a eleger “gurus”, líderes, de maneira idealizada, messiânica; e, quando decepcionada, costuma abandonar este guru em função de outro, sucessivamente; terminando, após alguns anos, por gerar vários líderes que acabam por digladiarem entre si pelo poder sobre os grupos populares - enquanto estes se ocupam de assistir e incentivar as lutas em seu nome. Os líderes, contudo, por terem ascendido socialmente, e por terem que controlar grandes grupos populares, impedindo que novos líderes os ataquem, aprenderam que a massa de pobres precisa ser rigidamente dominada; dominação esta que se dá de duas maneiras principais. A primeira por meio de mentiras ininterruptas que prometam algum “paraíso possível”, de modo que o “rebanho” não venha a des-idealizar o líder. A segunda, por meio de controle ditatorial das contradições inerentes à massa (já que ela acredita em mentiras que nunca se tornam realidade, o que a leva, fequentemente, à agressão e ao descontrole), e por controle ditatorial das inconstâncias e tendências da manada a se deixar enganar por promessas de novos candidatos a líderes – o que frequentemente resulta em lutas internas contra os novos líderes que a massa a todo o momento tende a formar (os quais rapidamente devem ser cooptados para apoio e obediência à liderança já estabelecida; caso contrário se tornam rivais). Se não for assim, os líderes de grandes grupos populares sabem que rapidamente perderão seu status de poder, com os pequenos grupos que conformam a massa ficando à mercê apenas de lideranças fragmentárias, a promover uma guerra de todos contra todos, de vários grupos contra vários outros grupos, caoticamente - como tem acontecido. Esse processo, infelizmente, é um fenômeno inerente ao ser humano. Somente os sonhos de uma humanidade civilizada e moderna é que julgaram que a bestialidade humana poderia ser substituída por estados nacionais republicanos e democráticos, se auto-regulando racionalmente para o bem de todos, ou da maioria.

Quaisquer líderes populares, nesse contexto, têm que adotar a defesa da “democracia universal”: participação, liberdade e promessa de emancipação pessoal para todos. Adotam-na, no entanto, apenas como forma de atacar os outros candidatos a líderes, e como forma de atrair mais pessoas para a sua liderança. À medida que seu rebanho aumenta, contudo, cercam-se de mais e mais maneiras de ludibriar a massa, de vencer os inimigos e de se perpetuar no controle e na manobra do povo. Quando, então, a guerra de pequenos grupos contra os outros passa a ser chamada de “democracia política”.

No Brasil, ainda não há liderança hegemônica sobre os 70% mais pobres do país: PT, MST, Igrejas Evangélicas, sindicatos e incontáveis outros “movimentos sociais” ora compartilham ora disputam o poder sobre grupos populares, tentando, assim, convergir os grupos para um movimento com liderança mais unitária (como tentaram fazer com Lula e com o PT, e não deu certo).

Enquanto os movimentos populares mais disputam entre si do que se confluem para lideranças únicas, um governo centralizado originado no controle da maioria (pobre) da população não tem como se estabelecer. Ou seja: quanto mais dividida a “esquerda”, menos chance de haver uma “ditadura de esquerda” no país – que é o que resulta desse tipo de processo. Uma ditadura de esquerda é o sonho de dez entre dez grandes líderes de esquerda que o Brasil teve dos anos 1960 até este início de século XXI. Somente a ingenuidade popular é que faz com que a massa acredite que “esquerda” signifique liberdade, justiça e solidariedade. Eles defendem estes valores apenas enquanto estão na disputa, mas depois de aglutinarem o poder, mesmo se não gostam, são obrigados pela situação a se tornarem ditatoriais.

Por outro lado, com a eleição de Lula em 2002 muitos sujeitos temerosos de uma “ditadura de esquerda” passaram a acusar o PT de estar se preparando para transformar-se em força única na liderança da massa pobre do país, vindo a colocar de joelhos os demais movimentos sociais, todos os sindicatos, as igrejas evangélicas, a mídia, etc., transformando os 10% mais ricos em inimigos indesejáveis (caso não se submetessem ao PT e seus dogmas). Consequentemente, isso também resultou em maior pressão para que os 20% de classe média brasileira deixassem de tentar viver entre os dois mundos, tentando pegar para si, individualmente, benefícios dos pobres e dos ricos: um pouco do assistencialismo destinado aos pobres (saúde pública, às vezes; previdência pública, sempre que necessário; bolsas de estudo, cotas para negros, etc.) e um pouco do luxo e consumo dos ricos (segurança privada, viagens ao exterior, empregadas domésticas baratas, um consumismo tecnológico de ponta, etc.). O PT realmente tentou transformar-se em liderança única sobre a massa pobre brasileira. Quem era de classe média e teve que trabalhar com petistas enquanto Lula era presidente, e sem ser seguidor dos dogmas do partido, sabe disso: os petistas tentaram, entre 2002 e 2008, o “tudo ou nada” para dominar todos os grupos sociais possíveis – terminando por conseguir razoável êxito da forma mais deletéria possível, através do “Esmola Família” (Em 2008, haviam cerca de 12 milhões de famílias recebendo o Bolsa Família, o que resulta num eleitorado, direto e indireto, de cerca de 48 milhões de pessoas, quase a metade do número total de eleitores no Brasil).

Nesta atual guerra de pobres contra ricos, os 10% mais ricos têm um papel diferente daquele das lideranças “populares” da pobreza. Os ricos, historicamente, sempre exerceram algum controle sobre os pobres, mas apenas o suficiente para que estes trabalhassem para eles, lhes trazendo dinheiro (comprando seus produtos e ilusões) e não lhes ameaçando com o caos ou com revoltas. Para esse fim, os ricos precisaram apenas controlar os meios de comunicação de massa (o que sempre fizeram muito bem no Brasil), as indústrias, o comércio e os aparatos de governo; de modo a perpetuarem esta hierarquia social em alguns controles mais diretos sobre o caos e sobre as revoltas ocasionais, como polícia, exército, legislação e sistema judiciário – todos aqueles aparatos que o PT e correligionários tentaram conquistar mas não conseguiram de modo centralizado; tendo conseguido apenas um “aparelhamento de estado” caótico, recheado de oportunistas agindo por conta própria, e fazendo mais inimigos do que nos anos 1980 e 1990 (época em que foram bem tolerados pelos ricos tradicionais, por parecerem inofensivos, já que os inimigos mais temidos, na “esquerda”, eram o brizolistas).

Durante essas décadas (1980 e 1990) o PT e a maioria dos movimentos sociais e sindicatos brasileiros foram tolerados pelos ricos como forma de controlar revoltas e, até certo ponto, como modo de controlar o caos, em vista da falência do estado em fazer esse controle. As tradicionais elites brasileiras não souberam tornar o país soberano e governável, tendo sido demasiadamente deletérias em seu afã por dinheiro e europeização (e depois americanização) a qualquer custo. Quando Lula ganhou a eleição para presidente, em 2002, após vestir uma máscara publicitária de liderança inofensiva e cooptada, e, principalmente, quando os “escândalos de corrupção” de 2005 (o “mensalão”) revelaram parcialmente a estratégia de hegemonia que a liderança petista estava construindo nos bastidores de um governo aparentemente neo-liberal, boa parte dos ricos se assustaram com a velocidade com que o PT estava armando a sua “ditadura de esquerda” (controlando a mídia, comprando adversários políticos, armando um esquema financeiro poderoso para garantir algumas décadas de “eleições” vitoriosas, controlando a justiça através de “nomeações amigas”, financiando dívidas da Rede Globo, distribuindo publicidade estatal a todos os meios jornalísticos “subservientes”, controlando os movimentos sociais e ONGs “humanistas”, etc.). Seria uma questão de uma ou duas décadas para que ricos e classe média ficassem, literalmente, com “a corda no pescoço”, tendo que jurar lealdade à estrela vermelha e se tornar subservientes às ilusões e mandos de todos aqueles que, nos mais diversos espaços sociais, conseguissem angariar funções de chefia ou de liderança devido a terem beijado as mãos dos petistas de primeira hora.

O “vale-tudo” do PT foi, no entanto, uma aposta arriscada. Fazer “revolução branca” (sem sangue) por meio do domínio estratégico da máquina do estado e de todas as formas de controle das forcas populares assustou os ricos, e, até mesmo, muitos petistas. Fizeram inimigos por todos os lados, em todos os grupos (de ricos e de classe média) que tiveram contato com petistas e movimentos sociais durante esse período, principalmente entre os generais militares, que sempre foram alvo de todo tipo de revanchismo e de tentativa de humilhação por parte dos arrogantes petistas e simpatizantes que chegaram ao governo federal. Mas, além dos militares, até simpatizantes do PT se assustaram com a tentativa petista de implantar uma “ditadura de esquerda” de “cima para baixo”, na surdina, sem estardalhaço, sem guerras ou guerrilhas. Não esperavam inteligência e vontade para tudo isso dentro do PT. Sempre acreditaram que o esquerdismo brasileiro só sabia trabalhar com alvoroço, com invasões de terra, greves, passeatas, guerrilhas... Que o PT fosse tentar transformar uma democracia representativa fajuta em estratégia de tomada de poder, poucos acreditavam. Isso, contudo, fez crescer a ânsia de, nas eleições de 2010, escorraçar o PT para o limbo eleitoral – o que, de outro lado, faz o PT e seus aliados sinceros também acirrarem as disputas; e sabendo que, se ganharem, terão que começar a limpar o partido dos oportunistas, iniciando o mais rápido possível uma ditadura de esquerda, antes que seja tarde, se já não o for (devido aos petistas terem se corrompido demais, tendo perdido a vontade de ariscar o pescoço num “tudo ou nada” definitivo).

Nos bastidores das disputas por cargos, eleições, verba pública, controle sobre a mídia, coligações partidárias, dinheiro para campanhas eleitorais e apoio de movimentos sociais, o que está a ocorrer é guerra de ricos contra pobres: dos ricos tentando desarticular as lideranças dos pobres (para que esta não inicie uma “ditadura branca de esquerda”) e das lideranças dos pobres tentando centralizar todos os movimentos sociais, sindicatos, etc., de modo a dominar os meios de controle da massa que os ricos sempre detiveram (como mídia, polícia, sistema judiciário, escolas, sistemas de ensino e saúde, igrejas, etc). Nesse quesito, os líderes “esquerdistas” brasileiros foram mais bem sucedidos do que os políticos de “direita”, conseguindo, nas décadas de 1970 a 2000, disseminar a sua “visão de mundo”, tornando até mesmo os ricos (e a classe média, principalmente) reféns de seus discursos e de sua maneira de lidar com a massa (sempre prometendo-lhes o impossível e a tratando como detentora de grande valor moral e humanista).

Nas próximas décadas, 2010 e 2020, se a tendência à ditadura de esquerda continuar acontecendo (o que acredito ser pouco provável, me parecendo mais que a próxima tentativa de unificação do controle das massas venha principalmente por meios religiosos, principalmente evangélicos – embora o “socialismo petista” também seja uma espécie de messianismo), é possível que os ricos tentem organizar uma nova “ditadura de direita” para impedir esse avanço.

A ditadura militar brasileira, de 1964 a 1985, emergiu para impedir esse tipo de manipulação e controle da pobreza brasileira pelos “socialistas” e esquerdistas do período. A guerra entre ricos tradicionais (donos de terra e, depois, de empresas) e messianismo ideológico (socialista), portanto, já vem de longa data. A ditadura militar impediu a chegada abrupta dessas forças ao estado e ao controle “estatal” das massas, deixando aos “esquerdistas”, contudo, a possibilidade de disseminação ideológica de seus valores e crenças por vias intelectuais (escolas, universidades, literatura, mídia) e eleitorais, como aconteceu nos anos 1980 e 1990, culminando na tentativa de “centralização” do PT. Com a eleição de Lula, em 2002, esse embate voltou a ficar de novo mais claro, com as duas forças (ricos tradicionais e novos manipuladores das massas) se duelando para ver qual o grupo conseguirá assumir o comando da próxima ditadura no país. Se as “forças de esquerda” continuam fragmentadas, com boa parte de seus líderes se contentando em ser aceitos entre os ricos, é possível que os ricos tradicionais somente venham a concretizar novo governo ditatorial quando o caos social alcançar um nível intolerável para a manutenção da vida confortável e segura (para eles próprios) no país. Mais precoce do que isso, uma outra “ditadura de direita” poderia vir, novamente, em resposta à tentativa dos líderes populares de unificarem seu poder e de se vingarem dos ricos - nada como o sacrifício de inimigos (reais ou imaginários) para dar sentidos às frustrações e ao ódio.

É possível, entretanto, que entre esses dois lados surjam novas forças a liderar a pobreza e a tentar a hegemonia de controle sobre as massas populares, e, conseqüentemente, sobre governos, como é o caso dos evangélicos. Embora estes, mais facilmente, tendam a se aliar aos ricos e a encampar alguma ditadura que tenha mais cara “de direita” (com menos promessas de emancipação e igualdade para os pobres, por exemplo), a sua emergência parece se dar por um caminho próprio, mesmo que, por enquanto, as forcas políticas evangélicas estejam entranhadas tanto na “direita” quanto na “esquerda”, sem capacidade de se “eleger” enquanto forca autônoma.

De qualquer modo, logo a classe média brasileira terá que optar entre se submeter a uma ditadura onde ela não é bem vinda (no caso da “ditadura de esquerda”) ou a uma ditadura em que sua superficial compaixão pelos pobres (com grande simpatia por “valores” de esquerda) terá que dar lugar à necessidade de manter seu status burguês e seus pequenos deleites com os prazeres dos ricos. Os brasileiros de classe média ficarão entre estas “opções” ditatoriais, de um lado, e o crescente caos social, de outro. Talvez tenham que se converter a algumas religiões, especialmente evangélicas, como forma de sobreviver. Ou terão que migrar e se tornar “exilados”, indigentes, criminosos ou vassalos em outros países. A maioria, no entanto, é possível que vá apenas se tornar parte do caos e, em raros momentos de lucidez (lucidez que se tornará insuportável), vá se desesperar ou tentar se matar; ou tentar se entorpecer (de cerveja ou de remédios) a fim de não ver nada.

Esta guerra de ricos contra pobres, e, ao mesmo tempo, de todos contra todos, está acontecendo nos subterrâneos do Brasil. Logo os neutros ou alheios correrão o risco de serem considerados inimigos de qualquer dos lados mais claramente em luta; ou serão detonados pelo caos. Por isso eu, Tomázio, esse comentarista assustado, logo estarei me despedindo deste local de observação pura (e crítica) do caos brasileiro.

Tornou-se arriscado escrever estes textos. O niilismo hipercrítico é considerado inimigo de quaisquer dos lados em luta no país, já que serve de arma para qualquer das partes, e ainda estraga os sonhos burgueses da classe média. Também já me cansei de qualquer tipo de intelectualidade que tenta pensar o Brasil, não me animando em dialogar com “pensadores” brasileiros. Como quase todo mundo está se aliando a um dos lados dessa guerra, quase tudo que se discute sobre o país e o mundo se tornou falacioso. Ambos os lados usam as mesmas táticas intelectuais: se fazem ou se acreditam sendo vítimas minoritárias do lado oposto, o qual estaria a dominar o establishment (o pensamento hegemônico) e a silenciar o lado rival de todas as maneiras possíveis. Em qualquer conversa, consequentemente, sempre te olham de modo a ver se você é inimigo ou adversário, e dialogam apenas a partir desta perspectiva moral. A intelectualidade brasileira está morta, depois do muito pouco que ela viveu. Já me cansei, portanto, de “intelectuais”. E também não quero saber dessas lutas no campo puramente moral da ação sem reflexão: as próprias lutas me mostram que o ser humano não vale a pena. Não há nada além delas: não há vitoriosos, não há mundo melhor, não há futuro. O que há é um mundo agonizante e nada mais. Apenas me protegerei dos lutadores, de novos fanáticos religiosos e do caos, tentando fazer com que a destruição me chegue o mais tarde possível. De qualquer modo, desejo uma “boa guerra!” aos que continuarem levando suas vidas a sério. E que tenham piedade dos que não querem lutar – embora, não acreditando nisso, cuidarei de me defender de todos, enquanto for possível. Por isso, não estou a fim de continuar dando minha cara à tapa. Não há para quem escrever. Ainda continuarei colocando outros textos aqui, já escritos, mas depois, adeus!

(* Em 2007 e 2008 o governo do PT esteve tentando “forçar a barra” a fim de considerar boa parte dos pobres brasileiros “incluídos” na classe média. Obviamente isso era um viés de pesquisa, forjando uma falsa “inclusão social” da pobreza, para que esta se sentisse melhor ao assistir os telejornais chapa-branca. Durante um tempo, contudo, isso é crível, já que os pobres do país realmente passaram a comprar mais bugigangas eletrônicas e a se divertir mais nas “baladas” – o que lhes deixou a sensação de serem “classe média”. A meu ver, contudo, essas “conquistas” imediatistas da pobreza fazem parte do caos. Logo estarão se matando por causa de um celular novo, quando a euforia consumista brasileira não conseguir se manter, já que ela depende de um endividamento crescente da pobreza.)

22.9.08

Brasil Apocalíptico IV: ato profético, a fragmentação do Brasil

A imbecilidade brasileira às vezes me dá pena, outras vezes me enoja e enraivece, mas a maior parte do tempo apenas me deixa com menos vontade e com menos saco de conversar com sinceridade com meus conterrâneos. Quando conseguem sair do deboche e da ironia, quase sempre regada à cerveja ou outro entorpecente (o humor é o principal recurso do brasileiro ante a realidade que ele não suporta conhecer em termos pensados), e deixam de se apegar ao “não concordo porque não concordo” (a negação arbitrária e cega do óbvio, por necessidade de auto-afirmar-se como alguém de opinião própria), os brasileiros costumam se apegar a outros estratagemas habituais da intelectualidade ocidental.

Atualmente, quase todos os artifícios da intelectualidade decadente, em especial as metodologias e conclusões do academicismo das ciências humanas (incluídas aí as ciências sociais e as ciências naturais, quando lidam com a definição do que é o ser humano e de como ele produz seu comportamento coletivo), tornaram-se integralmente ludibriações retóricas a fim de negar os possíveis insights intuitivos acerca da realidade que alguns candidatos ao meio acadêmico acabam trazendo com eles – mas quando estes “pessimistas” conseguem entrar para o academicismo, lá dentro eles acabam sendo forçados “metodologicamente” a mudar de idéia.

Um dos meios que boa parte dos acadêmicos utiliza para negar a catastrófica situação brasileira é dizer que não é realista afirmar o que irá acontecer com o país no futuro, que isto não é lógico, não é objetivo, que não é verdadeiro ou não é passível de precisão. Em outros países do mundo este argumento é até aceitável para a discussão, dado que a piora das coisas se dá em nível muito lento, cotidianamente imperceptível no decorrer de uma vida intelectualmente lúcida, que dura em torno de 40 anos (mais ou menos dos 25 aos 60 anos de idade para aqueles sujeitos com melhor capacidade intelectual de perceber o mundo ao seu redor; já que a maioria das pessoas vive enclausurada em suas fantasias individuais, e não consegue perceber o que a cerca em tempo algum). Assim, nesses países mais estáveis, como Estados Unidos, Canadá e alguns países europeus, é muito difícil que alguém consiga ter a capacidade de entender com sutileza como era a vida antes dele próprio adquirir capacidade intelectual de perceber o mundo ao seu redor (e por conta própria, sem ser pautado por mídia ou por livros teórico-retóricos). Apesar disso, boa parte desses países mais estáveis, atualmente, estão projetando um futuro sombrio para o mundo, e estão tentando fazer políticas públicas de acordo com esta perspectiva catastrófica. Mas isso no Brasil é impossível acontecer. Aqui um otimismo deslumbrado é regra número um para a convivência em qualquer círculo social.

No Brasil, mais ou menos da década de 1950 para cá, a cada 10 ou 15 anos de exercício de interpretação crítica da realidade é possível se concluir a degradação cultural da população e da vida social, do mesmo modo, por exemplo, que aconteceu na Rússia na segunda metade do século XIX (por isso tendo sido época que surgiram escritores-pensadores tão críticos a respeito da decadência cultural daquele povo, decadência que de lá para cá tem apenas se agravado, por mais que ilusões e ditaduras comunistas tenham conquistado algum fôlego extra, transitoriamente). De modo também intuitivo, muita gente, principalmente adolescentes (que se tornam cada vez mais cedo pessimistas, hedonistas e suicidas), tem concluído que a situação está difícil e piorando. Se conseguem resistir ao cerco que tenta isolá-los como deprimidos e/ou empurrá-los para as drogas (lícitas, ilícitas ou prescritas por médicos), às vezes conseguem fazer uma ou outra música, uma ou outra poesia, antes de se matarem ou de se adequarem à alienação coletiva, ou ao seu papel de desajustados por causas internas (conflitos pessoais, disfunções de neurotransmissores cerebrais, transtornos de personalidade, genética familiar, etc.).

Diante da maioria mergulhada em suas fantasias de futuro (trabalhar, progredir na vida, juntar dinheiro, ter filhos, etc.), evidenciar, argumentativamente ou intuitivamente, que o Brasil não tem futuro promissor (e sim um futuro grotesco, genocida, auto-destrutivo, numa luta de todos contra todos pela sobrevivência imediata dentre os que aqui ficarem) é pedir para ser taxado pela maioria dos alienados de louco profético, de fazer futurologia, ou de ser pessimista sem fundamento. Não percebem que a futurologia sem base, sem fundamento, justamente está na crença que a maioria mantém, de modo não pensado, em algum futuro promissor, em um futuro razoavelmente parecido com o que lhes deu a possibilidade de se tornarem adultos sem se matarem ou sem serem mortos, coisa que seus filhos, ou, principalmente, seus netos, dificilmente terão.

Hoje eu estava pensando exatamente toda essa merda enquanto caminhava pelas ruas da cidade de Blumenau, em Santa Catarina, e ouvia e observava a gente daquela cidade.

Eu estava lá a passeio, embora fosse um passeio com segundas intenções: tentava encontrar alguma cidade para viver meus próximos anos que não fosse tão caótica e que não estivesse rapidamente se deteriorando como a totalidade das grandes cidades brasileiras.

Blumenau, com 300 mil habitantes, quase não tem seus bairros centrais tomados, durante a noite, por miseráveis andarilhos, viciados em craque ou por gatunos desesperados de todo tipo, como acontece com todas as cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes. Portanto, eu estava lá vendo se conseguiria mudar-me para aquela cidade, numa espécie de fuga do Brasil sem precisar sair do país, num exílio para o interior.

Blumenau visualmente é uma cidade sem manifestação explícita de caos, de degradação em estágio avançado. As pessoas, nitidamente, vivem agitadas, crentes em seu esforço construtivo, trabalhando, estudando, construindo “seu futuro” (e o futuro para os seus filhos) de modo contínuo, certas de que aquilo que possuem se manterá para os próximos anos ou mesmo progredirá para melhor. É, portanto, uma cidade burguesa feliz, com pessoas sérias e compenetradas para assim mantê-la.

Após passear durante todo um dia por quase toda a cidade, eu fui passear aleatoriamente por algumas ruas e lugares durante a noite. Acabei ouvindo, ao acaso, o sermão um padre de uma igreja no centro da cidade (igreja, aliás, que é um enorme monumento católico, só comparável, em tamanho e exuberância, ao shopping da cidade, o qual um motorista de táxi se gabou de ser um dos poucos do Brasil que funciona 24 horas por dia). Ao ouvir o padre, ainda do lado de fora da igreja, notei que ele estava falando sobre “depressão”. Chamou-me a atenção que ele falasse sobre isso num sermão às sete da noite, num dia de trabalho comum, e acabei entrando na igreja para ouvi-lo um pouco mais. A meu ver, ele estava dando um sermão, uma bronca mesmo, na minguada platéia de fiéis que ali se encontrava – número de pessoas que parecia ainda mais reduzido diante do tamanho da igreja. Mais ou menos assim ele falava:

- Não podemos deixar que a depressão tome conta dos moradores de nossa cidade!... Não é isso que vem acontecendo? E quantos são os adolescentes que cometem suicídio? E por quê? Vocês não sabem por quê?! Blumenau sempre fora uma cidade próspera, de gente trabalhadeira e honesta, que prezava suas tradições e sua vida simples. Mas agora a ganância, a cobiça, o apego ao dinheiro, fez quase todos esquecerem de tudo. E o que é isso?! Só pode gerar, lá no fundo, uma grande depressão, que vai crescendo, crescendo, e uma hora dessas, vai engolir todo mundo. A vida não se basta nessa corrida ensandecida pelo dinheiro... O vazio que fica por baixo disso cresce e cobra seu preço!...

Parei de prestar atenção nas palavras do padre e pensei: ele deve ter a convicção de que sua igreja ainda se povoará de desesperados, perdidos e arrependidos, prontamente dispostos a lhe dar ouvidos. Deve ser mesmo só uma questão de tempo. É um padre à espera que o apocalipse seja anunciado e as pessoas definitivamente saibam de sua chegada.

No dia seguinte notei que Blumenau não tinha tantas igrejas evangélicas quanto a maioria das grandes cidades brasileiras. Mas o padre estava certo quanto ao retorno das pessoas à religião, após o fim da ilusão materialista e monetária que vem dominando nas últimas décadas; mas ele estava enganado quanto ao tipo de religião que iriam voltar a buscar: seriam religiões mais primitivas, menos intelectuais. Seriam religiões muito mais baseadas nas sensações das pessoas, e menos no intelecto. Na noite anterior, somente eu e alguns velhinhos ouvíamos aquele sermão de um padre ultrapassado. Verdadeiro naquilo que falava, mas incapaz de se comunicar com o seu rebanho carente por catarses em rituais mais ativos. Seu tipo de religiosidade não tem vez no Brasil do século XXI. Será mais um dos intelectuais engolidos pela bestialidade à brasileira.
Mais um dia em Blumenau e eu já queria ir embora. Era só uma cidade com pessoas ingenuamente felizes e produtivas, automaticamente correndo atrás de dinheiro, de progresso, e sem mínima reflexão sobre nada. Logo este fugaz tempo de prosperidade iria passar, e os mendigos brotariam, os drogados se multiplicariam, o crime se tornaria fora de controle – apenas mantido à distância dos ricos que conseguissem viver entrincheirados em seus bairros de classe alta, para que a ilusão de progresso e prosperidade durasse um pouco mais de tempo, trancada com as pessoas em seus apartamentos, carros e shoppings.

Já morei em pelo menos quatro cidades brasileiras que passavam por este tipo de decadência: Brasília, Curitiba, Goiânia e Florianópolis. Enquanto são cidades pequenas ou médias, prosperam, atraem alguns poucos intelectuais (professores, geralmente), empresários empreendedores e um processo educacional que parece se difundir aos mais pobres. O consumismo de inutilidades tecnológicas e a aparência modernosa dos bairros e centro comerciais mais ricos faz a classe média se sentir próspera. Fica parecendo um lugar civilizado, hospitaleiro, ordeiro e promissor, com pessoas felizes e autoconfiantes – a pobreza se amontoa nos bairros afastados. Aí começam a chegar as legiões de pobres que silenciosamente migram dentro do Brasil, sempre em busca de um lugar promissor onde acreditam que estarão livres da miséria e da ignorância, geralmente saídos do nordeste ou, nas últimas duas décadas, também do sudeste. Misturam-se com os pobres do próprio lugar e em 10 ou 20 anos a população da ex-cidade próspera está duplicada ou triplicada. Se transformam em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro: restos de riqueza, de luxo e glamour sitiados pela pobreza, pela violência, pelo horror e pelo caos, e gradativamente perdendo os limites e a proteção que separam os pobres dos ricos.

Enquanto pensava peguei um táxi rumo ao aeroporto. Era hora de deixar mais essa ilusão para trás. Eu não conseguiria morar em cidades de porte médio no Brasil, e adentrar esse tipo de vida produtiva inútil da qual já fizera parte em outros lugares. Acho que vou acabar mesmo num sítio, com cerca elétrica, armado, sem televisão e sem telefone, pra viver fingindo que a humanidade já morreu, tentando esquecê-la ou sofrendo seu luto longe dela.

O taxista estava a fim de conversar. Não me interessei pelo futebol ou pela October Fest, então puxei para o meu assunto, e ele foi falando:

- Blumenau já foi muito boa pra se viver e ganhar dinheiro. Eu estou aqui faz 15 anos. Saí de São Paulo. Consegui ter esse táxi aqui e tenho mais um. Na época tentei trazer um irmão meu junto comigo, mas ele não quis. Só agora que ele veio. Tem um ano que tá aqui. Mas tá difícil. Não tá conseguindo trabalhar. Já abriu um restaurante e já fechou. Já tentou vender roupa e não deu certo. Agora ele tá de emprego em confecção. Vou acabar tendo que trazer ele pro meu táxi, pra ser empregado meu. Eu não falo isso pra ele, que é pra não desanimar, já que em São Paulo tava muito pior, mas a época boa de Blumenau já passou. Agora, quem pode, colhe o fruto, e quem chega, só tem a sobra.

Deixei Blumenau para trás sabendo que provavelmente jamais voltaria a pisar naquela cidade. Minha idéia de achar um lugar sossegado no Brasil estava sofrendo seus golpes finais.
O cerco vai se fechando. O único lugar em que a classe média vem conseguindo, pelo menos por algum tempo, se esconder, tem sido em seus condomínios fechados. Quando o caos se alastra, a única coisa que aqueles que querem ordem e luxo podem fazer é se isolar em prosperidades fechadas e artificiais. Isso, contudo, não resiste ao tempo. Os ricos, sozinhos, geralmente são improdutivos, não colocam a “mão na massa” uma geração após a outra. Mesmo países ricos e organizados, como Canadá e os escandinavos, estão deixando suas fronteiras abertas para a imigração, pra atrair os sujeitos que vêm dos países pobres – senão sua população não cresce tanto, e vão deixando de ter mão de obra barata e produtiva. Mas se deixam as fronteiras totalmente abertas, acontece como aconteceu na França e nos Estados Unidos: a pobreza do resto do mundo invade e toma conta, e o caos floresce ainda mais; e o populismo se instala e a cultura do país se torna uma colcha de retalhos de variadas confusões.

A legião de pobres prolifera muito mais do que a porção artificialmente civilizada da humanidade. Mas os “civilizados” não vivem sem a exploração das legiões de pobres: precisam sugá-los no trabalho alienado e no consumismo de inutilidade tecnológica; e sem que eles tragam junto com o consumismo e com a força de trabalho a ser explorada sua superpopulação e caos.

Os ricos vão tentar cada vez mais se isolar, mas sua capacidade de fazer isso é muito limitada. Agüentam por algum tempo, erguem seus muros e constroem seus paraísos artificiais, mas logo depois voltam a se misturar com a legião de migrantes que estão sempre a fugir de um lugar para outro, e terminam sitiados pelo caos das grandes cidades; até serem absorvidos por inteiro. É por isso que não ma considero, junto com várias outras pessoas, profetizando um futuro totalmente caótico para o Brasil. Para mim esse futuro já chegou, o caos já me cercou, e eu só quero um lugar para viver longe dele.

Claro, a situação vai piorar, e eu queria não ver. Ainda irão acontecer, além das tentativas de se construir número cada vez maior condomínios fechados nas grandes cidades, tentativas de algumas regiões de se protegerem da invasão silenciosa das pobrezas migrantes. O sul do país logo vai querer se proteger do sudeste, depois que este foi invadido pelos nordestinos retirantes. O sudeste vai querer impedir a piora de sua situação, e tentar empurrar os nordestinos de volta para as suas cidades, alem de fechar as portas para novos migrantes. Mas ao contrário dos Estados Unidos, da Europa, de Israel, os estados brasileiros não vão conseguir levantar seus muros a tempo – até porque o tempo pra isso já passou. Quando pensarem no que já está há ocorrer faz algum, o caos já terá se tornado ingovernável demais, muito mais do que é hoje. Mesmo os sulistas já deixaram adormecer por tempo demais o seu sonho separatista.
Como Blumenau, os brasileiros ricos e de classe média estão entorpecidos com sua prosperidade momentânea, com sua capacidade de ganhar dinheiro rápido e comprar bugigangas tecnológicas, e ocupados demais com suas mulheres que se deprimem sem saber por que, com suas filhas adolescentes grávidas e seus namorados drogados, com sua necessidade de encher a cara de cachaça para ver se conseguem se divertir e esquecer a merda. A riqueza brasileira já sucumbiu ao caos, tornou-se uma leve sombra do sonho civilizatório europeu; apenas imitação mal feita de uma fantasiosa humanidade moderna, racional e tecnológica. E como toda imitação, está quebrando antes da hora.

Mesmo em uma cidade aparentemente bonitinha, como é Blumenau, o sonho civilizatório alemão já ficou muito para trás. Se até a Alemanha o perdeu, o que dizer dos fugitivos que vieram parar no meio deste Brasil confuso. A própria prosperidade com que sonharam e pela qual trabalharam já se diluiu neste país miserável e perdido.

8.8.08

E a classe médi(c)a não vai mais ao paraíso

(Em 2003, quando começava a perceber que eu estivera um pouco enganado sobre o Brasil, sobre o mundo e sobre a vida em geral, escrevi este texto para alguns amigos médicos, que não concordaram, é claro, com meu ponto de vista. Coloco-o aqui, já que alguns leitores têm estranhado um médico criticar a medicina.)

Belíssima parecia ter sido a década de 1990 para os brasileiros. O país havia entrado de vez no ritmo de avanço tecnológico do mundo desenvolvido. Deixava de ser um país subdesenvolvido ou de terceiro mundo para ser um país em desenvolvimento, indo diretamente ao seu velho sonho de país do futuro - e sem revoluções, guerras, guerrilhas, terrorismo, conflitos de classe. Tudo na costumeira paz...

Esta era, então, a ilusão (já que nada mais restando) de todo um povo sofrido, cansado, explorado e excluído, que não suportava mais sua realidade de país submundano, de desigualdade social abismal, de exploração servil e submissa.

Iludida, o que podemos chamar de classe média brasileira, deslumbrou-se. Sua sonhada hora havia chegado. Ela enfim poderia ter carros importados, como via nos filmes feitos ao seu gosto; teria computadores de última geração, e não mais as sucatas de um país atrasado e de mercado fechado; cd players, vídeos, DVDs, home theaters, o acesso irrestrito a uma casa moderna; mais viagens de avião, mais férias na praia e no exterior, com preços que já não subiam com uma inflação insana. Oh! maravilhas da estabilização, do livre comércio entre as nações democráticas. Bendita hora de uma nova vida de bem-estar e de prazeres! Enfim a hora de tornar-se cidadão sofisticado de um mundo globalizado e definitivamente civilizado. Bendita época que acolhia finalmente a minguada classe média brasileira, com seus novos valores morais, libertada do patriarcalismo cristão, investida, agora, da busca de consumo de ponta e felicidade pessoal ilimitada - e frutos de sua velha crença no trabalho e na prosperidade que finalmente traziam suas glórias, “graças a Deus!”.

Uma classe de profissionais brasileiros, cuntudo, vem a alguns anos queixando-se da parte que lhes coube na colheita de todas estas glórias. No último ano, então, nem se fala. Fazem circular artigos em revistas especializadas, reportagens em jornais de classe, ensaios em revistas e jornais da grande imprensa de todo o país: são os médicos brasileiros (em sua maioria) que estão envergonhadamente tentando se mostrar publicamente como uma classe profissional fodida, e pedir socorro. Não sabem muito bem ainda para quem - às vezes sentem-se representados em associações, ou na política, mas quase sempre sentem-se apenas enganados, nem tanto pelas pessoas, mas pela ilusão (embora culpados não faltem). Perderam os médicos 351% de ganho nos últimos 9 anos (1994 a 2003). Os planos de saúde estão pagando 300% menos (em 2003) do que pagavam por consulta em 1986. Os médicos continuam a se autodenominar uma classe de profissionais autônomos, mas tornaram-se empregados sem direitos trabalhistas (como a maioria dos brasileiros). A rede pública de saúde falida paga cada vez menos, os demais profissionais de saúde exigem isonomia salarial com o médico (e o salário de todos vai se igualando, sim, por baixo); a grande mídia brasileira cada vez mais mostra o sofrimento nas filas de hospitais, e bota-se boca no médico, o culpado imediato pelo lixo de atendimento da rede pública. E a sombra do caos da medicina dos EUA se aproxima - com toda ínfima ou escandalosa falha, real ou imaginada, cabendo ao médico respondê-la no tribunal, e sacando a indenização paga por sua seguradora contra processos por erro médico.

Um dos sonhos dourados de tantas famílias brasileiras emergentes, ter um filho médico, não raro vai se revelando, para os filhos desses médicos, o que é ter um pai frustrado, angustiado, que trabalha demais, que quando está em casa está exausto e mal-humorado, e, comumente, para ter prazer e sentir-se feliz (não é este o objetivo, afinal?), precisa mesmo é “encher a cara” ou se “chapar”.

Mas que absurdo é esse?! Coitado dos médicos!... Parece um cenário em que eles estão se sentindo meramente como profissionais de uma categoria em decadência, tendo como única opção de sobrevivência o "salve-se quem puder"!?...

As causas dessa decadência, porém, são as mesmas de quase tudo, embora incrementadas nos últimos anos: o sucateamento econômico da saúde pública brasileira, em geral utilizada com fins político-eleitoreiros por aqueles que lucram com a miséria ou com o descaso público; o trabalho médico explorado por empresas que têm relação apenas mercantil com a saúde (às vezes dirigidas por médicos, a explorar a própria classe e a própria sociedade em que vive); a dependência cada vez maior do marketing pessoal do trabalho médico, como se apenas fosse vendido um produto, um objeto qualquer a ser explorado pela "visão de mercado". Cenário este, de marketing e mercantilização, em que, disfarçadas de ensino e pesquisa, estão as universidades públicas brasileiras e as faculdades particulares - estas estando até o pescoço atoladas, completamente misturadas ao caos mercantil, a lucrar em cima dos sonhos e da ambição da classe média brasileira.

Mas a pergunta que fica é: qual será o resultado desse somatório de distorções do trabalho médico? Olhando para o próprio umbigo, seja que o trabalho médico está se tornando moralmente escravo de empresas, de gestões públicas irresponsáveis e da necessidade individual de agir de forma marqueteira e agressivamente competitiva para manter as próprias expectativas acumuladas ao longo dos anos; tentando se garantir apenas pessoalmente, com os demais colegas de profissão (talvez até os próprios filhos num futuro próximo) deixados a "se virar", e se não conseguirem, passando-se a discursar ou acreditar que seja devido ao fato de serem "ruins de serviço", pessoalmente fracassados.

Mas do outro lado da mesa de cada médico ainda trabalhando na rede pública, encontra-se um brasileiro pobre, como a maioria dos brasileiros: sofrido, pressionado pelo colapso social do país, excluído, desconfiado, humilhado, em uma nação que ainda acredita que sucesso ou fracasso dependem de esforço individual. Poderiam estar unidos, em alguma tentativa de resgate de cidadania e dignidade, médicos, demais profissionais da saúde e pacientes do SUS (os brasileiros pobres). Mas na realidade como estão? Estão se engalfinhando: médicos perdem a ética, trabalham em condições iatrogênicas e se acusam, em busca de mais pacientes particulares ou de guias de planos de saúde; profissionais de diferentes áreas se armam corporativamente para disputar o mercado; pacientes acusam os médicos pela demora, pela consulta rápida, por não terem tempo de explicar nada, por errar diagnóstico; médicos chamam os pacientes de "jacarés", passam a atender somente por dinheiro (cada vez menos), muitas vezes com crescente rancor, cinismo e arrogância (para não perder pelo menos a pose). Infelizmente, são todos culpados e vítimas. Resta saber até quando continuarão a se comportar como gado na fila do abatedouro, só coiceando (de vez em quando) quem vem logo atrás, empurrando.

Sou partidário de tentarmos nos ater à realidade, por pior que ela seja, mesmo por falta de opção, já que na situação social que se encontra o Brasil, manter esperanças mágicas é apenas cultivar ilusão diante de uma realidade que se deteriora rapidamente. Se nos últimos 100 anos a medicina propiciou status social e dinheiro para muitos médicos, este não é mais o cenário para a maioria dos médicos da atualidade, e muito menos para os do futuro. Se aqueles que ainda conseguem passar por um funil cada vez mais estreito, sem perder a dignidade, a ética e a solidariedade (casos raros), não voltarem-se com o olhar para a classe médica e para toda a sociedade brasileira, abrindo mão às vezes de um pouco de status, de conforto, de dinheiro, de tranquilidade e de sensação de auto-realização, em prol de um olhar coletivo para toda uma classe profissional que se deteriora, e para um país que afunda na desigualdade social, a situação continuará a mesma. Até porque, na "fila do abatedouro", é verdadeiramente "salve-se quem puder!". Ou seja, ninguém. Numa situação de colapso social, ricos, pobres e remediados estão todos nessa fila. Está ficando mais claro que carros blindados, condomínios fechados, shoppings, seguranças e cercas elétricas não resguardam os remediados de sofrer as mazelas da violência, do tráfico, da dependência de drogas, do álcool, do suicídio, da depressão, da paranóia, do consumismo vazio, da alienação, da corrupção, da vida sem sentido... Tais proteções apenas retardam o tiro (podem, na melhor das hipóteses, ficar para os filhos). Estamos todos no mesmo país e no mesmo mundo, embora o abismo da desigualdade social iluda a ponta de cima com a sensação de poder construir o paraíso cercado de miséria. Nos últimos anos a realidade está escancarada. Somente com muita, mas muita injeção de alienação para se conseguir negá-la.

Alienação, porém, é uma necessidade humana. Para aqueles que, com certeza, tentarão individualizar nesses parágrafos apenas a visão pessoal de alguém que chamarão de pessimista (é assim que se particulariza a tragédia coletiva) – a fim de necessitar continuar sonhando com uma sociedade consumista e moderna (que para os brasileiros nunca existiu além da tentativa de imitar a vida daqueles que continuam a nos sugar sem nos deixar ao menos o bagaço), vai aqui alguns indicadores sociais brasileiros da realidade atual (2003): a taxa de desemprego no Brasil está acima de 20% (os EUA, com 6% de desemprego se consideram em grave recessão); o Brasil tem hoje a quarta pior distribuição de renda do mundo, atrás de quase todos os países africanos, asiáticos e latino-americanos (possui 53 milhões de brasileiros sobrevivendo com menos de meio salário mínimo mensal – 40 dólares por mês); é o terceiro país com maior número de assassinatos por violência urbana do mundo (numa guerra civil disfarçada em crimes comuns e sem objetivos, de pobres contra pobres e de ricos contra todos). A revista The New Yorker publicou uma matéria de capa em março deste ano (2003) sobre as elites brasileiras, referindo-se às mesmas como estando sitiadas pela violência e pelo medo, mas ainda tentando sofisticadamente viver nos interiores protegidos, como se a degradação social não as atingisse. Por outro lado, as três revistas semanais mais vendidas do Brasil (portanto que mais influenciam ou reproduzem a visão de mundo da classe média e médica brasileira), em uma típica semana do mês de junho de 2003, cumprindo seu papel, pautavam em capa, respectivamente, uma matéria com os índices da violência urbana crescente em todas as regiões do Brasil; a outra descrevendo como a classe média e os mais ricos estavam fazendo para se proteger da violência; e a terceira capa sendo uma matéria de como profissionais bem-sucedidos em cada área profissional obtiveram sucesso pessoal. Mas parece ter algo incompatível aí: será que o individualismo ainda é mesmo suficiente para o sucesso ou mesmo para a auto-proteção da classe média? Será que já foi? A classe médica, com certeza, está sentindo na pele esta contradição, entre realidade caótica e valores de vida modernos - da impossibilidade de realização individual numa sociedade que se deteriora.

A decadência da classe médica brasileira, infelizmente, nada mais é do que a classe média brasileira sendo sugada para o abismo social que sempre esteve presente em toda a história do país, mas que agora está afetando parte daqueles que queriam seguir acreditando e vivendo em um país de maioria miserável, mas continuando a usufruir dos privilégios de ser elite em tão profunda e duradoura má distribuição de renda. O sonho da classe média acabou. Contudo, talvez isso seja mesmo uma verdadeira democracia: não foi dividido, com os pobres deste país, o bolo econômico e de cidadania das elites; agora estão sendo divididas as mazelas da miséria social e cultural da maioria. Mas o povo que se cuide: as elites brasileiras, velhas e novas, continuam as mesmas de sempre; e o poder, a corromper – e mudando versões da realidade - como nunca. Quando parece que é o limite, sempre se acha o que explorar um pouco mais.

29.6.08

O Estado Brasileiro, sua falência e seus tipos humanos

Sempre fiquei intrigado por entender melhor uma das grandes contradições que ajudaram o Brasil a ser um país condenado, que é ter um estado administrativo grande, cheio de funcionários, órgãos, leis e regulamentações, e, ao mesmo tempo, ter uma vida social e política onde a ausência de estado e de governo é a tônica. Já me cansei de falar em outros textos que o Brasil é um país desgovernado e, a esta altura, ingovernável; mas ao mesmo tempo é um país com um governo grande, caro e pesado; em suma, um país com uma grande máquina administrativa que, ao final das contas, quase nada administra.

A resposta academicamente tradicional a esta pergunta costuma defender que o estado brasileiro nunca se lançou prioritariamente à tarefa de governar o país, e sim a outras funções. Primeiro o Estado colonial serviu de entreposto à exploração européia. O improvisado governo brasileiro à medida que foi se constituindo, no período colonial, tinha a função apenas de gerenciar o plantio de cana-de-açúcar ou a extração de ouro para ser levado à Europa, mantendo viável a exploração da mão-de-obra escrava e garantindo que esta estrutura empresarial exploratória da colônia continuasse funcionante e lucrativa. Conseqüentemente, devido à própria exploração, o Estado logo adquiriu também a função de controlar os pequenos grupos que se revoltavam contra os coronéis, os portugueses (entre outros colonizadores) e suas explorações ferozes. Em seqüência, o estado colonial se converteu, no período monárquico (século XIX), no estado que se esforçava para manter viável uma sociedade fundada na exploração, no massacre de povos inteiros e na tentativa de fazer com que esta mistura de povos explorados resultasse em uma civilidade estável. Além disso, o Estado imperial também se esforçou por produzir alguma imitação (mesmo que canhestra) das cortes e intelectualidades européias.

Sem qualquer real ruptura com essa sua origem improvisada e exploratória, o estado brasileiro se burocratizou durante o século XX. Cresceu violentamente a fim de criar uma infra-estrutura que mantivesse a economia exploratória em um novo nível industrial, gerando produtos (café, soja, carne, etc.) internacionalmente competitivos com os produzidos em outras zonas de exploração. O Estado brasileiro, no século XX, passou a ser responsável por portos, ferrovias, estradas, leis, sistema jurídico e polícia, estes últimos a proteger os coronéis fazendeiros e suas criações de gado, plantações de café e, mais recentemente, de soja, bem como garantindo uma pequena produção industrial pseudo-nacional (multinacionais com sedes no país), um grande comércio importador de bugigangas internacionais, e, mais atualmente ainda, protegendo os bancos e um novo tipo de exploração mercantil; além de proteger, é clara, uma certa civilidade burguesa que continuava a imitar as ex-metrópoles coloniais e novos centros de domínio cultural – proteção esta fundamental para manter a legitimidade do comércio de bugigangas internacionais para o povo-bunda do Brasil.

Vendo a desgraça num futuro não muito distante, entretanto, alguns sujeitos, como Getúlio Vargas e alguns militares, tentaram fazer o Estado passar a produzir, ele próprio, uma economia nacional industrializada, a fim de que o país pudesse deixar sua subserviência auto-destrutiva diante da tecnologia e da crescente exploração das antigas (e novas) metrópoles. Do ponto de vista industrial, contudo, estas tentativas desesperadas não deram muito certo e ainda deixaram como resultado mais órgãos públicos lotados de funcionários burocráticos e algumas poucas empresas estatais razoavelmente funcionantes, como o Banco do Brasil, a Petrobrás, os Correios, etc. - embora todas elas atendendo a interesses privados dos políticos que as dirigiam a cada momento.

Como não podia deixar de ser, a população brasileira continuou a crescer apesar de desgovernada enquanto nação. Entre as décadas de 1950 e 1990, a explosão demográfica brasileira gerou não só muita gente como também muito caos: milhões de pessoas se aglomeraram em cidades sem o mínimo de Estado e de organização coletiva de suas vidas. Exceto pela televisão a lhes dar alguma unidade nacional enquanto cultura, por alguns resquícios de tradicionalismo popular e por alguns poucos serviços cuja finalidade maior se tornou a de tentar controlar o caos (como polícia, serviços públicos de saúde, luz elétrica, algumas escolinhas “faz de conta que educam”, etc.), a brasilidade urbana brasileira da segunda metade do século XX fundou um novo tipo de povo: caótico, desgovernado, egoísta, sem unidade cultural e sedento por prazer e poder. Às voltas com essa “nova gente”, os poucos serviços mantidos pelo estado nacional (polícia e justiça, serviços de saúde, luz elétrica, água e esgoto, algumas escolinhas “faz de conta que educam”, etc.) se estruturaram seguindo a ótica do Estado brasileiro de todos os tempos: servir de geração de lucro para quem adentra as suas máquinas administrativas e suas imposturas, e muito pouco servindo para realmente ajudar a organizar a vida social da população. Seria a concretização do sonho dos anarquistas, se ele não fosse apenas sonho, utopia, que morre abruptamente diante do caos da realidade. Chega a ser cômico ver a cara de velhos anarquistas humanistas utópicos, remanescentes dos anos 1960 e 1970, chocados e assustados diante das balas e da impiedade brutal do novo tipo de gente que brota das favelas do país.

O estado brasileiro, desse ponto de vista, portanto, terminou tendo apenas duas serventias. Primeiro, serviu aos donos do poder e do dinheiro (inicialmente coronéis rurais, mas depois financistas, “empresários” e seus políticos “pau-mandados”) como extensão direta de seus bens privados (fazendas, gado, armazéns, empresas, comércio, bancos, etc.). Nesse sentido, o estado brasileiro, de um ponto de vista político e econômico, nunca existiu, muito menos como um estado que representasse uma consciência nacional de um povo, ou de seus líderes. O bancos estatais, por exemplo, como órgãos públicos, não existem; eles apenas gerenciam dinheiro da população e da própria máquina administrativa do Estado (que também vem da população) com a finalidade de beneficiar interesses econômicos privados (outros bancos, os grupos políticos e econômicos que o dirigem, os políticos de carreira que tomam seus cargos comissionados e praticam todo o tipo de corrupção e acordos, os seus empregados inúteis do alto-escalão, etc.). O mesmo acontece com hospitais públicos, universidades públicas, com a Petrobrás, com os Correios, entre tantos outros, todos servindo apenas aos grupos que os dirigem e neles trabalham. Seriam empresas estatais Pertencentes aos grupos que conseguem dominar o Estado (geralmente sendo vários grupos que o compartilham, e sempre disputam mais poder dentro dele). Já para os sujeitos que seriam os consumidores destes órgãos públicos, ou seja, para a população em geral, tais órgãos apenas têm discretas funções organizativas, as quais funcionam mais como fachadas para expiações televisivas, como em eleições políticas, debates jurídicos, trabalhos policiais (que servem para que a população pense que está tudo em seu lugar, como em um país que administrativamente funciona) do que propiciando funções sociais reais.
A relação do brasileiro com o seu Estado administrativo, portanto, é de que ele, o estado e seus órgãos e empresas, é um lugar a mais que precisa ser assaltado a fim de gerar lucro pessoal. Este assalto ao Estado, no entanto, tem que ocorrer de forma discreta e segundo regras sociais próprias, para que as pessoas que não o estão assaltando do mesmo modo não vejam muito claramente como cada assalto se processa, a fim de que o Estado como um meio de geração de lucro para alguns não se torne muito evidente, o que dificultaria o controle da população, já que todos, então, iriam querer sua fatia (e o lucro apenas para a minoria estaria ameaçado).
Os médicos, por exemplo, inventam seus tratamentos charlatões para que o SUS pague por eles, e contrate seus serviços de modo a enganar a população com charlatanismo disfarçado de técnicas médicas. Enquanto isso, o SUS, na prática, cria, no máximo, grandes túmulos e espaços para os pobres morrerem e/ou se queixarem de suas dores e dificuldades, além de se enrolarem boa parte de seus tempos nas filas dos hospitais públicos. Os engenheiros superfaturam obras inúteis que não serão terminadas nunca, ou serem terminadas apenas quando tiver consumido dez a cinqüenta vezes o valor real do seu custo. Os nobre pesquisadores brasileiros inventam falsas promessas e e falsas polemicas (como, por exemplo, se libera ou não as “pesquisas com células troncos” no país) como modo de angariar financiamentos públicos para falsas pesquisas. Os intelectuais e acadêmicos inventam falsos projetos humanitários ou de inclusão social (de indígenas, de crianças carentes, de mulheres negras) como modo de angariarem verbas públicas para suas ONGs. E por aí vai. O enriquecimento no Brasil depende da habilidade de cada sujeito ou grupo de sujeitos em assaltar o Estado; ou da habilidade do sujeito em assumir postos de “fiscalização” na máquina administrativa (como fiscais da Receita Federal, policiais federais, auditores, juízes, etc.) ou postos de comando (como vereadores, deputados, prefeitos, governadores, ministros, presidente, etc.) por onde terão que passar (para manutenção do engodo popular) as decisões de como e para quais grupos o dinheiro público será distribuído. Além disso, os postos de controle direto do caos social (como policiais, médicos, enfermeiros, bombeiros, professores, etc.) também podem ser bem lucrativos, já que conseguem atrir financiamento sempre que a situação pareça sair do controle. Aqui, fazer “vista grossa” para o crime gera lucro (ou ao menos a manutenção do emprego público, ou mesmo da própria vida) e o tráfico de influência e de finanças se torna fácil; por exemplo, na forma de pequenas corrupções propiciadas por aqueles que querem escapar um pouco ao controle coercitivo do estado ou obter do estado algum consolo, facilidade ou alguma proteção. Não é por acaso que o Ministério da Saúde é um antro de escândalos de corrupção, e sempre está, junto com os Ministérios da “área social”, infestado de líderes de “movimentos sociais” e ONGs.

Essa, portanto, é o resumo de uma análise tradicional do que é o Estado brasileiro no início do século XXI. Estou, entretanto, a fim de fazer algo diferente disto, mesmo que, talvez, a conclusão final não seja muito diferente. Como já trabalhei em serviços públicos, vou tentar descrever os tipos de funcionários que conheci ao longo desse tempo; e ver, a partir desses tipos, o que os funcionários públicos brasileiros fazem, na prática, dentro de um estado gigantesco mas que não funciona, que não governa.

Tipos de funcionários públicos no Brasil

A lista completa inclui:

1) o “semi-analfabeto” de alto custo;
2) o carreirista,
3) o tecnicamente competente mas frustrado,
4) o “fuck off”,
5) a CDF inútil,
6) o comissionado incompetente indicado por clientelismo político,
7) o funcionário que está sempre prestes a se aposentar,
8) o sindicalista e as militantes de movimento social,
9) o especialista em conseguir verba pública,
10) o eleito e seus apadrinhados,
11) o que utiliza sua função pública para conseguir dinheiro na iniciativa privada,
12) os contratados “pau-pra-toda-obra”
13) os contratados protegidos (ou que têm “costa-quente”),
14) o funcionário com “síndrome de burn out” ou psicopata institucional.

Conheci todos estes tipos. Mas acredito que estejam faltando outros, os quais talvez eu não tenha conhecido pessoalmente ou que praticam ações as quais desconheço. Afinal, a criatividade espontânea está sempre à frente do conhecimento racional e da observação pura. Mas vejamos pelo menos como é a dinâmica destes aí.

O semi-analfabeto de alto custo

É um tipo de funcionário público que vi com muita freqüência, sempre me chamando a atenção por sua situação um tanto quanto grotesca. Por isso, começo por ele. Não sei bem como chamar este tipo, mas vou improvisar chamando-o de “semi-analfabeto de alto custo” – embora o analfabetismo aqui possa não existir de forma alguma, vindo a ser mais um estilo social do que uma característica pessoal.

Em quase todo órgão público que se entre, no Brasil, existe um número muito grande de funcionários que verdadeiramente não fazem nada. Em sua maioria são funcionários que, no ano de 2008, tinham entre 45 e 64 anos de idade, estando há mais de 20 anos como servidores públicos com estabilidade no emprego.

No contato com esse tipo de funcionário, que imagino que perfaça atualmente cerca de 10 a 30% de todo o funcionalismo público com estabilidade de emprego no país, a impressão é sempre a mesma: parecem uns “coitados semi-analfabetos”, ou totalmente analfabetos, que mal conseguem conversar (ou parecem não ter disposição alguma nem para responder a perguntas simples), que se assemelham a pobres indigentes recém chegados do “interior”. Muitas vezes são mulheres confusas que tentam parecer “chiques”, mas que acabam mesmo é sendo apenas “peruas” fumantes e emboletadas de tanto misturar café e diazepam. São aqueles tipos que ficam tentando se equilibrar precariamente num salto alto o dia inteiro, com roupas que deixam partes do corpo parecendo que vão explodir, e ainda se vestem de “oncinha” para ver se conseguem “pegar” algum colega de trabalho, quando este estiver bêbado no churrasco de fim de ano.
O semi-analfabetismo em geral é predominante: são funcionários que mal conseguem escrever um simples bilhete, que não conseguem fazer contas matemáticas simples e nem trabalhar organizadamente com quase nada, já que, por terem estabilidade no emprego há vários anos, e não terem qualquer outra motivação para o trabalho (exceto a motivação de ganhar o salário fácil), sempre rejeitam o esforço físico das funções mais desqualificadas a que teriam capacidade de executar (digitar textos, entregar documentos, organizar papéis e pastas, dar informações, manter o ambiente de trabalho limpo, servir café, manter água no bebedor, anotar recados, etc.) – funções estas que, como veremos adiante, acabam recaindo sobre outro tipo de funcionário, que é o funcionário contratado pau-pra-toda-obra.

Os semi-analfabetos de alto custo, entretanto, como não sabem e não têm disposição de aprender a trabalhar com nada, costumam se dedicar cotidianamente à única coisa que sentem obrigação de fazer, e ainda assim a duras penas, que é cumprir o horário de sua carga horária diária, para que nenhum chefe com espírito moralizador (às vezes surgem pessoas querendo corrigir a esculhambação generalizada nos serviços públicos brasileiros) não possa lhes acusar de total incompetência, e tentar mover alguma sindicância contra eles, ou lhes transferir para seções mais desqualificadas. Desse modo, os semi-analfabetos de alto custo acabam sendo colocados em funções inúteis, ou em funções que deveriam servir para alguma coisa, mas que não servem justamente porque eles estão ali a não fazer nada o dia inteiro. Sei que pode parecer exagero ou mesmo preconceito de um intelectual contra pessoas com baixa formação educacional, porém o problema está muito além disso. Não raras vezes esse tipo de funcionário, que chamei de “semi-analfabeto” de alto custo, já até teve boa formação educacional, mas anos de dedicação a uma espécie de marasmo burocrático fizeram deles pessoas cuja capacidade cognitiva se tornara bastante reduzida, o que se completara pelo tempo que passaram a cochilar sentados ou a ver televisão e a contar piadas repetidas.
Ao contrário do que estes funcionários tentam transparecer, eles geralmente ganham bons ou ótimos salários, de dois até cinco ou seis mil reais mensais (dois mil a três mil dólares mais ou menos, na cotação de 2008, o que é um salário ótimo no Brasil, em vista que o salário mínimo atualmente vale cerca de duzentos e cinqüenta dólares). Freqüentemente esse tipo de funcionário esconde o mais que pode suas folhas de pagamento, para que os servidores “concursados” há menos tempo e os contratados não vejam o quanto eles ganham. Principalmente para estes últimos, os semi-analfabetos de alto custo costumam posar de vítimas, sempre se queixando de doenças e se fingindo mais pobres (economicamente) do que são, já que os contratados, que são obrigados a fazer o serviço que os semi-analfabetos não fazem, podem ficar muito chateados com a sua indisposição para o trabalho. Consequentemente, os contratados costumam ter que trabalhar bastante, já que não têm estabilidade e são ameaçados com demissão, caso não tenham algum “peixe grande” que os proteja no setor (a sua “costa-quente”). Além disso, se não são comissionados, ganham muito mal – já que os contratados não têm sindicatos para barganhar, com votos, greves e trabalho eleitoral gratuito, melhores salários e mais benefícios.

A origem do funcionário semi-analfabeto de alto custo é muito clara, embora comumente eles tentem esconder como conseguiram suas “mamatas”. Com freqüência, conseguiram entrar no serviço público antes de 1988, sem concurso público ou através de “concursos de fachada”. Geralmente precisaram de alguma indicação ou de estarem no lugar certo no momento certo, muitas vezes tendo entrado para o serviço público ao acaso, simplesmente abocanhando o melhor emprego que lhes aparecera à porta. Pode ter sido, por exemplo, a amiga da vizinha da empregada doméstica do assessor de um deputado que arranjou um emprego para ela devido ao fato de que a vizinha uma vez precisou que a amiga cuidasse de seu filho enquanto ela ia ao salão de beleza. Em suma, é o baixo escalão de uma rede de clientelismo tipicamente brasileira, de “Q.I.” (“Quem Indica”, gíria do meio), só que funcionando em um nível no qual os benefícios trocados são bem menores do que aqueles do alto escalão (os quais, mais freqüentemente, os brasileiros estão acostumados a ver, ocasionalmente, em telejornais, envolvendo altas somas de dinheiro, presentes milionários, altos cargos ministeriais, diretorias de estatais, etc.). Não raras vezes, antes de 1988, os favores trocados eram votos eleitorais por promessas de empregos públicos, algo que continua a acontecer atualmente, porém com a oferta de empregos destinada aos contratados, bem como com os cargos comissionados, principalmente para aqueles que se dispõem a trabalhar como cabo eleitoral para seus futuros contratantes (se eleitos). Até 1988, no entanto, o sujeito “contratado” ganhava o emprego e a estabilidade como servidor público, já que até aquele ano a obrigatoriedade do concurso público não existia ou era ignorada com facilidade. Depois de 1988 o clientelismo passou a ocorrer nos contratos e nos cargos comissionados. Não por acaso ambos se tornaram maioria como forma de ingresso no serviço público.

O tipo e a quantidade de favores que podem ser trocados no clientelismo brasileiro são infinitos. Na verdade, tudo que se possa imaginar pode ser envolvido como produto de troca. Eu mesmo já recebi propostas de facilitação de entrada em doutorado em universidade pública, a possibilidade de escolher locais melhores para trabalhar, “vista grossa” de chefes para horário de trabalho não cumprido, dicas para conseguir algum benefício que eu não estava recebendo, cargos de chefia, indicação de chefes para que eu desse entrevistas na TV a fim de me promover pessoalmente, convites para palestras e para jantares, entre outros. E tudo isso quase sempre apenas em troca de minha conivência com coisas estranhas que eu percebia acontecer ao meu redor, ou em troca de meu apoio como alguém que acreditavam articular bem as idéias ou que transparecesse correção moral e que, por isso, poderia vir e lhes beneficiar de algum modo; ou ainda que poderia acabar sendo bem sucedido em algum projeto futuro e podendo lhes dar retorno em outros favores quando tivesse em posição privilegiada. Mas com a população pobre, no entanto, o mais comum é a formação de clientelismo político-eleitoral: no Distrito Federal, por exemplo, boa parte das favelas locais, erguidas entre as décadas de 1980 e 2000, estruturou-se na base da troca de lotes por votos ou por trabalho como cabo-eleitoral. Populações inteiras migraram da miséria do nordeste brasileiro para o clientelismo político nas proximidades da capital federal. Hoje estes novos bolsões de caos, miséria, corrupção e criminalidade estão germinando a nova cara do país; e o próprio sistema político ficou irremediavelmente refém da constante barganha com o que esta população se habituou a receber.

O carreirista

O funcionário carreirista é um tipo interessante, já que ele transparece competência e, não raras vezes, é workaholic (viciado em trabalho). Tenta parecer, ou parece de verdade, um executivo de empresa privada. Pode ser concursado ou não, mas sempre recebendo alguma comissão. Ele é, em verdade, um clientelista profissional, sempre às voltas com nomeações para cargos de confiança.

O carreirista é um tipo comum, geralmente sendo chefe de sessões ou órgãos, um sujeito bom de oratória e de articulação, e que exala vigor e motivação. Com freqüência é homossexual e jovem, entre 25 e 40 anos de idade. Se não é homossexual, é solteiro ou solteira, gosta de festas badaladas, tenta sempre aparecer em colunas sociais (nem que seja do jornaleco que o seu próprio órgão produz) e não consegue esconder o quanto é vaidoso e narcisista. Às vezes tem sexualidade pouco usual, gostando de orgias, algumas perversões e coisas do tipo.
Com grande freqüência, como dito, o carreirista é concursado – não raras vezes o concurso é “armado” para ele passar, com exigências curriculares produzidas para ele ser aprovado nos primeiros lugares. A partir de seu cargo “concursado”, entretanto, ele começa a fazer os “joguinhos” que possibilitam sua ascensão a cargos de maior remuneração e maior prestígio ou poder institucional. Esses joguinhos de poder costumam envolver de tudo: trocas de favor ao estilo do tradicional clientelismo político, denúncias de inimigos em potencial, de inimigos de seus “amigos”, pequenas corrupções financeiras. Muitas vezes, no entanto, há muito trabalho árduo, desde que isso seja importante para agradar os chefes que possam lhes conseguir cargos melhores. Além do mais, o próprio jogo de poder, de intrigas e barganhas, é muito estressante e complexo, exigindo muito de quem o pratica. A badalação social para fazer contatos com pessoas “influentes” também é praxe, envolvendo festinhas, bebedeiras, uso de “droguinhas” em grupos, pequenas seduções sensuais, rápidos envolvimentos sexuais (e, às vezes, até afetivos), etc. Com certa freqüência o carreirista também costuma gostar de outro tipo de carreira, além da profissional, que é a de cocaína. Afinal de contas, desinibição, extroversão, ser engraçado e espirituoso, ter facilidade em ser popular e não se intimidar em jogos de sedução e de intrigas é o que ele precisa exalar quase o tempo inteiro. Mesmo se não usa cocaína ou outro estimulante, traz consigo a euforia exagerada e os rompantes de histeria, de vaidade e de mau humor daqueles que gostam do pó para se manterem bastante ativos e esfusiantes a maior parte do tempo. Quando mais velhos, também costumam gostar de usar antidepressivos, vindo a ser uma lucrativa clientela para psiquiatras e outros médicos que costumam prescrever Prozac, Zoloft e drogas assemelhadas para yuppies decadentes.

O profissional tecnicamente competente e frustrado

Chefiado pelo carreirista, encontramos um outro tipo de funcionário público padrão, que é o profissional tecnicamente competente e frustrado. Frustrado, neste caso, justamente por ter sido ou ainda ser pessoa de grande ambição profissional, porém já tendo descoberto que o que faz as pessoas se darem bem no serviço público brasileiro não é competência, nem os anos que passam se dedicando a alguma boa formação técnica ou acadêmica; mas sim as artimanhas de poder e o estilo cognitivo que o carreirista de sucesso executa com perfeição. O profissional tecnicamente competente mas frustrado geralmente é um jovem que fez uma boa formação universitária, e por necessidade financeira, ausência de outra possibilidade ou simplesmente por incompatibilidade com a “selva sem lei” dos mercados privados de trabalho, prefere prestar concurso e começar a trabalhar no serviço público. Pode ser, por exemplo, um bom engenheiro que trabalha em um departamento de engenharia de algum órgão cujo chefe é um carreirista, o qual, com freqüência, nem engenheiro é, ou, se é, formalmente falando, já esqueceu o que era engenharia, à medida que se dedicou intensamente ao aprendizado para se tornar um bom carreirista. Sempre que podem, os carreiristas tentam trabalhar em “parceria” com o profissional tecnicamente competente, com este fazendo algum bom trabalho para aquele levar a fama e o crédito. Muitas vezes é por este caminho que a frustração se inicia.

O fuck off

Usualmente, o sujeito tecnicamente competente e frustrado ou se torna um carreirista, com as características deste, ou se torna um outro tipo de funcionário público também bastante comum, que é o “fuck off”. O “fuck off” é aquele que, sempre que se vê diante de alguma tarefa difícil, que necessitaria ser levada a sério para ter bom êxito, exigindo esforço e competência, pensa no mantra que já o acompanha a alguns anos, e que lhe fora ensinado por colegas mais experientes: “Foda-se!”; e executa a tarefa “nas coxas”, empurrando-a “com a barriga”. No serviço público brasileiro, todo funcionário que tem necessidade de trabalhar com correção e ver a real necessidade pública de seu trabalho, logo descobre que fazer algo rápido e bem feito não é uma boa, pois senão todos os demais funcionários tenderão a ficar em suas costas ou algum carreirista tentará explorar, em benefício próprio, sua capacidade de trabalhar . Eu próprio finalizei minha curta trajetória no funcionalismo público sendo um “fuck off”, depois de já ter sido um funcionário competente e frustrado e, mais no início ainda, um contratado “pau pra toda obra” e mau remunerado.

Se fôssemos até o momento pensar em uma fictícia sessão de órgão público reunindo os tipos de funcionários arrolados até aqui, teríamos um departamento chefiado por um carreirista “biba louca” (gíria brasiliense para esse tipo de pessoa), o qual não entende muito de seu setor (mas que poderia estar lá, por exemplo, por ter tido um “pega” com o filho playboy “cheirado” de um algum deputado ou senador); ou, se entende o seu trabalho, é apenas superficialmente; porém demonstrando entender muito, já que é um sujeito vaidoso e arrogante, e que exige ser tratado como “expert” nas opiniões que dá. Teríamos nesta nossa seção, ainda, um ou dois funcionários competentes; um deles já bastante frustrado, mas que ainda se esforça para fazer a “coisa” corretamente, enquanto o outro já está começando a meter um “fuck off” e a ficar rindo do primeiro, o qual entrou junto com ele no mesmo concurso público. Teríamos também uns três ou quatro funcionários semi-analfabetos a ocupar cadeiras e mesas sem fazer nada o dia todo; ou fingindo fazer, durante horas ou dias, tarefas que poderiam ser feitas em minutos.

As CDFs inúteis

Junto com estes quatro tipos, teríamos, na parte mais “técnica” de algum fictício órgão público tipicamente brasileiro, as CDFs, as funcionárias “caxias” que tentam fazer tudo como lhes pareça correto, do jeito que o chefe manda, mesmo quando é alguma tarefa sem qualquer finalidade, a qual nem mesmo o chefe volta a cobrar por não se lembrar qual era alguns minutos depois de a ter ordenado (modo de trabalhar, aliás, que é muito comum no serviço público brasileiro).
As CDFs geralmente trabalham com perfeccionismo, porém sendo um perfeccionismo gerado por insegurança e medo. Apesar disso, facilmente se distraem com seus afazeres, mesmo sendo eles inúteis. Passam horas dedicando-se a suas obrigações como se elas fossem terapia ocupacional; as quais, em suma, realmente são: se não fosse seu trabalho, passariam o dia em casa vendo teve e, à noite, a se queixar para o marido (ou do marido) que tudo está ruim e entediante (isso, claro, depois que já houvesse passado os cinco primeiros anos de casamento, no qual um filho a cada dois anos teria dado a ela algum sentido imediato para a vida, além de se dedicar ao consumo de coisas inúteis em shopping centers).

Com freqüência, os afazeres das “caxias” são planilhas, arquivamento de papéis, revisões de textos (que não serão usados, ou lidos, ou, se forem, será apenas por já estarem prontos, e pela necessidade que o chefe tem de demonstrar que sua seção é bastante produtiva) ou estatísticas que serão apresentadas a alguma platéia de funcionários sonolentos e entediados, que mal saberão do que se estará falando. Reuniões assim são o trivial dos órgãos públicos brasileiros. Nessas reuniões, geralmente as CDFs farão a apresentação, ou elaborarão o material que virá a ser apresentado, para que o chefe (carreirista) o apresente. Este, hábil em manipular pessoas, costuma saber como fazer para as CDFs trabalharem para eles (em projetos inúteis) e não acharem aquilo estranho, e até vindo a gostar de receberem seus elogios (todos falsos e manipuladores).

O funcionário comissionado incompetente indicado por clientelismo político

Escorados nas funcionárias CDFs costumam “trabalhar” também os funcionários indicados politicamente, os quais terão chegado ao órgão sem que ninguém (exceto o chefe carreirista) soubesse porque e para que vieram; situação que permanecerá assim mesmo depois de muito tempo com eles trabalhando lá. Os funcionários diretamente indicados por políticos profissionais costumam trabalhar pouco, saem mais cedo e chegam atrasados. Quase sempre se escoram nas “caxias” e ainda tentam se impor sobre as mesmas como se fossem seus chefes imediatos, para que elas trabalhem por eles. Estes funcionários indicados diferem dos carreiristas por não fazerem esforços visíveis para subir na carreira; querem apenas vida mansa sob as asas de seus protetores. Também nunca se envolvem muito com os demais funcionários, mantendo sempre um ar de superioridade, além de não serem incomodados pelos chefe carreirista. Na prática, a seção funciona como se eles não existissem, embora fiquem por ali, circulem, sorriem e às vezes até opinem no trabalho. Geralmente são aparentados de pessoas para quem políticos profissionais deviam favores. São uma espécie de peso extra do clientelismo; nada fazem e não beneficiam diretamente ninguém. Mas são um grande número de funcionários públicos no Brasil. Ás vezes são escritores, músicos, atores ou pseudo-intelectiais em geral (também conhecidos como “PIMBAs”), que precisam de uma “renda fixa” para sobreviver, já que seu trabalho “intelectual” e “criativo” não lhes dá dinheiro algum.

O funcionário que está sempre prestes a se aposentar

Numa típica repartição pública brasileira, além dos tipos já comentados, haveria cinco ou seis funcionários mais velhos, os quais aparentariam ter em torno de 50 a 60 anos de idade, os quais teriam como único interesse o de conversar sobre aumentos salariais, benefícios, suas aposentadorias (as quais estariam para sair) ou se o próximo feriado seria “emendado” ou não.
Os sujeitos deste tipo costumam reclamar de tudo, sendo tratados com evidente desprezo pelo chefe carreirista. Também tomam muito café e são fumantes ou ex-fumantes. Faltam com freqüência ao trabalho por motivos de saúde (que todos sempre acham que é mentira, apesar dos atestados) e, segundo os mais antigos de casa, estão dizendo que “estão quase se aposentando” há vários anos; e desse modo vão conseguindo serem meio esquecidos, como se já tivessem realmente se aposentado. Poucos lhe notam a falta, e nada de trabalho costuma lhes ser reservado ou cobrado.

O sindicalista e as militantes de movimentos sociais

Os “quase aposentados” geralmente conversam bastante com o sindicalista, o qual os atualiza sobre as negociações da categoria com o governo, sobre as picaretagens do partido, sobre a traição do deputado “fulano de tal” ou sobre quando será a próxima manifestação pública ou greve.

O sindicalista, por seu lado, não é muito entusiasmado com o sindicato, embora ocupe um cargo em sua diretoria e passe mais tempo lá, em tese, do que no próprio local de trabalho – seu entusiasmo só aumenta mesmo no período de greve, quando tenta convencer todos a entrarem em paralisação, e nos períodos de eleição no sindicato.

Mais entusiasmo que o sindicalista têm as militantes de movimentos sociais do tipo “mulheres negras do serviço público”, ou de ONGs feministas, ou contra a violência urbana ou a favor do aborto e do casamento gay. As militantes (quase sempre mulheres que cursaram ciências sociais) sempre chegam atrasadas ao serviço, trazendo cartazes do próximo ato do movimento. Frequentemente conversam exaltadas e alegres sobre o próximo passo de sua militância (um projeto de lei encaminhado por determinado deputado, a inauguração da nova sede da ONG, a comemoração do dia internacional da luta conta não sei o quê, e coisas do tipo) ou revoltadas contra alguma injustiça, preconceito ou exclusão social dos grupos minoritários que defendem em sua militância. São respeitadas pelo chefe carreirista, que sempre lhes pergunta se o uso de determinado termo em algum documento está adequado ou não. Em épocas eleitorais, elas, os “quase aposentados” e o sindicalista tornam-se todos cabos eleitorais de algum candidato ou de algum partido – embora os “quase aposentados” o façam da mesma forma que torcem para algum time de futebol ou que riem das piadas dos semi-analfabetos de alto custo.

Não raras vezes as militantes (ou "os" militantes, embora a maioria seja do sexo feminino, embora um grande número seja de "sexualidade não tradicional") são carreiristas. Os carreiristas militantes, no entanto, geralmente tem ambição dentro do seu serviço público apenas quando estão ali acreditando em alguma reforma do estado ou revolucao da sociedade, e foram colocadas no setor por indicação política. Almejam ascensão profissional por indicação política, ascenção dentro do partido ou movimento social a que pertencem, ou mesmo ascensão por via eleitoral - vindo a se tornarem candidatos, á medida que conseguirem mídia por meio de seu cargo público.

Geralmente começa, sua carreira em cargo público tornando-se cabos eleitoras de líderes de movimentos sociais que foram eleitos, e agora ganharam empregos políticos na incumbência (mais fantasiosa do que real) de continuar a militância ideológica dentro do Estado. Tornam-se, portanto, carreiristas militantes ou militantes carreiristas. Geralmente, neste caso, assumem chefias de setores, já que são muito ambiciosos, movidos por uma fé ideológica. Têm o mesmo comportamento de qualquer fanático religioso. Tentam converter para o seu credo ideológico todos ao seu redor, e, sendo chefes, obrigam todos a se converterem, passando a perseguir aqueles que não se convertem. Perseguição, no entanto, que nem sempre se dá de forma clara, mas "infernizando" as horas de trabalho dos mais irredutíveis: com cobranças exageradas, excesso de trabalho assintosamente detalhado e inútil, vinganças sutis sempre que se "observa" qualquer rebeldia no comandado, liçôes de moral a toda hora e na frente dos colegas, excesso de ordens contraditórias, etc. O que, contudo, não é exclusivo das chefias dos carreiristas militantes, mas de todo chefe que deseje detonar algum "inimigo" sob o seu comando (que pode ser um inimigo por motivos de fé ideológica, um inimigo por motivos de não participação em conluios corruptos, ou apenas um inimigo por mera necessidade do carreirista em "mostrar serviço", dando uma de moralista ou escolhendo "bodes expiatórios" ao acaso, a fim de manter "o respeito" - fatores que, com frequência, se misturam).

Os carreiris militantes costumam, simultaneamente, pertencer a movimentos sociais e a partidos políticos de esquerda, sendo viciados no "trabalho" de lutar por suas " causas"- e fazendo isso o tempo inteiro e com ardor religioso. Nos serviços públicos, eles habitualmente não dominam as áreas técnicas nas quais são colocados para chefiar, de modo que tentam reduzir todo e qualquer assunto, trabalho ou projeto ao tema de sua militância religioso-ideológica. Muitas vezes, para evitar isso, eles são colocados em setores criados exatamente para eles chefiarem, os quais, não servindo para nada (tecnicamente falando), servirão para eles difundirem sua ideologia dentro do governo ou em nome do governo, na sociedade em geral. Geralmente gostam de conflitos e intrigas, e se sentem realizados em reuniões onde podem passar horas discutindo, principalmente se, obrigatoriamente, terão a palavra final, por serem chefes. Como chefes e políticos, falam em democracia e igualdade o tempo inteiro, mas agem como ditadores impiedosos que se sentem inspirados por iluminação divina (principalmente na surdina, nos bastidores) - e, literalmente, muitos se sentem assim, principalmente quando misturam sua militância político-ideológica com religiões formais (algo cada vez mais comum no Brasil). Parecem acreditar que se saírão bem na luta de todos contra todos, por se verem sem desconforto moral na hora de detonar (verdadeiros ou falsos) inimigos, já que se vêm com uma missão especial e acima de valores morais "mundanos". Parecem preferir ter algum poder no caos (que frequentemnte provocam) a deixar ficar intacta alguma organização a qual não esteja a seu favor ou não lhes dando razão e prestígio.

Devido a estes atributos, e com o PT no poder no Brasil, principalmente a partir de 2002, os carreiristas militantes implantaram uma espécie de terrorismo moral dentro dos serviços que passaram a chefiar diretamente, levando algum tempo para que os demais tipos de funcionários públicos aprendessem a lidar com esse novo modelo de chefe carreirista. Acomodação, entretanto, que terminou por acontecer, geralmente com os demais funcionários aprendendo a fingir se converter ao credo ideológico e ao partido político do carreirista militante.

O especialista em conseguir verba pública

Se a repartição pública é maior, ou tem mais importância, ainda poderá estar trabalhando nela um sujeito que é uma espécie de subchefe da seção, que está lá há mais tempo que o próprio chefe, e funciona para este como um conselheiro. Geralmente ele anda de terno e gravata e sai muito da repartição para reuniões diversas, acompanhado ou não do chefe. Este é o funcionário que se especializou em finanças, mas não em contabilidade propriamente dita, apenas em como e onde conseguir verbas públicas para projetos específicos, como, por exemplo, financiamento de computadores novos para a seção, contratação de serviços diversos, elaboração de licitações, liberação de novas contratações de pessoal e cargos comissionados, troca de móveis, um novo projeto estatístico, social ou publicitário, etc.

Geralmente o especialista em conseguir verba pública é um sujeito discreto, tratado com muito respeito por todos (mesmo que ele próprio não exija todo o respeito que recebe), e é um sujeito rico, com alguns dizendo mesmo que é muito rico. Nem sempre é alguém tão visível nesta função de arrancar dinheiro do Estado. Muitas vezes é alguém que exerce, formalmente, uma função que nada tem a ver com dinheiro e verbas, mas que, por habilidades pessoais, descobriu como fazer para se tornar um especialista em conseguir fundos públicos para questões diversas (de onde sempre dá um jeito de tirar o dele por fora, e também para muitas outras pessoas e organizações, como partidos políticos, ONGs, fundações, e por aí vai).

O especialista em utilizar sua função pública para conseguir dinheiro na iniciativa privada

Semelhante ao tipo anterior, este é o funcionário que se especializou em usar sua função pública para conseguir dinheiro na iniciativa privada. Esse tipo tem várias formas, já que, frequentemente, suas ações são mais claras, ou mais bem aceitas, do que as do sujeito que precisa tirar dinheiro (além do seu salário) diretamente do próprio Estado.

O funcionário público especialista em conseguir dinheiro privado costuma agir de modo legal, lícito. O que ele faz é usar sua função pública para adquirir status social nos “mercados privados”, a partir do que, então, ele irá vender serviços privados ou fazer tráfico de informações sigilosas do governo para o interesse privado, o qual estará disposto a lucrar em negócios com o estado, ou em negócios que necessitem de se burlar as fiscalizações do estado. Nesse íltimo caso, o funcionário público o ajudará, de alguma maneira, a ludibriar as normas, leis, polícia e regulamentações do estado.

Professores de universidades públicas brasileiras costumam utilizar o discurso da “cientificidade” ou da “utilidade pública” para se auto-promoverem na mídia (com um marketing eficiente e de graça) e depois montarem cursos particulares (às vezes dentro das próprias universidades) e cobrarem caro por isso (enquanto repassam as aulas regulares, “gratuitas”, para os seus “orientandos”). Fazem algo semelhante para venderem livros, para montarem escritórios ou consultórios particulares, e uma série de outras atividades. E tudo na legalidade. Às vezes jogam pesado, dentro das instituições, sindicatos e partidos políticos, para impedirem que “moralistas” acabem com o seu filão comercial. Obviamente, por causa deste tipo de ação, não sobrou muita qualidade nas universidades públicas brasileiras.

Outro bom exemplo são os economistas que trabalham no Banco Central. Depois que saem de lá (mas mantendo bons contatos), montam “consultorias” para prestar informações a bancos privados outras instituições financeiras. Dizem que às vezes são colocados lá pelas próprias instituições que têm interesses. Mas essas diferença é praticamente insignificante; o resultado é o mesmo.

Não raras vezes a especialidade em angariar fundos públicos e privados andam juntas. Por exemplo, e de maneira muito bem feita e dissimulada, entre professores universitários de universidades públicas, indo além do que mencionamos logo atrás. Os professores brasileiros logo aprendem que a fonte de lucro e realização na vida universitária brasileira não está nos salários nem em ser um bom professor ou pesquisador; está é na capacidade de elaborar projetos (de pesquisa, de extensão, de aulas, etc.) que serão financiados por órgãos públicos de fomento; ou está em criar serviços universitários que atraiam empresas ou consumidores privados (cursos de especialização, mestrados e doutorados, projetos em parcerias público-privada, etc.); ou, por último, em utilizar o prestigio de professor universitário para encher consultórios médicos, advogar, prestar “consultorias” (nome oficioso do tráfico de influência), encher consultórios psicológicos, aparecer na mídia, abraçar causas sociais e produzir projetos de “inclusão social”, e por aí afora. Em tudo isso, entretanto, o que se consegue por mérito acadêmico ou científico é praticamente nada. Tudo depende de conchavos, barganhas e de ser hábil em fazer discursos convincentes diante de platéias ingênuas ou que precisem se mostrar publicamente bem intencionadas: é o antropólogo que cria um projeto para levar saúde para comunidades indígenas, é o músico que faz programas de educação musical para crianças carentes, é o médico que monta um laboratório para fazer pesquisas com células-tronco a fim de tratar deficientes físicos.... Em suma, é uma arte à parte, que lida com o refinamento de achar o tema certo, e no momento certo em que governo, mídia e opinião popular estarão afeitos a falar de algo que pareça resultar em utilidade pública, buscando potencialmente o “bem geral do povo” ou o benefício de grupos desfavorecidos.

Sobre os professores universitários brasileiros, vou até citar um exemplo concreto, de um professor imaginando o que um colega mais acomodado do que ele poderia lhe dizer por estar criticando os “esquemas” e por querer “mudar” as coisas:

“Você é mesmo uma besta de querer mudar as coisas por aqui. Vivemos do "jeitinho", da promiscuidade acadêmica, do ensino improvisado, de professor que dá sua aulinha e tem outro emprego por fora, de professor que recebe ‘uma baba’ por fora pela Ação 4009 do MEC [dinheiro pago pelo Ministério da Educação com destino a ‘Funcionamento de Cursos de Graduação’], da privatização do espaço público e da corrupção. Todos saem ganhando, não? Todo mundo tá com carro importado - menos você. E deixa de ser besta em se preocupar com os alunos e a sociedade brasileira, que injeta todo ano R$ 700 milhões dos impostos na [universidade]. O negócio é se dar bem, a qualquer custo!” (http://cienciabrasil.blogspot.com/2008/06/mensagem-aterrorizada-de-minha-querida.html)

Bem, universidade pública no Brasil hoje é isso. E as particulares são empresas que atendem a ânsia da população por diplomas. Mas vejamos outro tipo de funcionário público.

O eleito e seu grupo de poder

Um tipo de funcionário público fundamental em toda essa estrutura social é o eleito, o político de carreira, ou profissional, que abrange desde os vereadores municipais, os reitores de universidades públicas, até senadores e o presidente da República. Inclue-se aí também todos os seus indicados diretos e os indicados pelos grupos que financiam suas campanhas eleitorais e lhe dão mídia (televisao, rádio, jornal). Sejam por meio de partidos políticos, ou de grupos os mais variados, como igrejas, associações de empresários, associações profissionais, multinacionais, movimentos sociais e sindicais, etc., são os eleitos aqueles que fazem a importante tarefa de intermediar a relação do Estado (com seu dinheiro público e sua função de controlar as massas populares) e os interesses privados envolvidos na relação entre as pessoas e os órgãos e serviços que compõem a máquina administrativa estatal. Os eleitos só se tornam eleitos se tiverem a boa capacidade de se tornarem populares, de atrair cabos eleitorais a trabalharem para eles (em troca do que quer que seja, ou, mais difícil ainda, motivados por utopia, religião ou fanatismo pessoal) e de saberem distribuir para seus apoiadores as fatias do Estado que gerem renda, empregos ou poder.

Cada eleito leva consigo, para os cargos comissionados e para as contratações, dezenas, centenas ou mesmo milhares de “clientes”, como é o caso do Presidente da República e sua estrutura de poder, que envolve diretamente cargos comissionados em vários níveis, do primeiro ao terceiro escalão da máquina administrativa.

Sobre o que gera o poder do eleito tipicamente brasileiro eu já falei em outros textos (como “O circo da democracia brasileira” e “FHC e a ingovernabilidade do Brasil”). De qualquer modo, do ponto de vista de governabilidade, os eleitos e seus indicados só conseguem ser eleitos e indicados se já estiverem de tal modo entranhados em todas as redes que anulam qualquer real capacidade de governar; só lhes restando, a fim de compensar o trabalho burocrático árduo e sem sentido que executam, bem como o escárnio público, o alto lucro com o que estão fazendo, lucrando, financeiramente, para muito além de seus salários e aposentadorias.

O consolo de se tornar chefe de máquinas administrativas que não funcionam, e ainda tendo que fazer de conta que elas funcionam, que há governo, é poderem se regozijar tomando whisky, pensando no quanto está ficando rico e como vai poder ser gratificante sua aposentadoria fora do país, quando enfim largar o cargo, seja pela porta da frente ou dos fundos; neste último caso se for delatado por algum comparsa magoado, como, por exemplo, aconteceu, com repercussões distintas 9já que apenas um deles foi obrigado a largar o cargo), com os últimos três presidentes da República eleitos diretamente no Brasil.

Nem todos os eleitos, entretanto, se comportam desta maneira. Muitos, mas não a maioria, se mantém motivados por causas particulares: defender e propagar sua religião; defender ideologias revolucionárias; ou trabalhar por interesses privados bem definidos (por empresas, por hospitais privados, por bancos privados, por empreiteiras, etc.). Nesses casos bem definidos, as recompensas financeiras vêm depois, com cargos mais elevados nas empresas privadas quando deixarem os cargos públicos; ou mesmo, enquanto estiverem na ativa, na forma de verbas para campanhas eleitorais que ganharão outro destino. Existem ainda aqueles eleitos que se motivam por vaidade, pelo aparente poder que seus cargos propiciam, mesmo que, em essência, este seja um poder que não exista, exceto o poder do clientelismo. Às vezes, como no caso de Lula, este apego à vaidade, depois de alguns anos no poder, é só o que parece restar, além de se poder sonhar com os anos de uma aposentadoria aristocrática (já que qualquer resquício de apego ideológico não mais tem condição de existir, por ele ter tido que se tornar parcialmente traidor para manter o PT e outros movimentos com chances de construir um governo “esquerdista” no Brasil). Mesmo que os movimentos sociais no Brasil consigam vencer a guerra contra as elites tradicionais (como discutido no texto “Brasil Apocalíptico V”, Lula será considerado um ex-líder a ser superado.

A maioria dos eleitos e seus indicados, contudo, têm no dinheiro que podem tirar enquanto estão ocupando os cargos públicos a sua maior fonte de motivação para estarem e continuarem nos mesmos. É por motivação imedita que precisam surgir os diversos acordos com fornecedores “terceirizados”, as notas fiscais superfaturadas, os BVs (“Boa Vontade”, gíria que se refere a “prêmios” que as empresas pagam para os funcionários públicos que as favoreçam em licitações e seleções), os “financiamentos de campanha”, as doações partidárias (para ONGs ou outros movimentos sociais), os presentes pessoais ou para pessoas da família, etc. Tudo isso, é claro, em troca de que o funcionário eleito direcione algum componente da máquina administrativa estatal para aquilo que os corruptores tenham necessidade.

Os contratados

De todos que falamos até aqui, ficou faltando, contudo, um grupo fundamental, que é o grupo dos contratados, os quais, neste final de primeira década do século XXI, triplicam ou quadruplicam o número de funcionários públicos no Brasil. Aliás, como já dito, aumentar o número de contratados foi a forma que os governos acharam para manter o clientelismo vinculado à barganha de empregos públicos, já que mantê-lo com concursados é um pouco mais complexo, necessitando barganhas mais poderosas, ou intimidações mais vitais. A contratação voltou a aumentar o poder dos políticos eleitos em dar cargos a seus cabos eleitorais, a amigos, a amigos dos amigos, e até mesmo a eleitores diretos, vez ou outra. Pela contratação voltou a prevalecer o mesmo tipo de clientelismo que existia até 1988, na base da troca de favores direta e do apadrinhamento em troca de empregos.

Quase todo o trabalho que tem que ter real funcionalidade no serviço público é exercido atualmente por funcionários contratados, que não têm nem estabilidade nem direitos mínimos no trabalho (como férias ou salários razoáveis), estando sempre insatisfeitos e cansados (por serem explorados, em sua maioria, tendo que executar tarefas que vários outros servidores não executam), tendo baixa capacidade de fazer bem feito o que fazem (já que suas contratações não costumam ser bem feitas, levando em conta suas capacidades técnicas ou suas formações) e estando a todo momento tentando descobrir como alcançar as benesses que vêem sendo usufruídas pelos concursados, que costumam se dar melhor (no sentido pessoal) no serviço público.

Os contratados são a maioria dos funcionários públicos atuais. Boa parte deles ainda são “terceirizados”; ou seja, contratados por alguma “empresa privada”, fundação ou ONG, as quais recebem dinheiro dos governos, os desviam irregularmente e, aí sim, com o que sobra, pagar (e mal) os funcionários contratados. Os contratados geralmente são obrigados a trabalhar no limite de suas capacidades pessoais, explorados até serem exauridos e trocados por outros, mais jovens e mais “cheios de gás”. Além disso, ainda são usados como objetos de troca de favores dentro do clientelismo político, fazendo projetos inúteis para justificar o repasse de verbas para o “terceiro setor” ou sendo eles prórpios, por meio de folhas de pagamento falsas, usados para o desvio de dinheiro público.

Sempre que uma ação do estado se faz “imprescindível” (como ter médicos em uma emergência pública, produzir uma campanha publicitária para algum ministério, transpor as águas de algum rio, fiscalizar aeroportos, ter carcereiros em um novo presídio, construir às pressas uma nova hidrelétrica, etc.), é a contratação (direta ou de “terceirizados”) que entra em cena, já que os servidores públicos propriamente ditos, mesmo sendo muito numerosos e caros, não mais conseguem executar nem mesmo um pouco daquilo que seria a função de um governo. Obviamente, observando este cenário precário, qualquer “governante” bem intencionado, como aconteceu com FHC, acabaria aderindo ao “privatismo” oportunista, apelidado, retoricamente, de neoliberalismo. Já que, de fato, não existiam governos, então que se desmontesse o Estado. Só esqueceram que, para efetivamente desmontar as máquinas administrativas estatais, era preciso que não existissem as funções que um estado deveria executar nas sociedades atuais; funções sem as quais estas sociedades (principalmente as mais caóticas, como a brasileira) não conseguiriam subsistir como nação – e não conseguiriam sobreviver como povos regionais em uma cultura humana global, pois esta, definitivamente, não existe (exceto em ficção científica, onde existem até grandes repúblicas interplanetárias). A contratação, portanto, fecha o ciclo de um estado gigantesco que não governa.

O funcionário com “síndrome de burn out” ou psicopata institucional


Um raro leitor destes textos lembrou-me que eu havia me esquecido dos funcionários públicos que se tornam amorais e com ódio dos outros seres humanos. Lembrei-me que estes realmente existem e não são raros, já tendo sido até inventada uma síndrome médico-psicológica para tentar transformar sua situação em doença, que se chama “síndrome de burn out”. E como eles são diretamente perigosos, resolvi incluí-los – vai que alguém utiliza este texto como guia de auto-ajuda, quer dizer, de auto-proteção.

O funcionário com “síndrome de burn out” ou “psicopata institucional” é mais visível entre servidores que têm função de lidar diretamente com o “público” (com a população em geral). É comum entre professores de escolas públicas, médicos e enfermeiros de hospitais públicos, policiais, psicólogos, motoristas e cobradores de ônibus, psicólogos da rede pública de saúde e atendentes de qualquer tipo de serviço público.


Como o estado brasileiro não tem a capacidade de manter serviços que de fato funcionem, a revolta e o caos popular tendem a recair sobre os funcionários que estão colocados em funções que requerem contato direto com a população.

Serviços públicos de saúde, por exemplo, não funcionam. Apesar disso, há muitos profissionais de saúde que trabalham neles, em contato direto com a população. A população, além de levar para os serviços todo o caos de suas vidas miseráveis, ainda esperam, cobram e se revoltam pelo fato dos serviços não funcionarem; e a pressão resultante recai sobre os profissionais de saúde, principalmente sobre os médicos, que frequentemente são transformados em culpados isolados pelos serviços não funcionarem. Como quase todos os profissionais de saúde são servidores que querem manter seus empregos públicos, eles, em geral (mesmo que cabulando quantas horas forem possíveis), mantêm-se trabalhando como se os serviços funcionassem, a fim de justificar seu salário.


Desse modo, médicos e as outras profissões mencionadas, além de sofrerem toda a pressão da rede de intrigas e barganhas comuns ao funcionalismo público brasileiro, ainda são responsabilizados ou cobrados pela ineficácia de todo o sistema estatal de serviços; e tendo que conciliar a pressão de chefes políticos que os impedem de denunciar o que realmente acontece nos serviços (quando resolvem fazer isso – até porque denunciar, no Brasil, somente gera espetáculo midiático e não resolve nada) e a pressão da população que não sabe que os serviços públicos brasileiros (incluindo hospitais e escolas) são mero fingimento, a maior parte do tempo.

Uma escola pública brasileira, por exemplo, não funciona para educar crianças (para quem não sabe, as escolas públicas brasileiras geralmente são as piores do mundo em quase todo tipo de avaliação internacional); sua finalidade, para a maioria das crianças, além de servir de depósito, é meramente formal: distribuir diplomas para que os brasileiros se iludam. Apesar disso, os professores são obrigados a fingir (até para si próprios, caso contrário não conseguem dar tantas aulas repetidamente) que ensinam, mantendo os alunos em sala pelo tempo necessário, controlndo-os e lhes passando de ano; e ainda tendo que ouvir, resignados e se sentindo culpados, as queixas dos pais pelo fato de seus filhos não saberem nada. Se não bastasse, também perderam qualquer autonomia diante dos alunos, sendo obrigados a tolerar (fingindo que tentam educar e socializar) pequenos monstros (pequenos animais violentos), com os quais pais e sociedade não sabem o que fazer.


Muitos professores começam a ficar “doentes” e viver de “atestados”; mas outros começam a ter ódio dos alunos, dos pais, dos demais colegas de trabalho e de todos os chefes e políticos possíveis. Ao contrário do que ocorre nos EUA, é possível que matanças seguidas de suicídio comecem, nas escolas brasileiras, com professores. Ao longo de anos, muitos deles tornam-se “com burn out”, ou anti-sociais, no sentido de exacerbarem ódio e agressão indiscriminados. O mesmo acontece com médicos, policiais, enfermeiros e outros sujeitos que lidam com o “público” nessa situação grotesca, no encontro entre estado que não funciona e população confusa e perdida. Todos estes, no entanto, nem sempre se tornam psicopatas muito ativos, quer dizer, todo o tempo agressivos. A maior parte do tempo se afundam em álcool e drogas. Aliás, a drogadição dentro do estado (literalmente falando, nas horas e ambientes de trabalho) é algo comum a quase todos os tipos de funcionários públicos, apesar de os psicopatas terem maior tendência. Parece ser mesmo difícil aguentar toda essa situação caótica de "cara limpa" - inclusive aguentar o próprio país, em seu conjunto. Mas voltemos ao tópico específico.


As profissões da saúde e a de professores são as que mais se tornam psicopatas institucionais; mas isso apenas por serem as mais visíveis. São profissões onde a falta sistemática a horas de trabalho é por demais visível e não tolerada, já que evidencia demais que o estado não funciona. Além disso, são profissões onde é difícil se tornar, abertamente, um funcionário “fuck off”, já que precisam manter a “imagem pública” de seriedade no trabalho (ou a revolta contra eles aumenta ainda mais). Policiais também tendem a se tornar psicopatas institucionais, porém eles costumam se tornar corruptos (barganhando com a criminalidade) como forma de não enlouquecerem e de não saírem matando indiscriminadamente.


Além desse tipo de psicopata institucional, o gerado na sua própria função profissional, existem outros. Como o país está se tornando uma terra sem lei e sem moral (exceto na retórica de espetáculos midiáticos envolvendo algumas polícias, comentaristas e justiça), a possibilidade de praticar crimes dentro da máquina do estado, ou usando-a para isso, tem se tornado mais fácil e mais freqüente, gerando, assim, o psicopata institucional por oportunismo pessoal. Ás vezes é até uma tática: ser bandido e se eleger vereador ou deputado aumenta a possibilidade de se praticar crimes impunemente, e até com maior facilidade. É a criminalidade comum tomando conta do estado.


Também pode haver um outro subtipo de psicopata institucional, que é o psicopata institucional militante. Este, contudo, como vimos sobre o militante carreirista, não tem ódio por igual de todos os colegas de trabalho e de todos os usuários de serviços públicos. Ao contrário, seu ódio é focalizado naquelas pessoas que ele elege como inimigo ideológico, contra as quais ele se sente com toda a liberdade moral para atacar do jeito que lhe for possível, inclusive com a morte. Como, no entanto, a escolha de “inimigos ideológicos” pode ser subjetiva e arbitrária, não raras vezes o direcionamento para certos inimigos (e não outros) é questão de simples conveniência, azar do escolhido, ou pura ilusão momentânea do militante, destinada ao extravasamento de seu ódio. Afinal, quando as ilusões não se realizam, alguém tem que levar a culpa. E o Brasil, não se realizando como país moderno, civilizado e desenvolvido (ou mesmo como país), não faltarão culpados de ocasião, com todos a lutar contra todos.


Desfecho: a ingovernabilidade essencial de um povo que não deu certo

Como se vê, se fôssemos procurar uma idéia única para explicar porque o Estado brasileiro é gigantesco - porém ao mesmo tempo nem governa nem administra a vida pública do país - não o conseguiríamos. Não existe, propriamente, um governo brasileiro; embora exista uma máquina administrativa grande e repleta de funcionários. Há, isso sim, diversos interesses fragmentados a conformar essa máquina administrativa; porém interesses que não alcançam uma coesão enquanto governo. São interesses que não têm em comum nenhum sentido de nação e do que seria construir e governar um país, um estado, um município, uma universidade, uma empresa, um banco público ou o que quer que fosse. O Brasil, do ponto de vista político, não é uma república, exceto formalmente. É uma tentativa de plutocracia, uma constante disputa de grupos que detêm poderes sociais locais ou grupais por cargos públicos como forma de ampliarem seu poder pessoal e riqueza, ou apenas como forma de sobreviver numa sociedade que subsiste ao longo de alguns séculos. É possível, contudo, que uma sociedade que se estrutura dessa forma não vá muito longe como estado nacional. De modo que, ou esse estado de coisas não irá muito longe – sendo substituído por tentativas de se fundar uma nação mais coesa e com maior chance de sobreviver ao mundo -, ou o país se fragmentará em disputas internais quase tribais.
Desde a base até o topo das tentativas de governo das últimas décadas, todos os funcionários públicos estiveram demasiadamente enredados em suas vidas particulares, em seus lances de momento, mais concentrados no próximo passo que precisam dar para trabalhar menos, para ganhar mais de dinheiro do Estado, para sacanear um outro competidor em disputa pelo mesmo cargo, para aparecer na mídia ou para construir um currículo acadêmico melhor e tirar mais um projeto da CAPES e outros objetivos pessoais imediatos.

Em todos os níveis de quaisquer governor o que predominam são interesses pessoais circunstanciais. Qualquer visão de algo geral, em nível nacional, ou mesmo em nível de governo local ou regional, não existe; ou, se existe, esporadicamente, logo é englobada pela teia de interesses e joguinhos particulares de poder, quase sempre envolvendo ganho financeiro ou, no máximo, o prazer pessoal de alguns ao tentar levar adiante utopias humanistas que apenas constroem guetos subculturais para se tornarem líderes e se deleitarem com seus sonhos de poder e de transformação de tudo, de revolução. E como o brasileiro não tem capacidade de reflexão sobre o que está acontecendo no restante do mundo, ele acredita que o futuro das coisas ao seu redor, no próprio Brasil, está garantido, haja o que houver, independentemente do que aconteça no país.

No Brasil não houve a construção de um estado com fins de governo, e sim a criação de cargos e órgãos de estado que passaram a sustentar pessoas voltadas para seus benefícios particulares ou para a realização de suas utopias pessoais ou de seus grupinhos.

Existem situações isoladas de governabilidade, como algum gerenciamento do sistema financeiro nacional, no Banco Central, no Banco do Brasil e no Ministério da Fazenda, alguma regulamentação do transporte (estradas, leis de trânsito, comércio de carro e caminhões), alguma mínima estruturação de um sistema de saúde nacional (bem como alguma regulamentação, mesmo que muito discreta, dos sistemas de saúde privados), alguma estruturação de polícias e de sistema judiciário criminal e de carceragem, mesmo que de modo quase colapsado. Também houve a estruturação de sistemas integrados de ensino (mesmo funcionando mais na retórica e na impostura do que em realidade), de sistemas nacionais de comunicação regulamentados pelo Estado para serem geridos por grupos privados (como as emissoras de televisão, rádio, telefonia, etc.), de um sistema energético nacional razoavelmente funcionante (calcado principalmente em hidroelétricas), entre outras coisas. Tudo isso, em conjunto, mantém um mínimo de estado funcionante, com um precário controle sobre a população.

O estado brasileiro é, portanto, muito maior do que as parcas e mal acabadas funções de governo que executa. A maioria dos seus funcionários públicos não têm utilidade alguma, e dentre aqueles que têm alguma funcionalidade, a maior parte de seu tempo é gasta na perseguição a seus objetivos pessoais junto a seus cargos púbicos, a fazer joguinhos para conseguir um cargo mais alto, tentar sair mais cedo do trabalho, obter uma verba pública para um projeto inútil, descobrir como ganhar dinheiro do mercado privado, alcançar alguns benefícios a mais ou uma aposentadoria precoce, etc.

Não há nenhuma explicação simplista para a ingovernabilidade essencial do Brasil, porém entender a disfuncionalidade do estado brasileiro também não é algo tão difícil assim. O difícil mesmo é perceber que não há solução. A ingovernabilidade do Estado brasileiro transcende o próprio estado e nos revela um povo que não tem a capacidade de ser povo, de se organizar como povo em um estado nacional e se governar por meio de eleições com sufrágio universal para alguns cargos de comando.

O Brasil que existe atualmente logo irá sucumbir a si mesmo, ao que já é, mesmo que de forma impensável para a maioria dos brasileiros. Aliás, o que escrevo nestes textos não traz nada de novo: eu apenas chego a conclusões que as pessoas em geral preferem não chegar, para não sentirem sua existência ameaçada. Ao observarmos o Estado brasileiro, por dentro, nada mais vemos do que este processo em andamento: ilusão e caos, enquanto as pessoas cuidam de seus interesses particulares; o que, no geral, é a essência do caos brasileiro.

31.5.08

Baixa tolerância para a vida universitária

Não sei se isso tem a ver especificamente com o Brasil, mas, de qualquer modo, não tenho muita tolerância para a vida universitária. Tive que freqüentá-la um pouco mais de perto nas últimas semanas, e suportar aquele bando de estudantes alienados, vazios e deslumbrados, sempre reunidos em grupinhos risonhos e confiantes em seu futuro, todos fazendo pose e tentando ser inteligentes ou espertos.
Tive que apresentar algumas palestras para estudantes da área de saúde – formalmente, e infelizmente, a minha área; se bem que já tentei mudar de área algumas vezes, me aproximei das ciências sociais, mas como a mediocridade era a mesma, só que com outra aparência e novas ilusões, acabei ficando mesmo onde o dinheiro corria mais fácil (ou menos difícil). Nas ciências sociais, para ganhar dinheiro, é preciso mentir mais, ou ser mais ingênuo.
Atualmente, pelo menos, posso ficar um pouco mais longe da vida universitária do que quando eu era estudante. Aquela época, sim, foi difícil suportar. No curso de medicina foram seis anos medíocres, realmente desoladores para alguém intelectualmente inquieto.
Foram seis anos para aprender a ver o mundo dentro de uma ilusão biológica (naturalista) e positivista, e para engolir, subliminarmente, os valores morais mercantis corrompidos da área da saúde no Brasil, bem como para adquirir a capacidade de representar satisfatoriamente o cínico teatro que a população exige do médico. Depois levei mais do que seis anos para deixar de ser ideologicamente um médico, e não sei se já consegui totalmente...
Fiz bons amigos na faculdade de medicina, mas sempre entre os alunos mais “marginais” da área – embora, alguns, infelizmente, eu esteja vendo-os, ainda hoje, se deteriorarem como pessoa, ao se tornarem cada vez mais e integralmente médicos, tipicamente médicos, e nada mais que médicos.
Em relação à maioria dos estudantes de medicina, contudo, o mais triste mesmo era ver que se deterioravam ainda dentro da própria faculdade. Ano após ano tornavam-se beberrões (bêbados) arrogantes e fingidos, ou médicos workaholics e sem vida, quase todos se tornando artificiais em suas relações pessoais e infantilizados em relação a como vêem o mundo e como pensam todas as coisas. Felizmente, e por muito pouco, acho que escapei dessa mediocridade mais degradante. A mediocridade fantasiada de sucesso é das piores.
Trago algumas lembranças daquele período. Uma delas se mantém viva na forma de dois textos que escrevi quando estava no quarto e quinto anos de faculdade, em 1993 e 94. Vou reproduzi-los abaixo, já que mostram bem o quanto a crença da população no grande valor que é estudar medicina no Brasil se tornou pura fantasia de gente muito ignorante, de uma classe média muito ingênua e imbecilizada. Ambos foram escritos para serem distribuídos entre alguns colegas, durante um encontro “científico”, onde médicos e alunos costumam ir para “encher a cara”.
No primeiro texto, que se chama “Marasmo”, descrevi um típico dia do meu sexto semestre (ou terceiro ano) de faculdade de medicina.

MARASMO

“MARASMO” fraqueza extrema; emaciação; caquexia, extenuação, por lesão orgânica; atonia; apatia moral; indiferença; melancolia”.
Retirada do “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”, esta seria uma primeira definição da palavra marasmo. Para facilitar a compreensão, segue uma segunda, um pouco maior, menos técnica, e em forma de alienante rotina:
“O acordar é cedo, pensando no dia, ou em qualquer outra coisa. Os dias de calouro já se foram, o curso básico já era e, de repente, este ano seria uma nova fase. O começo foi até promissor, mas logo desandou e veio o resto, que nada correspondeu.
Aula começando às 8 horas, como em todos os dias do ano. Mas a esta altura, conta-se nos dedos de uma mão os alunos que chegam no horário. E atrasados, lá estamos, eu e outros, a conversar e aguardar, também atrasado, aquele que daria aula. Meia hora é um tempo bom, uma hora é melhor ainda. Mas pelo visto, hoje levamos o ‘cano’; o atraso do professor não era atraso, era ausência – isto, a título de esclarecimento, não chega a ser tão comum, mas também não é raro. É algo que se incorpora à rotina e pronto! Alguns alunos irão embora, outros optarão pela conversa fiada e alguns poucos irão estudar. Parabenizo e invejo estes últimos, mas como eu, penso que a maioria preferiria pegar um livro e estudar em casa.
Duas horas passadas de puro ócio. Nova aula. Agora não há problemas, ela existe e se inicia. Eu me concentro e quero chegar ao nível de empolgação que outros chegam. A aula é boa, ou até ótima, mas o calor aumenta. O ventilador, se existisse, estaria estragado, assim como as cortinas, que existem e estão. O professor aponta uma tela quase em branco e diz estar ali uma estrutura tal sendo projetada. O banheiro próximo fede, e apesar disso tudo, o sono bate.
Após o cochilo, o acordar assustado. Da aula, difícil saber por onde passa. E a dúvida então surge: onde andará a maldita vocação, que disseram vencer barreiras, mas que tem desmoronado frente ao marasmo que nos impõem e ao qual eu me entrego? Os moralistas dirão, eu sei: ‘Fraco!’ Mas eu tento dormir tranqüilo; e eles?
Uma tarde nos espera, com seu calor latente, seu odor peculiar e a sala cheia de gente. O professor faz-nos perder a sesta a esperá-la em seu atraso – hoje ele conseguiu atrasar-se mais do que muitos. Mas a aula começa e cada qual segue seu rumo: alguns dormem, outros aprendem e um terceiro grupo apenas vagueia. Eu, depois de algum tempo, estou com estes, presente e alheio. Se estivesse solitário em minha atitude, eu me julgaria culpado, me condenaria a ovelha negra, e tudo se acharia resolvido: todo o curso estaria no caminho certo e eu na contramão. Mas não é tão fácil. É preciso compreender o que se passa em aulas em que pelo menos 40% das pessoas vagueiam ou dormem! De quem é a culpa?
O fim do dia chega, o fim da semana chega, e o que se quer é fugir. Enfiar a cara nos livros pode ser uma opção, enfiar a cara na cerveja outra, e com todas apenas se esquecer a semana; prolongar-se a alienação e mascarar o conflito. O objetivo imediato pode ser engolir uma prova ou livrar-se da ressaca. Um plantão corrido ajuda a matar o tempo e a não pensar. E iludir-se, fingir-se de médico, ‘tocar serviço’. Há várias opções. Não ver o tempo passar é fácil. O final de semana logo chega ao fim; e o que se inicia é o mesmo de antes: seguir a maioria e acomodar-se no marasmo; esperar o próximo ano, e novamente iludir-se”.

Já o segundo texto, que se chama “Encruzilhada”, que escrevi no início do nono semestre (ou quinto ano) de faculdade, trata dos caminhos em que eu e meus colegas nos tornávamos cada vez mais medíocres.

ENCRUZILHADA...

“Ninguém quer ouvir que o caminho é sem volta, que o que se encerrou está feito, acabado, e não há recomeço. De tempos em tempos, pára-se, olha-se os erros e pensa-se: “De agora em frente, só acertos”.
A faculdade é um desses pontos de parada. Cada ano quer-se recomeçar, para depois, então, voltar e não cometer-se tantos erros. A cada novo dia a sensação é de que muito se perde – e realmente muito se perde. Durante seis anos corremos atrás do conhecimento científico e, com ou sem falhas, o conquistamos. Penoso é, mas sempre foi. É difícil, porém, compreender o que acontece: excetuando-se o conhecimento “técnico”, desaprende-se tudo. Se nos calassem a boca para o conhecimento médico e para o dia-a-dia, conversaríamos entre nós as mesmas infantilidades de há 10 anos.
Quando se inicia o 2º grau, vislumbra-se, longe ainda, a faculdade: “será ela o ápice da escadaria – deve-se lá discutir de tudo, de sexo a poesia, de deus a política... De ‘gente jovem reunida’ deve sair algo mais que merda!”. E sai: fala-se em livros e em notas; em trabalhos e em notas; em plantões e em notas; em dinheiro, carro, roupas e em notas... No 2º grau aguarda-se um vestibular idiotizante para depois, então, expandir-se a mente. E a faculdade vem, a mente científica cresce e cresce, mas todo o resto encolhe-se e cala-se. Quem sonha, aguarda o recomeço, talvez a cada ano, a cada mês ou a cada dia; ou então após todos os seis anos. Mas aí, é sonho demais – após todos esses anos restará muito pouco. A maioria, desde o começo, cala a própria mente, alimenta o seu pensar científico e satisfaz somente cada necessidade diária. Essa é nossa opção... e não existe equilíbrio, não existe meio termo. O equilíbrio é a hipocrisia, é fingir que tudo está bem, que a “veterinária humana” nos sacia a mente. Mas, deixando-se de lado os “cientistas”, haverá muitos de nós que querem muito mais da vida – poucos esperarão a morte aos 30...
Quem não quer ler, ouvir e discutir quaisquer idéias? Quem não quer ouvir boa música, ou tocá-la? Quem não quer assistir a bons filmes? Quem não quer ligar-se mais à sociedade e entendê-la melhor? Quem não quer transcender??... As respostas irão do “não” amarelo e envergonhado dos desiludidos ao “não” convicto dos cínicos; e mesmo haverá o “sim” dos hipócritas. Cada qual quer seguir sua direção e fazer sua vida. A encruzilhada, na verdade, só tem uma direção – quase todos irão morrer aos 30, mesmo que o corpo chegue aos 80 e que o dinheiro dure até os 100.”

x x x x

Às vezes, hoje em dia (2007), quando tenho que enfrentar palestras acadêmicas na área da saúde, tento me empolgar, ao menos um pouco, levando os temas imbecis da área pelo menos para alguma discussão sobre saúde pública ou políticas de saúde, tentando não ficar apenas discutindo como se trata “doenças”. Mas logo me lembro destes textos; e muito antes do que gostaria, sempre me desanimo – conversar com médicos ou estudantes de medicina é quase o mesmo que falar sozinho.
Ao olhar nos olhos dos estudantes da área saúde, e de seus “mestres” e “doutores”, vejo o tipo de pessoa que aprendi a reconhecer durante a minha faculdade: sujeitos que vestem uma máscara profunda e a reproduzem com a finalidade de ganhar dinheiro, de enganar os mais crédulos ou apenas de não perceberem que quase tudo em que acreditam, enquanto médicos, não deixa de ser uma grande fraude, onde seu ar de seriedade nada mais é que uma grande impostura.
Sem dúvida, se depender de gente que passou por uma máquina de massacrar adolescentes, como essa que eu próprio, ainda adolescente, atravessei, nada há que se fazer pela estranha relação que se estabeleceu entre a população de fodidos desse país e a manada de médicos de classe média que saem das faculdades desesperados por ganhar dinheiro e justificar o prestígio que ainda lhes é atribuído. Os poucos sobreviventes nada podem fazer.
Da medicina, hoje sei disso muito bem, eu quero distância. Todos os ex-médicos que conheço querem o mesmo. E muitos médicos “da ativa” que também conheço querem a mesma coisa, embora não consigam. Eu os respeito, mas vou ter que exorcizar alguns de meus fantasmas escrevendo sobre a podridão da medicina brasileira.

21.3.08

O NOVO RACISMO NO BRASIL

Tenho um misto de pena e medo do Brasil, e desse povo suicida e ignorante. Espero ainda conseguir sair daqui antes que a rejeição dos países europeus, norte-americanos e asiáticos aos brasileiros se torne intensa demais. E espero conseguir sair sem ter que me tornar vassalo ou bandido em algum outro país.
É sofrido ver como a maioria dos brasileiros, incluindo seus “intelectuais”, “governantes” e “políticos”, tenta lidar com o colapso social e cultural do país. Uma das estratégias deste povo não reflexivo para tentar reduzir a crescente marginalidade econômica de sua população é tentando atribuir parte desta marginalidade ao racismo. Os negros seriam maioria, dentre a pobreza e miséria brasileira, devido ao racismo da sociedade brasileira.
Um bom exemplo desta lorota que tem prevalecido nos meios acadêmicos, políticos e midiáticos brasileiros foi o que ocorreu na Casa do Estudante Universitário (CEU, ou C.O.) da Universidade de Brasília (UnB), no mês de março de 2007. Sem motivo conhecido, as portas dos apartamentos onde moram algumas dezenas de alunos provenientes de vários países africanos foram queimadas. Os próprios negros africanos, todo o meio acadêmico da UNB (quer dizer, de seus professores e burocratas) e toda a grande e pequena mídia do país atribuíram tal atentado ao racismo e, por incrível que pareça, a xenofobia racista. Mais de uma emissora de televisão nacional chegou a mostrar uma antiga pichação na casa do estudante da UNB em que estava escrito : “fora africanos”, ou “fora estrangeiros”.
Em realidade, contudo, o que está a ocorrer não ganhou qualquer debate na mídia ou nas palavras dos acadêmicos e burocratas locais. A escravidão negra no Brasil realmente condicionou, em grande parte, a população negra que se tornou brasileira a uma situação sub-humana (em relação a um humanismo igualitarista europeu de século XX). Atualmente, entretanto, atritos “aparentemente raciais” nada ou quase nada têm a ver com racismo. No caso da UNB, o atrito entre os africanos e os demais alunos, caso tenha realmente resultado no ateamento de fogo a porta dos alojamentos dos africanos, tem outra origem, que não a racial.
Um provável ódio aos alunos estrangeiros de origem africana que estudam na UnB tem outras causas que não racismo e xenofobia. Um certo apadrinhamento político-ideológico-institucional, comum no Brasil, que protege alguns grupos organizados em detrimento de outros, tem gerado uma competição profundamente desigual entre alguns sujeitos (protegidos pela ideologia oficial) e aqueles que não se beneficiam, ou mesmo se prejudicam, com a proteção dada aos primeiros. Vou explicar com mais detalhe.
Os negros africanos que vêm estudar no Brasil têm a seu favor várias leis e portarias, várias normas universitárias, várias ONGs e associações políticas e partidos, e toda uma gama de discursos político-ideológicos que os protegem por serem africanos, negros e estrangeiros. Com essa proteção, sua entrada na universidade, sua manutenção na mesma e sua carreira acadêmica são mais facilitadas que acontece com o restante da população. E, além disso, por serem protegidos como “vítimas” do sistema racista brasileiro, adquirem maior liberdade de ação do que os demais universitários. Por exemplo: se houver uma única vaga para alguém morar na casa do estudante da UnB, e dois estudantes estiverem na disputa, um sendo negro africano e outro um brasileiro de que “cor” for, muito provavelmente a vaga será do negro africano. Se houver uma vaga em algum curso para algum aluno entrar sem precisar prestar vestibular (por ser vaga de aluno desistente, por exemplo), e houver disputa com algum negro africano, muito provavelmente este ganhará a vaga. Concorrências em que haja critérios subjetivos, então, como entrevista e análise de currículo para bolsas, pós-graduações, etc., dificilmente um negro africano sai derrotado; e tudo isso sem que esteja muito em questão a qualidade acadêmica sua e dos demais alunos.
Todos estes benefícios geraram uma ruptura entre a maioria dos estudantes brasileiros da UnB, ou de outras nacionalidades que não africanas, e os estudantes africanos que lá estudam por meio de intercâmbios entre o governo brasileiro e o governo de seus países de origem. Como são muito protegidos, legal, institucional e ideologicamente, além de se darem melhor na busca por benefícios oficiais, qualquer acusação ou reprovação acadêmica de poderiam ser rebatidas com a acusação de racismo. Consequentemente, os africanos começaram a ser mal vistos pelos demais estudantes; justamente por terem condições melhores do que a maioria em todas as situações de concorrências diretas com eles, e ainda por não poderem ser nem mesmo criticados (pois qualquer crítica soaria como racismo). Ao mesmo tempo, por se tornarem mal vistos pelos demais alunos, e por serem muito protegidos, tendo privilégios (além de virem de classes sociais privilegiadas em seus países de origem), eles tornaram-se freqüentemente arrogantes e detentores de uma autoconfiança que os demais alunos da UnB não tinham. Autoconfiança esta diretamente ligada ao fato de que podiam vir a fazer o que quisessem sem serem punidos, muitas vezes nem mesmo sendo criticados, justamente por serem negros africanos. Portanto, os alunos africanos tornaram-se triplamente protegidos: por serem negros, por serem africanos e por serem estudantes universitários da UnB com entrada facilitada (já que a maioria dos estudantes brasileiros tem que ralar muito para entrar em faculdades públicas).
Do lado dos demais estudantes, a raiva cresceu por eles se sentirem derrotados em tudo que disputassem com os africanos, e ainda tendo que tolerar a arrogância pela vitória certa que estes demonstram nos bastidores, bem como tendo que tolerar a expressão de inocência e de vítima injustiçada que sempre fazem em público quando acusados, mesmo que justamente, de qualquer coisa – a fim de continuarem a se beneficiar da ignorância ideológica brasileira e da ignorância diplomática (“politicamente correta”) dos líderes políticos de ocasião. Assim, quando os outros alunos agridem os negros africanos, a melhor situação que estes têm - devido a espertezas e ingenuidades humanistas - é que é o real motivo social da agressão, e não algum racismo em sentido tradicional, de brancos discriminando negros por sua cor da pele.
Do lado dos negros africanos, estes se sentem apenas competindo como podem para sobreviver, ascender ou se manter socialmente bem no mundo cão em que vivem, seja na África (de onde tentam fugir), ou neste decadente país latino-americano, de onde também logo tentarão fugir - como já fazem muitos brasileiros, que andam preferindo lavar vasos sanitários nos Estados Unidos, Europa ou Japão, a serem cidadãos brasileiros no Brasil.
Os africanos que estudam na UNB, ou em outras universidades públicas brasileiras, terminadas suas faculdades aqui (ás custas do governo brasileiro), frequentemente deixam o Brasil em busca de países em situação melhor do que os seus próprios de origem e do que o Brasil, do mesmo modo que fazem os “intelectuais” tupiniquins: indo estudar, com bolsas financiadas pelo governo, em outros países, e passando a viverem lá como burgueses de primeiro mundo.
Enquanto ficam estudando no Brasil, entretanto, como lhes é dado maior poder em concorrências com outros alunos, e maior liberdade para fazerem o que quiserem sem serem punidos, eles terminam por agir de maneira a desfrutar de suas regalias enquanto estudantes privilegiados. Agem com arrogância, isolacionismo (ainda maior do que o inerente ao fato de estarem em outro país, de outra cultura, falando língua estranha) e agressividade. Provocam os demais estudantes à violência de modo até mais acentuado do que são provocados, já que, a cada agressão que sofrem, se fortalecem enquanto “vítimas” e ganham ainda mais “direitos” e proteção; pois, se são agredidos, esta agressão será entendida como racismo e xenofobia; e, se agridem, sua agressão será tolerada como revolta contra o racismo e conta a xenofobia.
Escrevo, contudo, este texto, apenas como um lamento, e não como alguém que quer lutar por justiça. Se tentasse dar vazão política a este tipo de visão que tenho, logo eu próprio seria acusado de racismo. O Brasil está, infelizmente, condenado a sua cegueira.
O que vemos acontecer na UNB, como um microcosmo dessa problemática, certamente irá acontecer (e mesmo já está lentamente acontecendo, em nível populacional no Brasil, caso se mantenha a ideologia de que “cotas para negros” irá ajudar a resolver o colapso social do país. Ao contrário, esta distorção decorrente da cegueira brasileira tem mais possibilidade é de direcionar o colapso social brasileiro (que acontece por outros motivos, e apenas historicamente por uma colonização que envolveu escravidão de negros) para lutas internas de segmentos populacionais que se agruparão contra outros segmentos, à medida que o gargalo que dá passagem da pobreza ao luxo se torna progressivamente mais estreito. Inevitavelmente, o resultado será que os vários segmentos sociais brasileiros se destruam mutuamente, sem nada conseguirem que não violência progressiva e adensamento do caos.
Salve-se quem puder enquanto é tempo! É isso que estão fazendo os alunos africanos e os negros brasileiros intelectualizados. Apenas usam as armas que têm ao seu alcance para tentarem escapar (momentaneamente) ao caos. Estão em busca de algum “banker” que lhes proteja e a vida por alguns anos. Não há utra coisa a fazer.
Toda essa confusão, contudo, não deixa de se manifestar como uma forma de racismo – já que assim querem vê-la. Mas se trata de um racismo inovado, que cria um novo mecanismo definidor do que vem a ser raça (que não apenas diferenças entre grupos humanos baseadas em algumas características físicas e culturais): raça passa a ser aquele conjunto de características meramente físicas (e bem visíveis) que possibilita alguns direitos (legais e morais) a determinados grupos suficientemente organizados a ponto de convencerem legisladores e a opinião pública de que eles devem ter alguns benefícios. Comumente a alegação levantada por esses grupos é a de que as características físicas que os unem (como cor da pele) os colocam com uma dada origem histórico-cultural na qual foram massacrados e alojados numa posição social inferior, o que teria a ver com a condição atual de estarem numa situação social inferior (o que é verdade). As “políticas afirmativas” (a concessão de benefícios na atualidade para corrigir a desigualdade de condições do passado, bem como para amenizar a culpa de cristãos, ex-cristãos e hipócritas do presente) seriam um novo desequilíbrio de condições para corrigir o desequilíbrio do passado. Parte do princípio de que deva existir igualdade de condições para a ascensão social entre todos os homens, e não tendo sido assim com os negros no passado de escravidão; o que, então, daria a legitimidade de corrigirem o passado com a política de benefícios aos negros na atualidade. Mas, ao gerarem uma desigualdade de competição no presente (já que existe uma boa parcela da população que está na mesma situação que os negros e seus descendentes, mas sem o serem), terminam por gerar nestes a mesma sensação de estarem sendo surrupiados em seus direitos de igualdade de condições para se tornarem burgueses felizes.
Como se vê, corrigir desigualdades do presente com base em desigualdades do passado não é algo realista, já que a crença na igualdade de condições é uma ilusão: existiam portugueses pobres e portugueses ricos, negros escravos e negros escravocratas, romanos pobres e romanos ricos, judeus pobres e judeus ricos, e assim por diante. Em todas as culturas humanas sempre existiu desigualdade de poder e de acesso aos bens do grupo. Não existiu um igualitarismo primordial até onde todos os revanchismos pudessem chegar, fazendo da vida atual uma grande humanidade igualitária. A tentativa de usar o argumento da desigualdade do passado para gerar uma forma institucional de desigualdade no presente é só um argumento de ocasião para a competição que se faz cada vez mais acirrada no presente, e em nível populacional. Essa tentativa nada de verdadeira por si mesmo, nem de justa. É apenas uma ferramenta competitiva. Se exercida como se fosse verdade universal, quase todos os viventes atuais poderiam exercê-la. No Brasil teria que ter uma cota por estado da federação: quem nascesse no Piauí receberia 80% de auxílio para entrar na faculdade, e quem nascesse no Rio Grande do Sul receberia apenas 40%. Ou poderia ser por município, ou por bairro, ou mesmo por família; ou, quem sabe, individualizado: quem tiver sobrenome Silva, com pai e mãe Silva, teste de Q.I. abaixo da média, maior número de dias internado para tratamentos médicos durante a infância, menor renda familiar, moradia mais longe de boas escolas, etc. teria maior pontuação para obter cotas para concursos em geral – principalmente aqueles para cargos públicos (se é para se mamar nas tetas do estado, que se mame direito!). Seria a primeira nação do mundo a sair diretamente do caos para a realização da maior de todas as utopias humanas.
Esquecendo-se essa ilusão humanista, entretanto, o que encontramos sendo construído no Brasil é bem diferente desta utopia. A maioria dos “movimentos negros”estão construindo um novo racismo, conquistando para seus membros e para outros sujeitos que consigam provar que parecem ter origem de cor de pele mais visivelmente negra uma série de benefícios (legais e morais) que os torna no presente mais competitivos – e sendo um destes benefícios aquele de acusar seus competidores de racismo, caso simplesmente venham a competir de igual por igual, ou desejar que seja assim,já que racismo (contra negros) se tornou crime, além de moralmente condenável. Consequentemente, a liberdade que os negros (mas por enquanto apenas os mais intelectualizados) passaram a ter para atacarem e se defenderem em qualquer situação de disputa social se tornou grande demais, maior do que a de todos os demais. Com maior liberdade de ação, e ainda se mantendo na posição de injustiçados, frequentemente tornam-se pedantes, arrogantes, falaciosos (já que a todo o tempo precisam insinuar racismo, quando muito atacados, seja porque motivo for), provocadores, populistas (já que falam em nome dos negros em geral, mas apenas os líderes destes movimentos e alguns mais intelectualizados costumam se beneficiar do processo), inescrupulosos e auto-centrados (pois só vêem a sua “causa”, com tudo o mais girando em torno dela).
Os movimentos negros no Brasil estão plantando uma bomba-relógio em uma sociedade que já tem em seus subterrâneos muito pólvora pronta a estourar. Lentamente os brancos e demais brasileiros (que não conseguirem se beneficiar com as cotas, ou que não comungarem com a prepotência dos movimentos negros) irão começar a discriminar os militantes de movimentos negros e seus beneficiários, como resposta a estes estarem usando um discurso insustentável, de qualquer ponto-de-vista, para se beneficiarem em toda situação que requeiram competição. Mas tudo parecerá mais e mais racismo, ou mesmo tudo se manifestará como racismo, já que entender toda a sutileza desses jogos de poder e dessas falácias não está ao alcance do brasileiro.

SOBREVIVENDO NO CAOS. Paixão, demonização e idolatria: três formas de ser alguém ao conviver com brasileiros desesperados

O cotidiano no caos tem outros parâmetros para as relações entre as pessoas, bem diferentes daqueles que as psicologias idealistas (todas as psicologias que existem) defendem ser alguma essência do comportamento humano.
Apesar de o caos brasileiro não ser pensado pelos próprios brasileiros, e não ser colocado em palavras (para que as pessoas não entrem ainda mais em desespero diante do colapso do país, acelerando o próprio colapso), o que vou descrever agora pode ser observado por qualquer pessoa que queira perceber a realidade indo um pouco além das ilusões que sustentam este resto de nação.
Quem sobrevive cotidianamente no Brasil tendo que se relacionar com pessoas em cargo de chefia, prestando serviço para os sujeitos comuns do povo pobre, ou tendo que ser esperto em quaisquer compras, serviços e usufruto de serviços que necessite, precisa saber se relacionar - mesmo que intuitivamente (de modo não muito claramente pensado) - com os sujeitos mais desesperados que o caos costuma gerar.
A maioria dos brasileiros não é (ainda) composta de pessoas muito desesperadas pela sobrevivência, ou por algo muito imediatista que dê sentido às suas vidas vazias. O número de pessoas assim tem gradualmente crescido, mais ainda é, felizmente, minoria. A maioria ainda é alienada, conformada com suas desgraças cotidianas, por pior que sejam, e esperançosas, vivendo a espera de coisas que nunca irão acontecer. Ou seja, de algum modo, a maioria dos brasileiros ainda espera por algum paraíso, ou nele acredita, por pior que seja sua situação real. Queria eu que continuasse assim, mas infelizmente essa passividade tem cedido lugar ao desespero em número cada vez maior, e sem qualquer força social que direcione este desespero para algo coletivamente construtivo. As forças que existem, cientes deste desespero crescente e tentando, ao mesmo tempo, lidar com ele, são apenas forças exploratórias da população, como a maioria das igrejas evangélicas, dos médicos e psicólogos, bem como dos políticos populistas (embora dizer “político populista” no Brasil seja redundância).
Embora os francamente desesperados sejam minoria, é possível (e inevitável) topar com eles o dia todo, mesmo para quem se esforce em viver muito isolado. Essa minoria que estou chamando de francamente desesperada, no entanto, não exacerba seu desespero em horas seguidas de demonstração pública de desgraça, de descontrole, de dor extrema, se contorcendo e berrando no meio da rua ou em lugares “inapropriados”. Já existe uma certa adaptação da sociedade brasileira, e do jeito de ser do brasileiro atual, para lidar cotidianamente com sua vida desesperada sem que grandes sobressaltos se estabeleçam. Já há, o que temporariamente é uma razoável adaptação social do país, uma cronicidade no desespero.
Esta frágil adaptação, entretanto, não faz o desespero coletivo do brasileiro desaparecer. Apenas o isola em determinados ambientes e determinados encontros entre pessoas. Genericamente, estes ambientes destinados aos desesperados são as igrejas (as evangélicas mais populares, em especial), os bares mais “barra-pesada” (com suas bebedeiras, brigas e assassinatos freqüentes), os pronto-socorros médicos (lotados de “crises de pânico”, “pitis”, DNVs, chiliques, histerias, somatizações e outros nomes médicos dados ao desespero coletivo, bem como infestados de bizarrices geradas nas agressões diretas e no desespero diluído em álcool), as delegacias e presídios superlotados de gente se matando (ou sendo morta como forma de manter os demais presos sob razoável controle em seu desespero – principalmente quando este se manifesta na forma de ira, de fúria assassina, destrutiva, com ou sem qualquer coerência e objetivo), em alguns shows de funk de periferia, de rap, de rock pesado e em boates “inferninhos” (bem como em outros locais onde a drogadição é a regra social, e não a exceção), nas guerras entre quadrilhas de traficantes, nos hospitais psiquiátricos superlotados, etc. Estes são os ambientes onde a vida essencialmente desesperada chega ao seu extremo; mas, por outro lado, são também ambientes fundamentais para que os outros espaços da vida social possam se manter razoavelmente com algum ar de “racionalidade” e de “segurança civilizada” (como no interior da maioria dos lares de classe média, nos bairros nobres das grandes cidades, nos shoppings centers, na maioria das escolas e faculdades, nas agências bancárias, nas poucas indústrias que resistem, nos cinemas e nos demais lugares de “convivência pacífica civilizada e protegida”), onde as pessoas possam se alienar da realidade e freqüentar sem estarem amedrontadas ou confrontadas com o caos crescente.
Apesar dos ambientes mais específicos para a sociabilidade dos mais desesperados, manifestações do desespero crescente tem rompido, cada vez em maior número, estes cercos, invadindo os recantos de aparente civilidade burguesa.
Vez ou outra, sem motivo aparente, um desesperado invade um cinema, um bar “pacato”, um restaurante sofisticado, uma boate “bem freqüentada”, um ponto de ônibus cheio de gente ou uma rua tranqüila, e sai a atirar, esfaquear ou atropelar a esmo. Embora o brasileiro comum tenha medo do “crime organizado” (já que assim passou a ser chamado o crime no qual organizações se tornam relativamente numerosas, e com algum comando centralizado, mesmo que por um breve período), mal sabe ele que quanto mais organizado o crime, mais os espaços de civilidade mantêm-se preservados do caos. Quanto mais violentas forem as guerras entre traficantes rivais, quanto mais devastadoras forem as overdoses e assassinatos nos ambientes destinados ao desespero, quanto mais distante dos locais de resquício de civilidade ficarem as demonstrações de caos crescente – desde que havendo um certo controle de natalidade e um bom isolamento físico dos ambientes específicos destinados ao caos (como as nações atuais mais ricas conseguem razoavelmente, embora a custa de exploração do resto do mundo), mais a ilusão de civilidade geral consegue parecer duradoura.
Outro modo comum de o desespero se manifestar, fora de seus locais próprios e sem estas francas invasões de ambientes, é nas zonas de contato entre as pessoas que se esforçam para manter a sua segurança pessoal e familiar, seu ganho financeiro (geralmente alto, ou com pretensão a sê-lo, já que é preciso um bom dinheiro para se afastar e se proteger dos ambientes de sociabilidade mais caótica, mais desesperada) e o seu poder social intocáveis.
É nessas zonas de contato que os burgueses intelectualoides como eu têm (inevitavelmente, infelizmente) sua experiência cotidiana com momentos de desespero mais intensos dos brasileiros que estão em situação pior, e potencialmente mais ameaçadoras – freqüentemente o desespero se transforma em fúria destrutiva, despejada ao acaso em quem estiver mais próximo; o qual, por algum motivo que não conseguirá descobrir, acabou por atrair a atenção do desesperado em seu momento de fúria sem direção.
Entre os mais burgueses, gente de classe média ou classe alta, profissionais liberais competindo por pequenos cargos de chefia em repartições públicas, por clientela ou por ganhos comerciais, ou por prazer e sensação de poder, é comum que o desespero se manifeste de forma bastante dissimulada e o mais contido possível. Tais pessoas mantêm, a maior parte do tempo, expressões de sofisticação, auto-controle, segurança e educação como formas muito bem aprendidas, mesmo que falsas, de esconder publicamente suas angústias, pesadelos e momentos solitários de desespero, medo e terror, além de constante vazio diante de uma vida que, caso parem para refletir momentaneamente, lhes parece sem sentido e sofrida.
Em geral, quem é brasileiro e tem a possibilidade de ler textos como estes terão como colegas de trabalho este tipo de gente contida a que estou me referindo, além de tê-los também como vizinhos, amigos, familiares, ou poder topar com eles em shoppings, cinemas, festinhas, repartições públicas, hospitais, consultórios médicos, escritórios de contabilidade e advocacia, etc.; quer dizer, em todos os lugares mais protegidos, que lembrem civilidade e organização, e não em lugares próprios do desespero.
Outra forma de burgueses intelectualóides como eu, que tentam viver em bairros urbanos nos quais o caos esteja menos escancarado, e freqüentar ambientes que não sejam locais de expressão dos desesperados a maior parte do tempo (em sua forma de dor ou de fúria), é tendo que trabalhar em contato com a pobreza econômica e social do país, com pessoas que vivem a maior parte do tempo em ambientes mais caóticos e sujeitos ao desespero a qualquer hora. Nestes locais, mais restritos a favelas e bairros pobres, o desespero é maior e mais visível, porém nem sempre acontecendo apenas nos locais específicos para ele, e acontecendo de modo menos contido. Na vida cotidiana nesses espaços é mais freqüente momentos em que um sorriso cordial rapidamente se transforma em choro sofrido ou raiva expressa (embora seja bem mais freqüente o choro do que a raiva expressa, quanto maior for a idade deste brasileiro pobre a que me refiro, já que os mais pobres e mais velhos ainda têm resquícios de identidade da socialização cristã escravocrata que condenava e punia a raiva, o ódio, enquanto que os sujeitos mais novos cada vez menos contém sua raiva e fúria).
Seja, portanto, na relação com pessoas dissimuladas de classe média que entram em desespero de modo mais contido (e nos lugares e momentos mais apropriados, como nos consultórios de psicoterapia, por exemplo), ou seja no contato com os desesperados mais diretos da classe pobre (com os quais freqüentemente bastam dez minutos de conversa mais pessoal para o choro desesperador romper com força o mascaramento social e a contensão subjetiva da desgraça), o brasileiro mais habilitado para a vida cotidiana em um país em colapso rapidamente precisa aprender a não se deixar envolver pelo desespero dos outros.
De modo semelhante ao individualismo afetivo de europeus e norte-americanos, a adaptação do brasileiro ao caos tem gerado sua própria forma de distanciamento e isolamento afetivo; e isso como forma de evitar que o caos, na forma de desespero das outras pessoas, o envolva nas tramas pessoais que os desesperados costumam construir para a manter sua sobrevivência. Embora seja possível alguém vir a ser vítima do suicídio de outra pessoa (que antes de se matar diretamente resolve dirigir em alta velocidade embriagado, dar tiros a esmo ou criar qualquer outro tipo de confusão que envolva mais alguns), isto é bem mais difícil de acontecer àqueles sujeitos que passam a viver, caso consigam (e até que ponto), afetivamente mais isolados e defendidos de todos os demais.
No desespero, um sujeito tende a querer inimigos (reais ou imaginários, ou um pouco de cada) com os quais lutar. Como as pessoas desesperadas não podem nem mesmo ter a opção pela loucura total (passando a ter demônios apenas imaginários), o mais comum é que os desesperados transformem em inimigos, em demônios pessoais, outros sujeitos de carne e osso que estejam nas proximidades. Por isso o brasileiro mais habilitado para esgueirar-se e sobreviver no caos aprende a distanciar-se daqueles que suspeita poderem transformá-lo em inimigo no qual depositar a culpa por nada dar certo. Lembrem que o brasileiro, como o ser humano em geral, não tem a capacidade de refletir e concluir que a culpa possa não estar no vizinho, no marido, no pai, na mãe, no chefe, no colega de trabalho, ou em qualquer desconhecido com quem cruze o caminho. Ao contrário, ele tende, refletindo ou não, a afunilar a culpa em torno destas figuras com quem convive. A culpa pela desgraça recairá sobre quem está mais próximo ou sobre quem cruzar o caminho no momento em que a contenção do desespero e da fúria falharem. Enxergar além das pessoas do seu convívio imediato não é uma das faculdades do brasileiro. Consequentemente, a habilidade da sobrevivência no caos está em não se deixar ser mais um destes cegos; em não se deixar também demonizar, ou ser feito inimigo, por algum desesperado que cruze o seu caminho, ou não se deixar ser “bode expiatório” para grupos de desesperados, como fazem ONGs militantes sociais, partidos políticos radicais, associações profissionais, igrejas e movimentos moralizantes de qualquer tipo..
Pessoas pobres em grande desespero tendem a demonizar também aqueles que não se solidarizam com seu sofrimento. O pior demônio para o sofredor frequentemente é aquele que lhe demonstra frieza. Quem trata mal a pessoa em seu momento de maior desespero, mesmo que por desatenção ou descuido momentâneo, pode se tornar um inimigo pior do que aquele que maltrata descaradamente. Por isso, médicos e políticos, por exemplo, têm sempre a habilidade de ter duas caras: aquela que automaticamente contemporiza com o sofredor ou desesperado, e aquela outra que debocha cinicamente ou o maltrata pelas costas.
Já pessoas menos pobres, ou classe média em busca de ascensão social, dinheiro ou poder, tendem a demonizar aqueles que demonstrem ameaçar sua ascensão ao poder ou aqueles que lhes pareçam não dar o devido respeito pelo poder já conquistado – esta última atitude costuma lhes ameaçar gerando insegurança, por deixar transparecer que seu poder é ilusório e de nada garantindo longevidade em meio ao caos. Assim sendo, o brasileiro habilidoso em se esgueirar no caos logo aprende a bajular ou fingir respeito diante dos iludidos com o poder – se não podem ser atacados apenas para que estes iludidos sintam que têm o poder de fazer alguém sofrer.
De outro modo, uma forma de se dar mal no caos ao ser demonizado por alguém é não perceber que a demonização pode começar por uma paixão ou idolatria, duas outras formas de os desesperados tentarem aliviar ou pacificar sua desgraça elegendo pessoas de seu convívio a um status de alguém que pode vir a ser responsabilizada pelo caos ao serem inicialmente elevadas à categoria de salvadores.
Uma pessoa desesperada, com vida vazia e sem sentido (e aqui com muito pouca diferença entre pobres, ricos e remediados), tende a se apaixonar com intensidade inversamente proporcional à dimensão de sua desgraça e de seu vazio. Seja junto à paixão, ou mesmo em substituição a ela, tendem a idolatrar algum possível salvador, ídolo, mártir, messias, ou alguém que lhe dê sentido para a vida e alívio para o seu tormento.
Não é à-toa que já existem muitos psicólogos, escritores de auto-ajuda, poetas e amedrontados em geral aconselhando as pessoas a não se apaixonarem. E isso porque os apaixonados podem, no momento seguinte ao êxtase da paixão, tornarem-se os algozes da vida que volta à mesma merda assim que o êxtase se dilui ou assim que ele é novamente ofuscado pelo caos. Frequentemente um sujeito apaixonado se torna demonizado por alguém que no instante anterior o amava com todo ardor do mundo. Mesmo se o fim da paixão não seja o terror, o sujeito apaixonado tende a ficar escravo daquela sensação, e mais desesperado toda vez que perdê-la, se sentindo na necessidade de sair à procura de outra custe o que custar. A paixão também pode deixar o sujeito escravo de alguém que tem a necessidade de afirmar seu poder sobre uma outra pessoa a fim de que a vida lhe faça sentido – e nesse caso ele poderá ter conseguido um algoz real, não raro dentro de sua própria casa.
Nem todos os desesperados, entretanto, conseguem se apaixonar, ou ter na paixão a forma de ter sensações que deixem a vida parecendo ter sentido. Muitos, principalmente os mais pobres, têm uma carência especial, também inversamente proporcional à sua desgraça, que é a de ter que alçar alguém à condição de ídolo que oriente a sua vida, para a salvação do mundo, ou para o alívio do sofrimento no caos. Políticos populistas, profissionais da saúde, artistas pop, pastores, escritores de auto-ajuda e quaisquer candidatos a gurus, intelectuais ou líderes para consumo de massa costumam se beneficiar desta necessidade mais acelerada dos desesperados por mitos e ídolos messiânicos. Por isso eu afirmei, em outro texto, que a essência da vida social brasileira, e das hierarquizações sociais regionais que sobraram no Brasil, é o messianismo; este cresce à medida que o desespero aumenta.
Os brasileiros mais habilidosos para viver no caos, contudo, sabem que, ao mesmo tempo em que uma certa idolatria é necessária para ganhar dinheiro e algum poder sobre a massa – por tornar a massa, ou pequenos fragmentos dela, dependente da existência do ídolo (do que ele fala, do que ele orienta, do que ele representa) – a idolatria também pode tornar-se perigosa, rapidamente transformando-se em ódio, em demonização daquele que logo antes encanava um quase deus; e isto caso ele traia as expectativas daqueles que o elegeram a ídolo, mito ou guru – o que é inevitável que sempre aconteça. Por esse motivo quase todo o ídolo termina com medo de seus antigos seguidores, ficando progressivamente mais isolado e recluso em algum lugar que se sinta protegido, ou termina mesmo assassinado por algum ex-fã.
Sobreviver no caos, enquanto possível, não é nada fácil. Tantas são as formas de o desespero se aproximar, que vai ver o melhor mesmo é se juntar aos desesperados. Teria sido também para mim, mas ando preferindo ficar longe dos brasileiros; e, por precaução, de brasileiros de todos os tipos.

15.2.08

“1º e 2º graus em 6 meses”

As estatísticas brasileiras são falseadas. Estatísticas como as que indicam diminuição do analfabetismo, diminuição de crianças fora da sala de aula, redução da mortalidade infantil, desemprego, etc, são sistematicamente falseadas para encobrir a desgraça nacional. É um falseamento, contudo, que encobre o próprio modo como o falseamento se dá: é um falseamento metodológico. Recentemente isso aconteceu com o desemprego, mudando-se o método de calcular o número de desempregados do país. Com a mudança quase 10 pontos percentuais foram reduzidos. Consequentemente, toda a mídia foi obrigada a parar de falar em 20% ou mais de desemprego e passar a falar em 11 ou 12% de desempregados. É o novo milagre brasileiro. Um alívio para os aflitos telespectadores do Jornal Nacional. Puderam voltar a ficar tranqüilos para ouvir as notícias sobre animaizinhos se reproduzindo em cativeiros na Austrália ou para ver mais um gol sem graça do Ronaldinho.

Além de falseamentos mais óbvios como este, cuja argumentação retórica e falaciosa o IBGE deve ter reproduzido à época, muitos outros falseamentos estatísticos tem sido feitos para camuflar para os brasileiros e, principalmente, para estrangeiros, a situação do país – já que estatísticas poderiam servir para revelar, em parte, as dimensões da catástrofe nacional.

A mortalidade infantil, por exemplo, tem sido encoberta por outro fato que, em outros tempos ou em outro país, seria alarmante: o gigantesco número de crianças que não são registradas anualmente no Brasil, e o número de cemitérios clandestinos infantis que têm se formado nos lugares mais pobres do país. Um modo de esconder a realidade do país é impedir que o número crescente de marginalizados sociais adentrem os números oficiais. Aumentando a burocracia e o custo com a mesma, a desgraça tem que ficar fora dos números oficiais, e, consequentemente, fora da grande mídia chapa-branca.

Além dos falseamentos estatísticos, porém, um outro tipo de falseamento tornou-se o modo de o Brasil não ser declarado oficialmente em situação de colapso social: é o falseamento da civilidade. A ONU já classifica o Brasil como país em “desindustrialização”, embora a mídia brasileira continue a falar em “bloco dos países em desenvolvimento”, como se o Brasil estivesse no meio, juntamente com China e Índia. Mas não está: apenas a eficiente diplomacia do país tem conseguido, de vez em quando, arrancar de governantes estrangeiros declarações cordiais afirmando o Brasil como país em desenvolvimento.

Outro modo de falsear a civilidade nacional tem sido falsear um dos pontos fundamentais, na modernidade, para se conceber o que é civilização moderna: a educação da população. Nos últimos anos, vendo ser impossível levar educação de nível para a massa popular brasileira, o que o governo federal fez foi “abrir as pernas” para a distribuição de diplomas, reduzindo tempo de exigência de estudo e qualquer averiguação séria de qualificação do aprendizado.

Há alguns anos eu já havia me chocado, andando nas ruas de Brasília, ao ver um outdoor oferecendo “curso superior em 02 anos”. Depois disso, já nem me choquei tanto quando vi a oferta de “curso superior não presencial em 02 anos”. Já estava claro que só não haviam oficializado ainda a venda direta de diplomas de curso superior – isso continua a ser feito apenas na “surdina” (não dá nem mesmo pra dizer que é ilegal ou criminoso, já que não se houve falar em ninguém preso por isso: a “vista grossa” faz parte do falseamento da civilidade nacional, ao que toda a população aderiu). Também não me choquei, por exemplo, quando fiquei sabendo que o número de médicos formados no Brasil aumentou em mais de 50% nos últimos 5 anos. Na falta de médicos na rede pública, o que o governo fez foi liberar qualquer faculdade de “beira de estrada” a abrir cursos de medicina e lucrar com o afã da classe média em ter um “doutor” na família (como já havia acontecido com o direito). Consequentemente, o número oficial de médicos cresce e a rede pública vai poder ser abastecida por mão de obra desqualificada e se sujeitando a salários ridículos e situações muitíssimo precárias de trabalho. O mesmo já havia acontecido, nas últimas décadas, com os professores da rede pública de ensino fundamental, com os psicólogos da rede pública de saúde, e com tudo mais onde se requeira eficiência técnica de serviços prestados à população. Ou seja: formalmente, no papel, o país vai ter médicos na rede pública, professores e alunos nas escolas públicas e toda uma população atendida por esses marcos civilizatórios. Mas na prática apenas uma grande rede de civilidade oficial se forma. Apenas do ponto de vista formal (e é isso que vai parar em estatísticas), o Brasil se torna um país moderno e civilizado. Em essência, continua um grande vazio: uma grande população de analfabetos, sem doutores, sem médicos de verdade, sem capacidade técnica real para se produzir qualquer coisa, sem governantes que entendam o que estão falando (quanto mais fazendo); e com esta grande população de farsantes ainda tendo perdido seus valores e saberes tradicionais. O brasileiro trocou sua tradição cristã-rural-escravagista (semi-feudal) pela farsa, pela simulação de civilidade, pela impostura em todos os sentidos. Tornou-se um grande povo (numericamente falando) mas sem qualquer essência que o sustente como cultura e como nação.

Hoje, 15 de fevereiro de 2008, eu estava andando pelas ruas e vi uma série de cartazes que anunciavam o seguinte: “1º e 2º grau em 6 meses”. Já estão vendendo diplomas abertamente. Torço para que seja um anúncio falso, uma fraude apenas comercial, mas acho que não é. E se for, é quase a mesma coisa. Num país de farsa generalizada, tudo é válido ganhar dinheiro e se progredir na arte da falsa-modernidade.

O Brasil continua a ser um país de analfabetos, mas só que agora com um analfabetismo diplomado.

A camuflagem de civilidade, no entanto, mal tem conseguido esconder o que há por trás dessa grande farsa: inúmeros aglomerados de pessoas ignorantes lutando, sem regras e sem valores, pela sobrevivência ou por ilusões fugazes. Ilusão ou morte, eis o lema desta proto-nação fracassada.

3.2.08

Dinheiro: a morte em vida do brasileiro de classe média (exemplificando com a vida de médico no Brasil)


O que faz um típico brasileiro de classe média a maior parte de seu tempo acordado?

Infelizmente, a mediocridade da vida cotidiana possível no Brasil tornou-se tão massacrante que em poucos parágrafos é possível responder de forma certeira uma pergunta tão complexa.

Infelizmente, inspiro-me em meus próprios amigos, vizinhos, familiares, conhecidos e colegas, e, não raramente, em mim mesmo, apesar de minhas inúmeras e constantes tentativas de não me deixar amortecer nesta vala comum.

A vida do brasileiro de classe média gira em torno dele conseguir produzir algo vendável ou ser alguém que tenha algo seu a vender para outros sujeitos como ele. Chegou a tal ponto, essa redução da vida do brasileiro ao ato de ganhar dinheiro, que praticamente qualquer outra coisa que ele faça da vida aos olhos e opiniões da maioria é visto e comentado como moralmente ridículo, inútil e imbecil, exceto se for alguma coisa que, de alguma maneira, mesmo que indireta, ou num futuro hipotético, possa também resultar em dinheiro.

Por exemplo, se um sujeito pinta um quadro, compõe uma música ou escreve um livro, a pergunta que surge de praticamente todos é: dá dinheiro? Vai vender? Vai atrair a atenção de possíveis compradores? A mercantilização radical reina soberana na mentalidade dos brasileiros; e enquanto o país é destruído de forma acelerada por este canibalismo mercantil violento.

Um país arrasado, moral e economicamente, com uma população que está iniciando uma guerra caótica de todos contra todos, pela sobrevivência, por dinheiro ou por prazer e sensação de poder imediatos, é o que está resultando da vida de milhões de pessoas que conformaram sua existência, sua energia, seus maiores esforços, para conseguir vender algo a alguém e ganhar dinheiro.

Não sobrou, no Brasil moribundo, arte espontânea, filosofia independente, busca gratuita por ideais existenciais pessoais ou coletivos. Sobrou apenas a arte, a filosofia e o ideal de ganhar dinheiro, mesmo que as pessoas mal consigam explicar, quando perguntadas, o que lhes dá o dinheiro; exceto, quase sempre, um consumismo inútil de coisas que apenas possibilitam um prazer imediato. Não sobrou, no Brasil, vida espiritual, busca por transcendências metafísicas, tentativas de se encontrar algum sentido para a vida em tempos globalmente difíceis e críticos. Quase toda a transcendência religiosa e metafísica do brasileiro está ou a serviço de fazê-lo suportar a agrura de uma vida quase só dedicada mecanicamente a ganhar dinheiro ou a serviço de fazê-lo suportar a vida quando derrotado na luta diária por ganhar dinheiro.

Mas acalmem-se, possíveis leitores assustados – os quais espero que tenham pago indiretamente a mim para estar lendo estas páginas em algum livro: vou lhes contar com mais detalhes como um brasileiro de classe média, às vezes um sujeito belo e sonhador na juventude, cheio de utopias e ideais variados, lentamente torna-se uma mentalidade mesquinha, um morto vivo na busca ininterrupta e cotidiana por ganhar dinheiro.

Comecemos, num plano geral, vendo alguém já no final desta corrida enlouquecida pela grana.

Um brasileiro de classe média, para ser reconhecido como um sujeito adulto, um sujeito que mereça respeito, precisa ter e mostrar publicamente uma função social que adquiriu, uma profissão, a qual lhe permita ter, ser ou produzir algo que possa interessar como produto de consumo aos seus contemporâneos; pelo que estes lhe pagarão.

Há duas formas de um típico brasileiro assim ganhar o seu: vendendo algo diretamente para outras pessoas que têm como lhe pagar; ou vendendo algo para o governo brasileiro; o qual compra, em princípio, com o discurso de que está comprando para distribuir o produto comprado ou o serviço adquirido à grande massa da população do país, a qual não pode pagar diretamente por aquilo que “necessita” (e reparem bem, esta “necessidade” está entre aspas).

Peguemos os médicos, típicos exemplares da mais típica classe média brasileira. Após formado, um médico logo aprende que ele tem dois caminhos a seguir, os quais não raro co-existem entre si: ele pode ser funcionário público, atendendo dezenas ou centenas de pessoas por dia, em condições grotescas de trabalho e de tensão social. Nessa situação ele se sentirá constantemente agredido e desprestigiado pela população insatisfeita, bem como mal remunerado e feito de otário por administrações públicas nas quais a maioria das pessoas que ocupam cargo de chefia acima dele parecem despreparadas para coordenar qualquer programa de saúde, embora mantenham um ar de hipocrisia e cinismo constante, parecendo gostar do “quanto pior melhor”, já que assim deixam entender que é mais fácil lucrar com o dinheiro público.

Ao contrário desta primeira opção (ou falta de opção), o sonho de quase todo médico recém especializado é ter uma vasta clientela particular que lhe pague bem por seu trabalho e o transforme em um novo-rico bem sucedido.

Para ser bem sucedido nesta segunda possibilidade, ou seja, no mercado privado da medicina brasileira, entretanto, logo o médico recém especializado aprende que deve se tornar um bom vendedor de si mesmo. Mas como ele não pode fazer marketing direto de seus serviços, ao contrário do que pode fazer um vendedor de margarinas, por exemplo, dizendo que seu produto é melhor do que os outros (um médico não pode aparecer num comercial de TV dizendo que opera uma hérnia inguinal ou que faz alguém emagrecer melhor do que os outros), o médico é obrigado a fazer marketing indireto. Quer dizer: ele tem que fazer marketing de uma doença, fazendo a doença tornar-se popular (fazer com que um problema se torne bastante conhecido como determinada doença) e, ao fazer isso, ter a esta doença associado o seu nome como grande especialista que a entende e trata como ninguém.

O esforço de um médico de consultório particular, portanto, é em prol dele conseguir se tornar o primeiro ou um dos primeiros a difundir uma “nova doença”, ou um “novo tratamento”, ou uma “nova droga” ou “nova cirurgia”. Deve, para ser bem sucedido, primeiro executar esse marketing indireto entre seus próprios colegas médicos, para que estes lhe encaminhem pacientes. Médicos particulares costumam criar um círculo de colegas que se auto-encaminham pacientes uns aos outros, como se fosse “troca de presentes”. Depois de feito o bom marketing dentro de sua própria profissão, este marketing indireto deve se voltar para a população em geral, por meio de entrevistas na televisão, jornais escritos, palestras ou aulas comunitárias.

O produto de divulgação do médico, portanto, é a doença, o medo da doença (por parte da população) e a promessa de seu tratamento, que pode vir a ser um promessa realista ou idealizada pelo próprio ato médico de prometer grandes melhoras a fim de atrair maior clientela. Contudo, este marketing indireto acontece com uma camuflagem científica. Tudo fica parecendo estar relacionado à descoberta científica de algo novo e a uma possibilidade de engrandecimento, de melhora, de cura ou de quase imortalidade, que o paciente poderá adquirir ao se beneficiar deste “algo novo” que o médico tem a oferecer, e que teria sido descoberto pela ciência moderna, da qual ele seria apenas um interlocutor para a população.

Ter as leis de mercado regulando a profissão médica, como todas as demais profissões, em princípio, não teria nada de estranho. No Brasil, contudo, o resultado desta mercantilização cotidiana da medicina tornou-se algo de uma perversão gritante. Como a clientela particular no Brasil é muito pequena perto da quantidade total de médicos, tal clientela é disputada agressivamente, gerando uma impostura médica disseminada.

Um conhecido meu, médico ortopedista, por exemplo, disse-me assim um dia, a respeito de uma lesão que eu tive no ombro: “olha, eu jamais operaria seu ombro. A possibilidade de agravar o problema ou de não melhorar em nada é muito grande. Não compensa o risco, já que há uma série de outras alternativas capazes de manterem seu legal legal a vida inteira. Agora, se você for a um especialista em ombro, ele vai falar na hora pra você operar. Tem gente aí operando tudo! Até lombalgia, tem gente por aí operando. Lombalgia, pura dor nas costas, sem qualquer lesão evidente, o cara vai e opera”.

Eu não fiquei propriamente surpreso com o que ele me disse. Já estou acostumado. Algumas semanas antes uma conhecida minha, que é médica ginecologista, se queixava: “os mastologistas piraram da cabeça! Eles estão operando nódulo de mama que nem tumor benigno chega a ser. E para roubarem os pacientes e convencê-los a operar, eles estão fazendo as cirurgias por plano de saúde, que paga uma mixaria. Pra compensar, eles marcam vários pacientes de uma vez só. Levam todos para o centro cirúrgico ao mesmo tempo e operam em série. Vão passando de mesa em mesa”.

Ou seja: como é pouca a quantidade de pacientes particulares em relação à quantidade de médicos que querem atender apenas pacientes em consultórios particulares (para poderem fugir do caos da saúde pública), e como ainda muitos desses pacientes potencialmente particulares ainda pagam planos de saúde (que também exploram os médicos lhe pagando muito mal), resta aos médicos lutarem entre si para conseguir vender seu saber e suas técnicas enquanto especialistas, não raras vezes transformando doenças menos graves num discurso de doença grave para que os pacientes acreditem que tais doenças necessitam de procedimentos mais caros (como cirurgias de ombro e retiradas de nódulo de mama, por exemplo). E se em relação a atos cirúrgicos a situação chegou a este ponto, imagino como não estarão os tratamentos clínicos, sem falar nos psicológicos e na inundação de terapias alternativas que invadiram o país. Quanto maior a subjetividade, maior a invenção de falsas doenças, de técnicas desnecessárias ou inúteis e de falso agravamento de doenças ou problemas que são simples.

Qualquer publicitário sabe que um bom marketing está ligado à criação da necessidade do consumidor por um produto. Os médicos estão fazendo isso à sua maneira, com pseudo-ciência e com a falsa ética de que precisam informar a população sobre doenças. E é um processo poderoso: um consumidor comum ainda pode duvidar um pouco de um publicitário e sua “ética”, porém tende a acreditar bem mais na opinião médica. O mais difícil deste processo é que no meio de médicos fazendo discursos acintosamente apenas como marketing indireto existem também muitos médicos humanamente preocupados com a população, porém que também terminam por fazer este jogo de cena marqueteiro, seja por ingenuidade ou por acreditarem que estão servindo a uma boa causa. Não descobriram ainda que boa parte do próprio conhecimento médico foi enviesado pela mercantilização radical da área (como de tudo o mais).

Há alguns médicos que, bem sucedidos em vender doenças e técnicas terapêuticas, descobrem alguns clientes bem mais endinheirados do que as pessoas que os procuram. São aqueles médicos que começam a vender tratamentos de doenças para a “saúde pública”. Freqüentemente são médicos ligados camufladamente a grandes indústrias de remédios ou de produtos hospitalares, adentrando um lobby poderoso para a elaboração de leis e portarias governamentais, e/ou exercendo um grande poder de convencimento do Ministério da Saúde ou de secretarias de saúde a fim de que estes comprem determinadas drogas para determinadas doenças ou determinados equipamentos para alguns tratamentos, ou mesmo ainda pressionando para que novos tratamentos sejam incluídos na rede pública. Mas claro, sempre com um discurso humanista, de inclusão social ou coisa parecida.

Às vezes classes profissionais inteiras passam a ganhar vagas em concursos públicos na área de saúde quando conseguem convencer gestores da necessidade que a população teria de sua profissão, e isto bem além de ações restritas a médicos. Este, na verdade, é o principal motivo porque muitas profissões tentam regulamentar-se, como aconteceu em 2006 com os “terapeutas alternativos em saúde”, beneficiados por uma portaria que credenciava terapias alternativas no SUS. Já que a própria medicina faz isso, por que todas as outras profissões não podem? Todo mundo se sente, afinal, com o direito de “tirar sua casquinha” do bolo do dinheiro público nacional, e tentar garantir assim algum salário do governo, enquanto, na outra frente de batalha, luta para conquistar clientes para seu consultório particular.

Como se vê, é uma luta árdua. A dedicação dos médicos a ganhar dinheiro tem que ser integral, para que ele tenha êxito, seja em alcançar cargo público que não o massacre no atendimento direto à massa miserável que acorre a postos de saúde e emergências em busca de conforto ou ilusão, seja em conseguir ser um ardil marqueteiro de algo cujo marketing deve muito bem disfarçado. Não raro, muitos médicos tornam-se acadêmicos, doutores e professores de grandes universidades, bem como membros de comitês de ética, com o objetivo primordial de elevar o preço de suas consultas particulares e também para que o marketing de si próprio torne-se muito misturado ao respeito que ainda têm as cátedras acadêmicas e ao controle ético que deveriam fazer algumas associações médicas.

Para tanta luta, para tanta dedicação, entretanto, o aprendizado deve começar cedo. E a morte gradual de quase todas as ambições e aspirações pessoais, que não aquela por ganhar dinheiro, também tem que começar a ceder prematuramente, já antes de se entrar para alguma faculdade de medicina, afim de que aqueles sujeitos não adaptados ao estilo de vida regido fundamentalmente por ganhar dinheiro, como eu, não surjam com muita freqüência.

Devo, antes de continuar, porém, fazer uma pausa para ressaltar que somente estou falando de médicos enquanto exemplos. Falo da medicina por saber que isso ainda choca algumas pessoas. Eu poderia falar dos engenheiros e suas empreiteiras, com seus mega-projetos inúteis, recheados de inutilidades arquitetônicas que têm o objetivo ou de tirar dinheiro do estado (sem falar na sua finalidade de servir aos superfaturamentos de obras públicas) ou de empurrar obras caras clientes privados. Do mesmo modo que médicos, arquitetos também têm que aprender rapidamente a convencer seus clientes a consumir o inútil como se fosse necessário, apelando para suas vaidades e seus desejos consumistas infantis por morar em palácios ou em locais que os deixem se sentindo “no melhor lugar do mundo”. Em qualquer bairro nobre de qualquer grande cidade brasileira é facilmente perceptível como o sonho de engenheiros e arquitetos se casa muito bem com o dinheiro daqueles que o ganham em demasia e que não têm depois o que fazer com ele, a não ser comprar o inútil (mas crendo-o fundamental) de bons vendedores de falsas necessidades.

Também poderia falar desses milhares (ou já serão milhões?) de advogados desesperados que a classe média brasileira gerou. Nos Estados Unidos, essa classe tornou-se uma indústria própria: a de processos civis gerados por todo e qualquer motivo imaginável, sempre a procura de gordas indenizações. No Brasil, contudo, onde a maioria da população não tem como pagar indenização alguma a ninguém, e a justiça se perdeu em burocracia e corrupção, a única coisa que resta a estes milhares de advogados é tornarem-se peritos na administração da própria burocracia jurídica e corrupção que o estado brasileiro gerou, vendendo competitivamente cada um deles a sua própria capacidade de tumultuar trâmites processuais, seja a favor do estado (tornando-se burocrata oficial de algum nível da própria justiça, de promotores a ministros de tribunais superiores) ou seja trabalhando para clientes particulares (desde criminosos comuns, passando por empresas caloteiras de impostos ou previdência, até a defesa de colegas de justiça ou políticos a volta com a corrupção de alto nível).

De quantas outras “classes” profissionais poderíamos falar? De quantas mais existirem. Mas o pior é quando vejo a vida daquelas pessoas que são vendedores diretos de algo, que são comerciantes por profissão. Enquanto fui médico (felizmente consegui abandonar a profissão), várias vezes tive pena dos representantes de laboratório que me visitavam. Foi-se o tempo em que prostitutas eram o maior exemplo de degradação moral por dinheiro. Agora estamos todos no mesmo nível.

Os representantes de laboratório, para quem não sabe, é o sujeito que visita os médicos fazendo “propaganda” de remédios. Eles, embora consigam uma vida de pequeno burguês bem sucedida com esse o trabalho de repassar as mentiras das medicações que as grandes indústrias inventam para doenças imaginárias, ou para doenças reais porém que não necessitam de tantos remédios (principalmente daqueles que são inócuos em eficácia), vivem sobre a pressão e o desespero de ter que corromper (quer dizer, convencer) os médicos a prescreverem determinadas medicações (ou marcas de remédios) e não outras, a ponto de fazerem coisas as mais estranhas para tentarem terem êxito.

Também sentir, a cada loja, restaurante, posto de gasolina, consertos de carros e computadores, agências bancárias, imobiliárias, drogarias, escritórios e consultórios em geral, academias de ginástica, igrejas populares e em todo lugar em que se possa ir neste país fodido, a presença de uma ou várias pessoas nitidamente desesperadas (e num desespero tentando ser contido e dissimulado) para vender algo o mais rápido possível, é algo realmente sofrido. Alguns desses vendedores chegam quase a chorar ou lhe agredir quando você não compra nada. Fazer compras no Brasil, tornou-se, entre outras coisas, constrangedor.

Que horror tornou-se viver num país onde quase todo mundo está tendo que agir de forma praticamente insana tentando tirar dinheiro de onde for possível: desde aquela trepada que pode virar ardilosamente uma pensão alimentícia e muita encheção de saco durante 21 anos, ou mesmo para o resto da vida, até o médico que quer lhe empurrar falsos tratamentos para falsos problemas ou o mecânico que inventa defeitos e peças a serem trocadas no carro.

Ainda bem que a maioria dos brasileiros vive na inconsciência sobre o seu país. Não fosse assim, a maioria dos brasileiros tenderia a tornar-se paranóica, desconfiada de tudo e de todos. Espero estar bem longe quando a consciência da maioria das pessoas sobre que fim levou seu país não mais conseguir segurar a agressão e a revolta sem objetividade dessa manada que por enquanto está contida (não será uma revolta organizada e revolucionária, será apenas a passagem do “levar vantagem em tudo” para a agressão direta).

Mas voltando ao preparo das pessoas de classe média a fim de tornarem-se pessoas reduzidas a uma vida baseada na luta por conseguir dinheiro, e tendo que para isso amortecer quaisquer outras ambições e aspirações que possam ter tido quando mais jovens, já afirmei que esse preparo deve começar bem cedo. E assim acontece.

Eu próprio ainda sou de uma geração que nasceu na década de 1970, época em que crianças e adolescentes ainda sonhavam com utopias coletivas, fosse na arte, na política, na intelectualização ou em transcendências místicas. Pessoas como eu não cresciam acreditando que o objetivo maior de sua vida fosse trabalhar, ganhar dinheiro e comprar bugigangas; e depois passar estes valores imediatistas aos filhos como se fossem bons valores.

Vi muitas pessoas de minha geração tendo que ter seus sonhos amortecidos para restringirem-se à vida mercantilizada. O primeiro passo importante para eles talvez tenha sido o vestibular. Na pré-adolescência, como eu, tinham que sair de escolas tradicionais (cujo ensino não era voltado apenas para o vestibular) e entrar em escolas em que não passar no vestibular era pregado como o grande horror de uma vida. Tudo o mais na vida, todas as outras inquietações e aspirações que tivessem sobrevivido a um marketing televisivo que já se tornava bem agressivo teriam que dar lugar à memorização em tempo integral de conhecimento inútil (além de freqüentemente falso).

Após esta mortificação para o vestibular, uma segunda mortificação ocorre já dentro das faculdades, de forma pouco perceptível: já massacrado pela dedicação alienada ao vestibular, a faculdade surge como o período da compensação; é hora de divertir-se ao extremo para compensar os anos perdidos com a memorização inútil. Mais ou menos, o lema é: quem não se divertir é otário.

A memorização inútil, porém, mesmo que mais relaxada, continua a preencher quase toda a vida mental que sobra para além das diversões e ressacas. A diversão constante logo torna-se a única coisa a se fazer que não parece, ao menos no início, algo tão mortificador quanto entregar-se à memorização inútil de uma infinidade de coisas absurdas e sem questionamento algum.

Alguns anos seguem assim: quem não se torna cínico e malandro se exaure estudando teorias inúteis, ou às vezes trabalhando de graça para professores, “pesquisadores” ou empresários, dentro da indústria dos estágios e de bolsas de pesquisa (um modo institucionalizado de se conseguir mão de obra barata e sem vínculo empregatício). De outro lado, o estudante também se acaba no desespero de buscar em diversões constantes algo que dê a sensação de que aqueles anos estão valendo a pena – quando o álcool, a maconha e noites e noites sem dormir apressam a morte em vida de mentes que já haviam sonhado com fantasias e ideais muito diferentes.

Quando a faculdade vai chegando próximo ao seu fim, é a vez de, pelo menos um pouco, a dedicação à diversão ter que dar espaço à busca por um lugar no mercado de trabalho. Os alunos começam, a depender de cada curso e de cada estratégia pessoal de enfrentamento desta fase, a se aperfeiçoarem em suas maneiras próprias de conquistar um trabalho remunerado: alguns vão se dedicar a “novos vestibulares”, decorando outra vez em tempo integral mais conhecimento técnico inútil a fim de disputar seleções para especialização, mestrado, doutorado, residências médicas ou concursos públicos; adiando, pelo menos por algum tempo, o que outros terão que fazer já desde o início da saída da faculdade: enfrentar o mercado.

Com medo do “terrível” mercado de trabalho, muitos começam a se especializar em puxar o saco ou trabalhar de graça já mesmo dentro da faculdade, tentando se aproximar dos professores que já têm um esquema “profissional” estruturado a fim de tirar dinheiro do governo e/ou de quem puder pagar.

Muitos começam, por causa disso, a se tornarem, prematuramente, “marqueteiros” de si mesmos, antes mesmo de concluírem a universidade. Aprendem ainda como alunos a ter um discurso moralista, auto-centrado em sua pessoa e cínico, tentando parecer profissionais sérios e qualificados já aos olhos dos colegas, na tentativa de sobressair sobre eles. Os gestos de puxar o tapete dos outros para se dar bem, seja no que for, começa a ser o novo aprendizado nos últimos anos de faculdade. O assédio dos professores marqueteiros que já têm seus negócios próprios fora das faculdades, e que querem ter futuramente seus ex-alunos como novos clientes, também aumenta.

Desse modo, cercados de todos os lados por pessoas o tempo todo falando em mercado de trabalho (em como ganhar dinheiro), e atemorizados pela luta mercantil sem regras que parece estar chegando, a obsessão por tornarem-se profissionais bem sucedidos (ser famoso e rico, melhor dizendo) toma conta de praticamente todos. Após a faculdade não sobra nenhuma massa crítica capaz de resistir a esta merda: todos já terão amortecido sua capacidade de pensar (a que restava) em álcool, maconha e noites e noites de diversão e falta de sono, e deixando o que ainda restasse por conta dos “decorebas” inúteis. Transformados em imbecis ingênuos (fáceis de enganar), as referências pessoais para estes milhões de profissionais que se formam nesse processo destrutivo tornam-se os “professores” e empresários marqueteiros que consigam passar a imagem de serem sujeitos bem sucedidos e respeitados.

Durante alguns anos após a faculdade (ou após alguma especialização, residência médica, mestrado ou doutorado), a vida acordada dedicada ao trabalho tem que durar cada vez mais, à medida que o sono torna-se um inimigo do ato de ganhar dinheiro e de uma sonhada vitória na carreira. Nesse período, as pequenas drogas do dia-a-dia, para manter acordado e bem disposto o maior tempo possível, tornam-se as novas ferramentas para o estímulo mental. Café, o cigarro, antidepressivos, anfetaminas e ouros remédios para emagrecer, coca-cola, cocaína, ecstase, chocolate, mate, etc. tornam-se novos hábitos de vida (às vezes defendidos como se fossem grandes companheiros de viagem, e ridicularizados os que não o usam). Além do álcool, calmantes e maconha, que ou têm diminuído seu uso ou tornam-se os novos companheiros de compensação ao final de um dia de trabalho, ou de compensação nos finais de semana – para que os exaustos trabalhadores compensem o sacrifício constante e se conformem com a desgraça em que sua vida se transformou -, as drogas estimulantes da vida mental são também integradas à nova vida.

Quaisquer ambições e aspirações outras que estes recém formados já possam ter tido em algum momento de suas vidas, a única que lhes resta é a de ser bem sucedido na profissão – o que passa a significar exclusivamente ganhar muito dinheiro. Os mais espertos, no entanto, logo descobrem que, para serem bem sucedidos, precisam sublimar seus últimos valores morais referentes à sociedade como um todo: descobrem que para serem vitoriosos (ou seja, ganhar mais dinheiro) é necessário enganar e mentir sem culpa. Nessa sutil e gradual transformação, médicos passam a falsear suas pesquisas, construir diagnósticos de falsas doenças (ou não denunciá-las como falsas, delas usufruindo indiretamente), passam a receitar cirurgias e tratamentos desnecessários, a pedir exames inúteis, a fazer superfaturamentos nas secretarias de saúde, a fazer marketing através da propaganda de doenças (reais ou inventadas, porém alardeadas com um certo terrorismo para que as pessoas amedrontadas acorram aos consultórios e tratamentos), passam a trabalhar para as grandes indústrias de remédios e sua venda de medicações em larga escala (não raras vezes através do estado e de falsos discursos de preocupação com a saúde pública), passam a trabalhar para as empresas de planos de saúde (dificultando indiscriminadamente que usuários dos planos possam usá-los), etc. Mesmo os mais arraigados com os seus valores morais tradicionais, se não sublimam o que antes pensavam e acreditavam como certo, e não se atém, mesmo que indiretamente, a algumas dessas ações imorais descritas acima, logo se sentirão derrotados, cansados de tanto trabalhar, empobrecidos e ainda sendo atacados pela população por pertencerem a uma classe profissional de picaretas. Ou, caso se mostrem moralistas denunciadores dessa picaretagem disseminada, ainda podem ser atacados (ás vezes de modo também camuflado) pelo restante da classe médica.

Desse modo, se algum ímpeto ou idealismo ainda restar, alguns anos depois de terminada a faculdade, mesmo que seja algum idealismo relacionado a ser profissionalmente bem sucedido dentro de uma profissão honesta, isto logo estará desfeito.

A maioria dos profissionais não chega a ter consciência clara deste processo de mortificação e amesquinhamento no qual são digeridos, já que noites mal dormidas, tormentas familiares constantes, pequenas drogadições lícitas e ilícitas, logo minam, gradativamente, sua capacidade de pensar com lucidez em algo tão complexo e que não lhes foi ensinado nas memorizações do vestibular e da faculdade. Mesmo sem pensar direito, entretanto, uma certa decepção com o trabalho e com a vida em geral se faz presente, invadindo lentamente o que restou de suas noites de sono. É quando as pequenas drogadições (lícitas e ilícitas) aumentam ainda mais, para que a constatação da desgraça não emerja por completo e de forma abrupta. Romances, amantes e um filho atrás do outro, e todas as despesas relacionadas a eles, também passam a ajudar a ocupar a mente e não ter tempo para reflexão – que apenas geraria constatação da desgraça e dor. Dedicar-se a compras e projetos financeiros cada vez mais ousados, atolando-se em dívidas, também ajuda a se socorrer de uma realidade insuportável.

Tornar-se um consumidor constante das inutilidades que outros profissionais de classe média (também desesperados por ganhar dinheiro) passam a oferecer no dia-a-dia torna-se inevitável. Mais e mais produtos eletrônicos são também comprados, muitos deles para entreter os filhos e o cônjuge, a fim de que fiquem distraídos e não tragam ainda mais problemas. Encher os filhos de aulas, de práticas esportivas ou escolinhas caras, babás, festinhas, academias, terapias e medicamentos de última geração para “depressão infantil” ou “déficit de atenção e hiperatividade”, passam a ocupar quase todo o tempo acordado em que não se está trabalhando para ganhar dinheiro. Porém, ao mesmo tempo que aliviam momentaneamente a pressão, tornam o sujeito mais escravo de ter que ganhar dinheiro para poder manter um estilo de vida consumista e progressivamente mais caro.

Nessa trajetória inevitável, como a profissão tornou-se decepcionante, dedicar-se a ela passa a ter como único entusiasmo o fato de assim ser possível ganhar dinheiro. Nesse tormento, neste acelerado processo de morte em vida, vez ou outra, apesar de tudo, parece irromper um ímpeto de vida. Tudo, no entanto, se faz nublado. O sujeito, mesmo sem querer pensar sobre nada, só consegue chegar a conclusão de que voltar a ter a “sensação de estar vivo” é voltar a fazer as mesmas “farras” que fazia ou desejava ter feito quando era jovem e estava na faculdade. Ele termina, assim, na melhor das situações, enchendo ainda mais a cara de álcool e outras droguinhas e desesperado por transar com qualquer mulher, homens, prostitutas ou o que for, ou dar festas e churrascos caros para que, pelo menos nestes momentos, embriagado, se sinta entusiasmado e vivo. A mulher logo conclui que voltar a viver é voltar a atrair outros homens, a se sentir bonita ou ter amantes, ou separa-sedo marido para viver novos romances tórridos (seus sonhos de felicidade voltam a ser tão irreais e infantis como a 10 ou 20 anos atrás) . Daí a ser uma piolha de academias, de consultórios de estética e de cirurgias plásticas, de drogas lícitas para não se deprimir, bem como de salões de beleza e de bares e boates lotados de bêbados atrás de sexo, é um curto passo. A morte em vida está completa. E o dinheiro torna-se apenas a sustentação desta vida artificial e degradante, na qual o sujeito é muito mais um prisioneiro de toda uma estrutura na qual ele se perdeu por completo.

Mas mesmo mergulhado no caos, sem mínima rédea da sua vida, ele ainda não pode parar de trabalhar e ganhar dinheiro, pois, senão, tudo desaba em sua cabeça (dívidas, acusações da esposa e filhos, sensação mais visível de fracasso), piorando ainda mais a situação e deixando a ele como única conclusão a de que a única solução para se livrar de tanta pressão e vida sem sentido e sem saída é se matar. Nesse ponto, contudo, será chamado de deprimido, de doente, podendo terminar cliente da indústria de tratamentos mentais, onde depositará o que tiver sobrado de seu dinheiro, ou de sua capacidade de se endividar, em medicações high teck, internações e psicoterapias; ou terminará na mão de algum pastor ou místico-religioso charlatão.

Encerro essa descrição por aqui, mas lembrem-se: este brasileiro típico, de classe média, que aqui descrevo, está apenas reproduzindo, de forma radical, a rotina de vida de quase toda uma humanidade super populosa do início deste século XXI, que se tornou mais medíocre e auto-destrutiva, em larga escala, do que jamais fora (mesmo sem nunca ter sido grande coisa). E o que restará, em muito pouco tempo, de um mundo assim, está na cara!...

A vida possível em tempos de destruição (ou “por que escrevo?”)


Raras vezes quem escreve sistematicamente seu pensamento sobre tudo consegue receber um rótulo de “escritor”; rótulo este capaz de possibilitar-lhe ser tolerado, ou até admirado (mesmo à distância), pelas pessoas com quem convive. Isso é raro. O mais comum, para quem tem a necessidade de escrever - para que assim a vida faça algum sentido (ao menos enquanto está escrevendo) - é que ele tenha que, a todo instante, afastar as demais pessoas para poder ficar só e ausentar-se das atribulações da vida comum - já que esta é sempre regada àquilo que, para quem escreve, são conversas fúteis, ou idiotas, além de perda de tempo e de energia em sorrisos falsos e na elaboração de constantes mentiras. A vida social, principalmente em um país de gente muito alienada, hedonista e se auto-destruindo, como no Brasil, é regada a dissimulações em demasia, ingenuidades forçadas demais ou em alegrias demasiadamente juvenis ou sustentadas pelo álcool. Além disso, o brasileiro não tem o hábito (ou a capacidade) de conversar sobre assuntos, sobre temas, e quando o faz, só consegue ser um repetidor de opiniões que memorizou, não conseguindo sequer prestar atenção ao que não coincide com elas.

Para quem escreve a fim de criar, em pensamento, um mundo que possa ao menos ser pensado de modo mais realista, verdadeiro e significativo, a vida social só é tolerada nos momentos em que a mente, esgotada de pensar e escrever, precisa relaxar. Por isso, mandar toda a futilidade, falsidade, ingenuidade e mentiras à merda, de uma vez, não é algo que comumente faz aquele que tem necessidade de escrever. Ficar sem a possibilidade de convivência com as pessoas de quem se gosta, sem as conversas ingênuas e fragmentadas, sem o tempo desperdiçado, quando se está cansado do mundo introspectivo e solitário da escrita do pensamento, é quase tão ruim quanto ser demasiadamente invadido pela vida comum a ponto de não poder haver introspecção para pensar e escrever.

Mas aos olhos de quem não escreve, e que vê sua própria vida cotidiana dotada de sentido e realismo, e que sente nas coisas fúteis e ingênuas um verdadeiro viver, este mundo recluso, cético e desiludido de quem escreve é algo semelhante a uma doença, uma esquisitice completa, algo que não deveria existir. Em parte, acho que isto é verdade: aprofundar-se na intelectualização da vida como maneira de fugir da condição humana, que é a de ser um animal instintivo, falante, iludido e desprezível (na maior parte do tempo), é mesmo uma aberração da existência. O mais natural ao ser humano seria a cegueira completa, uma vida sem a existência de filósofos e escritores. Uma vida cega rumo ao nada, tendo prazeres imediatos e ilusões de poder e de imortalidade, e sem qualquer reflexão sobre a irrealidade dessa forma de vida. Viver sem a possibilidade de ver a vida como um teatro, um teatro sem autor e sem platéia, apenas a encenação pura e sem finalidade de atos contínuos e desarticulados, seria o ideal, caso fosse possível a todos. Porém não é. A vida é um teatro em que os atores não sabem que encenam, e no qual o texto é criação dos próprios atores, que o inventam e passam a acreditar nele como se fosse real. Logo, a capacidade de duvidar está sempre presente, já que não há nenhum roteiro que esteja além de próprio ato.

Ao longo de centenas de milhares de anos várias culturas humanas foram criando seus roteiros teatrais; e vivendo, ou tentando viver, como se esses roteiros fossem verdadeiros. A maioria desses roteiros e seus atores desapareceram praticamente sem deixar continuidade. No ocidente ainda vivemos o teatro judaico-cristão, porém em sua fase de decadência. Essa decadência e ato final, contudo, estão sendo adiados o quanto é possível.

A tentativa de adiamento ou de negação do fim é a modernidade ocidental. Nesta, quase todo esforço inteligente tem se destinado a evitar o ato final, e até pouquíssimo tempo, também a tomada de consciência sobre ele.. Desde a escrita do Apocalipse bíblico uma infinidade de modos de ato final tem sido apresentada. Em moda atualmente está o fim do mundo por meio de mudanças climáticas e pela devastação da natureza. O fim do mundo como ato final é um ato que já faz parte do teatro que continuamos a encenar. Em nosso teatro, contudo, ele tem sido usado como forca motriz dos atos que o precedem desde a época da escrita do Apocalipse bíblico.

Até o fim da cristandade medieval, a ameaça do ato final trazia o medo para os outros atos. Após o Renascimento passou a trazer a soberba do humanismo onipotente, com os atores passando a se acreditar capazes de alterar o roteiro de acordo com suas vontades e inteligência. Justamente na decadência, portanto, os atores do teatro judaico-cristão passaram a virar as costas para o óbvio, embevecidos com a auto-admiração de suas capacidades. Cegos, o ato final passou a se materializar como uma espécie de incêndio a invadir a cena teatral sem que os atores queiram lhe dar o devido valor nos roteiros que continuaram a encenar.

A aberração do escritor-filósofo que tem a necessidade de pensar para além da condição do teatro humano, contudo, criou a possibilidade de se enxergar a inutilidade do esforço dos atores que encenam sem saber que encenam; e ainda poder ver o fogo que inexplicavelmente se iniciou no fundo do palco e que, ainda invisível à maioria dos atores - tão inebriados que estão com as sensações envolvidas em seus papéis - demonstra que em poucos atos tomará conta de toda a cena, destruindo tudo que os atores mais ingênuos acreditavam que fosse perdurar indefinidamente em decorrência de seus esforços.

Mais estranha ainda fica essa condição do escritor, que se tornou espectador, quando ele observa que outros pensadores escritores, como ele, antevendo o fogo que, em relação a maioria, cresce invisível, resolveram retornar à cena para avisar os demais sobre o fogo e o seu poder de destruição. A maioria dos atores em cena passam a rir destes escritores, zombando de sua preocupação desnecessária; maioria esta que nem mesmo se dispõe a olhar na direção em que os escritores pensadores dizem estar o fogo. Alguns poucos atores lhes dão crédito, e correm junto com ele desesperados em direção ao que imaginam ser o foco do incêndio. Destes, alguns se dispersam pelo caminho, outros se queimam e morrem.

Nem todos escritores pensadores, que viram prematuramente o incêndio, tentam iluminar a mente dos atores cegos a seu destino comum. Os escritores que permanecem na condição de espectador começam a ver também o ridículo e inútil dos escritores que tentam voltar à cena, para salvá-la do fogo iminente. Vistos por aqueles que permanecem como espectadores, aqueles outros, os primeiros a correr para o palco a fim de avisar os demais atores e salvar a cena, tornam-se eles próprios parte de toda a cena, inebriados pela possibilidade que acham que têm de alertar os atores e de apagar o fogo; mas este, inexplicavelmente, continua aumentando a medida que o número de pessoas e de esforços para apagá-lo aumentam – parece até que o seu carvão é a carne humana.

Os escritores que se mantém fora da cena logo vêem que qualquer ato heróico que possam ter se reverte em mera farsa ou pura ingenuidade, ou em “mais lenha na fogueira”. O máximo de empenho produtivo que têm só consegue resultar em avisos para que os candidatos a heróis joguem-se inutilmente contra o fogo, no afã de detê-lo.

Se, ao contrário, preferem não agir e apenas continuar a escrever, o esforço que podem ter no máximo resulta em textos divertidos ou dramáticos que alegrem ou emocionem, ou apenas fazem passar o tempo dos cegos atores que, inebriados em seus dramas e comédias encenados, não vêem que logo um fogaréu estará a transformar tudo que vinham fazendo em nada.

Com estas conclusões, alguns escritores, não tendo o que mais fazer, percebem que, se continuarem a escrever, estarão apenas escrevendo por escrever, compulsivamente, ou por hábito, apenas para fazer do próprio ato de enxergar a cena pelo lado de fora algo que deixe a sua própria vida, enquanto ela perdurar, com algum sentido imediato, mesmo que este seja limitado ao próprio ato de observar a cena e escrever sobre ela – no máximo, às vezes, brincando de modificá-la, mas apenas em fantasia literária.

E tudo isso com a dor, não compartilhada com os atores, principalmente aqueles mais convictos de suas encenações, que sofre quem ao mesmo tempo enxerga tudo como se olhasse do lado de fora mas que ao mesmo tempo sabe que também faz parte da própria cena (mesmo que no ato de vê-la de fora).

O fogo, ao final, queimará a todos, ou queimará, aleatoriamente, a maioria, deixando escapar, ao acaso, apenas alguns atores, os de maior sorte ou de maior habilidade na hora de fugir e lutar pela sobrevivência.

Enquanto a peça segue para o seu desfecho final previsível e inevitável, ainda que ignorado por quase todos, a condição de escritor somente pode ser entendida, por quase todos, como uma aberração. Até para o próprio escritor assim ela lhe parece, já que, se não soubesse precocemente do fim previsível, poderia ter alguma alegria e leveza nos seus últimos instantes. Para que diabos alguém tem que perceber o que a maioria não percebe, e não quer perceber, à medida que lhe é mostrado o que há para ver? Se ao menos a condição de escritor libertasse quem escreve completamente da condição de ator! Mas não. A condição de escritor é sempre uma meia condição: não se desprende completamente da peça sendo encenada; também não lhe é possível tornar-se completamente alheio a sensações e necessidades de que os cegos atores são totalmente escravos. É preciso comer, é preciso vestir-se, é preciso aparentar ser como os demais (para não ser vitimizado como louco, ou como um estraga prazeres ou inimigo), é preciso saciar a necessidade de relacionar-se com outros atores, seja com o nome de amor, de amizade, de carinho, de brincadeira, de sexo, de conversas, ou de qualquer outro jeito; e é preciso, em suma, às vezes, continuar vivo e não abreviar o fim previsível de tudo – embora se saiba que os roteiros não são feitos por escritores, apesar de alguns receberem créditos.

Estranha condição esta, a de ter a necessidade de escrever sobre o que se vê ao imaginar-se do lado de fora das cenas do mundo em destruição. Principalmente em tempos de focos de incêndio cada vez mais visíveis e numerosos, mesmo que negados pela maioria a maior parte do tempo - para que não tenham que se escandalizar com a inutilidade do esforço que seriam impulsionados a fazer em seus dramas e prazeres diários caso soubessem. Até o escritor mais persistente no ato da escrita já vê e sente o calor do fogo a queimar o alto da página em que termina de escrever, antes mesmo de poder abandoná-la e passar para a folha seguinte.

Diante de tudo isso, eu, o escritor que escreve sobre o ato de se escrever em tempos em que a escrita é inútil e sofrida, só posso mesmo escrever mais rapidamente e sem pensar, ou deixar de ter produtos tão inflamáveis em minha mão. Contentar-me com a vida sem a escrita, entretanto, parece exigir-me neurônios a menos. Em outros tempos, já me embriaguei o suficiente para contentar-me, mesmo que por pouco tempo, com uma vida comum. E não deu certo. O pouco de cabeça que me restava sóbria me levava, ainda entorpecido, para reflexões sobre a vida inútil e como afastar-me dela, o que sempre me levava de volta à escrita.

Também já tentei alijar minha mente pensante afogando-me em trabalho pesado, mais de doze horas por dia, a fim de entorpecer-me no cansaço e nos prazeres compensatórios que o dinheiro resultante pode comprar. Ainda assim, desta forma, sobrava-me a angústia pela verdade, essa maldita honestidade que não sei de onde veio, a atormentar-me constantemente fazendo-me perguntar o porquê de tanto trabalho pesado e inútil por nada. Não tenho mais dúvida, o ideal do ser humano é a cegueira, a alienação e a idiotia, mesmo diante da morte iminente; ou mais ainda se diante desta.

Hoje, enquanto sobram-me algumas meias páginas de papéis não queimados, ou algum outro meio de escrita que não sejam papéis inflamáveis (como este meio virtual, onde nem mesmo existo), persisto escrevendo para praticamente ninguém, apenas por necessidade última, minha mesmo, de conciliar minha angústia pela verdade com as futilidades da vida que compartilho com os outros, para bem longe da escrita.

Este texto, no entanto, escrevo para a pessoa com quem tenho vivido, que amo apesar de toda a dor e sensação de inutilidade de todas estas cenas, inclusive desta na qual sinto e vivo um caso de amor.

Não me parece que eu e ela seremos efêmeros um para o outro. Mas só que, diferentemente dela, que é uma atriz mais acomodada com a trivialidade do mundo dos cegos, este escritor bastardo continua vivendo um inferno solitário apesar dos bons momentos ao seu lado.

O inferno real, onde chamas inexplicáveis surgem e destroem, sem diabos ou deuses que as abasteça ou as apague, não deixa de ser inferno por conta de bons momentos ou de algumas horas que me fazem esquecer completamente o quanto o fogo queima e queimará.

Não sei como alguém que ainda vive como real e promissora a sua vida comum pode dar ou aceitar o amor por um escritor que precisa, de modo masoquista, enfrentar reflexões realistas sobre a desgraça. O que ela irá fazer nos meus momentos de injúria, de tédio, de revolta, de angústia solitária, diante da qual ela não pode fazer nada, nem mesmo entender, muitas vezes nem mesmo tolerar, naqueles piores momentos em que a única coisa que me interessa é pensar e escrever solitariamente?

Espero ainda ter a leveza dos descompromissados, em alguma fortaleza de ricos. O fogo anda queimando mais no hemisfério sul.

24.12.07

Para que serve o Natal?

O Natal ainda tem suas utilidades e significados. O óbvio é o consumismo, o trabalho extra para a turba de desempregados, o pretexto para os funcionários públicos terem mais recessos e bonificações, e a desculpa para a cachaça, para a comilança, para o prazer desenfreado na futilidade das compras e para as conversas imbecis em longas rodas de bêbados.
Mas o Natal, no Brasil, como a Copa do Mundo, serve para se esconder a merda; para o Brasil tornar-se, por alguns dias, ainda mais invisível para os brasileiros.
Tanto na Copa quanto no Natal aquilo que mais causa dor à maioria dos brasileiros cessa, que é ter que trabalhar feito cão em empreguinhos sem sentido. Só de não trabalhar já é motivo para se sentir alegre e comemorar.
O Natal ainda é prelúdio do fim de um ano e começo de outro. Num país fodido em que nada muda, e quando muda é para pior, mudar de um ano para outro é o máximo de revolução que se consegue.
Na Copa do Mundo ainda é preciso que os jogadores, milionários e transformados em bon vivant europeus, se esforcem um pouco e vençam adversários. Só assim a cachaça e alegria podem continuar. No Natal, não. Basta entoar os bordões de costume, e beber, abraçar e festejar.
Festejar o que? Nada. Só festejar e ter prazer. Pronto, é Natal. Emendado ao Reveillon, então, é só um prolongado carnaval fora de época. Mas no carnaval tudo ainda é muito descarado, as festas são muito agitadas, voltada para os mais jovens, mais desesperados e mais bêbados poderem se pegar e se esfregar. Consequentemente, muita gente fica de fora: as senhorinhas, as vovozinhas, os caretinhas, os puritanos, os muito feios, os muito tímidos, os mais religiosos, os roqueiros, etc. Já o Natal é da família, é de todos. O Natal é o carnaval dos excluídos do carnaval; e ainda tem a expectativa, os joguinhos, os abracinhos, as viagens, as reuniões de família, o oba-oba dos shoppings, as luzes, o clima de festa na Rede Globo. A desgraça que reina no Brasil dá um tempo para os brasileiros; é afastada do cotidiano, dos noticiários de TV, e é possível relaxar um pouco – embora tenha que ser à custa de cerveja, muita cerveja.
Cristo? Que Cristo que nada. Alguns evangélicos estão tentando ressuscitá-lo, mas por enquanto o que manda é a festa pela festa, o passe-livre para a comilança, a bebedeira, o vício das compras nos shoppings - a farra sem culpa. É o momento do povo-bunda se sentir como um rico europeu gordo e bêbado se lambuzando em açúcar e pernil de porco, bebendo até virar o olho no seio da família. É quando a putaria não precisa ser na zona, pode ser na casa da mamãe ou do sogro.
Quantos Natais esse país ainda agüenta? Acho que muitos. Inversamente proporcional à desgraça dos brasileiros, o Natal e o Carnaval parecem ter um futuro promissor e vida longa, mais até do que a Copa do Mundo – onde o joguinho de jogadores milionários e apátridas vai se tornar cada vez mais enfadonho.
Um povo não afunda só em sofrimento; afunda em deleite, prazer e cegueira para o que lhe atinge. Um povo que festeja para socorrer-se da desgraça mostra já ter perdido a sua capacidade de reagir. Não é à toa que só alguns povos africanos continuam tão alegres quanto os brasileiros. Compartilham a alegria na desgraça. Comemoram a liberdade de se iludirem no caos. O que mais há para fazer? Nada. Viva o Natal!

A consciência de que o Natal é isso, nada mais que isso, no entanto, já desfaz a possibilidade de que o Natal funcione com este fim. Um Natal negativo, trágico, saboreado apenas como um ato a mais da desgraça geral, portanto, não tem como funcionar para a alienação da desgraça iminente. O Natal só é Natal se a maioria das pessoas o vivenciarem, em toda sua idiotice, no mais absoluto desconhecimento de sua real serventia. Desmascarar o Natal, ou denunciar sua função social, o inutilizaria, com a conseqüência de ameaçar antecipar um estado de horror insuportável diante da desgraça. É do humano preferir a ilusão à finitude e à morte.
A possibilidade de desnudar o Natal, portanto, só existe no campo da hipótese, não do que se torna prático. A prática justamente é o oposto, é o próprio Natal, avassalador em desmanchar qualquer crítica, qualquer reflexão, qualquer reação. Enquanto escrevo, em outra sala já me esperam o cigarro e a cerveja.
É Natal, e o Natal me cerca de todos os lados. No máximo conseguirei escapar da leitoa e dos sobrinhos cobrando presentes. Entorpecido pelo cigarro e pela cerveja vou ter que sorrir, abraçar e comemorar. Amigo secreto também é de doer. Não comprei presentes, mas não tenho dúvidas, alguém há de tê-lo feito por mim. Colocar-me-ão um presentinho em minhas mãos. Meu sorriso vai amarelar-se ainda mais; meus goles na cerveja se atropelarão. É Natal e eu vou ter que me conformar. Vou ter que me embriagar. Vou ter que comemorar.
Não conheço quem não o comemore; e se nesse dia mando todos à merda, nos outros, quando de alguém precisar, vou ser obrigado a ouvir o desdém. A falsa cristandade do Natal não perdoa quem lhes vira as costas e manda à merda. A mediocridade não perdoa a soberba e o desprezo. Os alienados não perdoam quem lhes evidencia a cegueira na desgraça. Felizmente sei disso há muito, e se escrevo como escrevo, com a dor e a revolta no sangue, não é para mudar nada, nem para que a razão ilumine os cegos; é apenas para manter minha própria razão enquanto cinicamente me lambuzo nos mesmos pratos de toda essa cornoália.
Sou um rato, um cínico, um covarde. Enquanto puder, trabalho para que a desgraça fique a meu favor. Não quero que ninguém pare de se lambuzar no Natal, nem de peidar, nem de arrotar, nem de se embriagar feito porco. Se me entristeço sobre o fim que leva esse país, tenho que me conformar de que apenas eu e muito poucos vamos estar cientes desse fato. A maioria vai seguir como manada em estouro, satisfeita por poder correr às cegas. Sou minoria esmagada, e se não quiser ser, terei que deixar-me correr com a manada. Ou cair fora dela, e vagar solitário – até cair sozinho.
Viva o Natal! Saio deste ato e dirijo-me a outro. Vou embriagar-me e esquecer deste texto - ao menos por horas. Para isso serve o Natal. Para isso serve esse texto. Posso enfim tratar das futilidades como se não o fossem. Tirem-me daqui!... Aumentem a TV e o som! Cheguei para não estragar a festa.

3.10.07

Juventude intelectualizada de classe média: genealogia dos polemistas por vocação

Ter muito contato com pessoas próximas da casa dos 20 anos é, neste início de século XXI, algo deveras sofrível.

No geral, são pessoas cuja mediocridade intelectual não terá salvação com o passar dos anos – o que faz, inclusive, com que o que descreverei aqui não se restrinja a um problema de idade. Não é, portanto, um problema relacionado a fases da vida, e sim algo ligado a como as novas gerações de brasileiros estão se tornando progressivamente mais imbecis.

Desde os anos 1960, no mundo ocidental, os jovens de classe média, principalmente aqueles que têm acesso à universidade, se acreditam com um poder especial diante do mundo. Teriam eles o poder de revolucionar tudo de acordo com suas vontades e opiniões; seriam mais espertos e inteligentes do que quaisquer outras pessoas; e teriam quase uma obrigação moral de confrontar tudo que existe, discordando de todos a fim de mostrarem que sabem mais e podem modificar o mundo.

Essa arrogância generalizada, misturada a onipotência, que durante a primeira metade do século XX ficara mais restrita às fantasias infantis, a partir dos “movimentos contra-culturais” europeus dos anos 1960 começou a ter possibilidade de existência também entre adultos.

A arrogância e onipotência humana terem ganho a vida adulta nas sociedades ocidentais modernosas, entretanto, não começou nesse período. A década de 1960 viu apenas surgir uma fase desse processo, e com determinadas características.

A vida social humana basear-se na arrogância e onipotência de indivíduos ou grupos de indivíduos é um processo que vem de longe em nossa trajetória cultural. A própria crença judaico-cristã, de que o homem tem uma relação especial com um Deus criador de tudo e “todo poderoso” já é uma baita viagem onipotente de nossa cultura. E como a base moral, política e de pensamento de nossas sociedades modernas ocidentais assenta-se no que restou da cristandade medieval, talvez tenhamos no cristianismo a nossa origem mais remota de crença grandiosa do ser humano em si mesmo. Mas esta não é a única origem de nossa prepotência.

Nossa crença em nossa própria capacidade de pensar e a partir de nosso próprio pensamento acreditar poder mudar o mundo, nasce no pensamento grego antigo, a partir da influencia deste sobre o pensamento católico medieval mais profundo e, principalmente, sobre a filosofia e ciência que predominaram no ocidente desde o renascimento europeu.

Os dois mito-pensadores que praticamente foram transformados em semi-deuses para o pensamento pós-renascentista foram os gregos Platão e Aristóteles, principalmente o primeiro.

Platão acreditava na possibilidade humana de auto-conhecer-se e dominar a si mesmo a partir deste conhecimento racional. Isto resultou, ainda nos escritos do próprio Platão, em uma crença na possibilidade de se criar toda uma vida social humana de acordo com planejamentos organizados pelo raciocínio lógico.

Não foi com Platão, entretanto, que esta crença na razão chegou ao seu ápice. Pelo contrário, a tentativa máxima de materialização desta fé racional só veio a se manifestar em sua máxima intensidade muitos séculos depois, com o comunismo marxista e as revoluções socialistas do século XX.

Se alguém quiser saber, com mais detalhes, qual a relação da onipotência filosófica de Platão com o comunismo pensado por Karl Marx vai ter que estudar isto por conta própria. Eu próprio já não tenho mais paciência para escrever sobre este tipo de explicação erudita. Para quem é muito neófito no que estamos tratando, talvez baste dar uma lida na “República” de Platão e em algum texto sério sobre o que seria uma sociedade socialista ou comunista na obra de Marx. Se não quiser perder tempo lendo besteira – existem algumas coisas mais interessantes ou mais realistas para se ler – basta que se leia resumos sobre estas duas obras. Depois de lê-las, se quiser entender como a onipotência intelectual de Platão influiu na onipotência intelectual de Marx (e, principalmente, na onipotência prática daqueles que nele acreditaram) basta ler sobre o pensamento de Descartes, de Saint-Simon e sobre o positivismo de Augusto Comte.

Como já escrevi em outros textos, da Grécia Antiga até a modernidade ocidental não houve continuidade histórica, cultural ou social, mas houve continuidade em relação à onipotência intelectual, quanto ao racionalismo. Essa continuidade não ocorreu propriamente no conteúdo de todas as idéias daquele período até o presente (embora tenha ocorrido em grande parte delas), mas principalmente se deu no sentido do poder que se atribuía ao ato de pensar de forma lógica sobre as coisas.

Antes de continuar, entretanto, vou fazer uma pequena advertência. Não se enganem comigo: acredito e exerço um pouco esta onipotência racional humana, mas apenas no tocante à sua capacidade de entender solitariamente algumas coisas da vida, jamais todas; e sabendo de antemão que é praticamente completa a impossibilidade de interferência das conclusões a que posso chegar sobre a realidade das coisas.

Ao contrário desta minha assumida impotência, contudo, o que mais me interessa neste presente texto é percebermos a onipotência que foi levada para o campo das idéias, já que vamos falar sobre como este processo resultou numa ridícula juventude brasileira que se pretende descolada, opiniática, controversa, polemista, irônica e que, de tão auto-centrada em si mesma, não consegue ter mínima noção da realidade que a cerca – realidade esta, no entanto, que vem quebrando grotescamente a onipotência ingênua da “intelectualidade” da classe média do país.

Antes de detalharmos um pouco como é esse tipo de juventude a que me refiro, precisamos entender também que uma outra forma de arrogância e onipotência auto-centrada se estabeleceu como força social na modernidade ocidental, a qual chegou até o presente vindo mais diretamente de uma estrutura cultural que teve muito maior continuidade histórica, cultural e social com a modernidade ocidental, que foi a cristandade européia medieval, como já dito.

Resumidamente, temos que os grandes onipotentes do auge desse período cristão eram aqueles que se acreditavam (ou faziam todos acreditarem) que tinham uma relação especial com o onipotente Deus judaico-cristão. Para que a estrutura social fosse submissa à existência verdadeiramente desprotegida do ser humano, os sacerdotes situavam a si próprios, dentro desta hierarquia social, como classe dirigente, com poder que seria emanado da concessão divina. Desse modo, os sacerdotes, por representarem a onipotência de Deus, eram diferentes dos demais mortais, os quais por isso se acreditavam e se portavam como submissos aos clérigos, já que eram submissos à onipotência divina.

O braço político desta onipotência medieval, desde a decadência do império romano, foi encarnado pelas nobrezas aristocráticas dos vários reinos, e depois dos estados nacionais que surgiram naquele período. A nobreza aristocrática, contudo, possuía um poder respeitado a medida que, atrelada aos sacerdotes cristãos, era tida como possuindo um poder divino que lhes era concedido pelos clérigos.

Para a plebe submissa à existência e, conseqüentemente, a Deus, aos clérigos e aos nobres, essa crença na onipotência de Deus e de alguns poucos humanos que seriam especiais funcionava bem, mantendo a hierarquia social, porém não de modo igualitário para todos. Para os clérigos e para os nobres esta crença funcionava apenas em parte: para a grande maioria da população, que não ocupava grande poder de comando social e político, seja em seus reinos ou nas instituições da igreja, a crença no fato de o poder divino se estender ao poder do alto clero e dos monarcas era praticamente total.

Já para aqueles clérigos e nobres que ocupavam grande poder de decisão e comando, a possibilidade de perceberem que não havia nenhuma real influencia ou concessão divina a lhes inspirar decisões e ações que iriam ser aceitas pela maioria como inspiradas por Deus lhes deixava um ceticismo pessoal que os tornava diferentes da grande maioria das populações. Os altos cleros e nobres tinham a possibilidade de saber, portanto, que comandavam os povos apenas diante da ignorância destes ao lhes obedecerem; ignorância, entretanto, que era bem vinda por ser fundamental para a manutenção da hierarquia social.

À medida que a onipotência daqueles que comandavam a sociedade (clérigos e nobres) se despregava de uma real submissão a Deus, se aproximando mais da possibilidade de exercerem toda a sua onipotência em relação aos crédulos súditos (mandando-os às cruzadas, às guerras, à navegação comercial pelo mundo e ao desenvolvimento de técnicas para a vitória em guerras ou para a exploração e conquista de lugares e povos distantes), os sujeitos que não eram nem clérigos nem nobres – e que obedeciam a ambos devido à crença nas inspirações divinas que ambos teriam – começaram a ser imbuídos do mesmo ceticismo onipotente que os patrões. Desacreditar de Deus significava perder o medo do desconhecido e tentar dominá-lo.

À medida que os comerciantes e técnicos, trabalhando para nobres e igreja, deixavam de ver Deus naqueles que os comandavam, também eles poderiam começar a perceber a si próprios como pessoas livres da interferência divina em suas decisões e ações. Lentamente aqueles que trabalhavam com o comércio e com o desenvolvimento de técnicas para fins variados (como médicos, engenheiros, artesãos, inventores, etc.) veriam a si próprios como capazes de subverter a autoridade pela qual tinham respeito até então. Quer dizer: sem a submissão à onipotência divina, logo perderam a submissão àqueles que até então acreditavam superiores por herança de poder espiritual. E estavam, portanto, livres para desrespeitar a ordem “natural” das coisas.

Do renascimento até as revoluções burguesas e independências de ex-colônias nos séculos XVIII e XIX, este deslocamento da onipotência atribuída a Deus e seus ministros para uma onipotência propriamente humana, mundana, laica, foi um processo gradual e inexorável. O resultado, facilmente perceptível, foram burgueses que se acreditaram grandiosos e onipotentes o suficiente para ficarem ricos sem culpa, conquistarem o mundo sem piedade (em termos de exploração mercantil e militar), e para continuar sonhando, em filosofias e ficções, com a conquista do universo, sempre com uma grande crença em sua capacidade de fazer o que sua vontade grandiosa julgasse o maior e melhor possível – o que resultou, em termos práticos, no avanço tecnológico radical da modernidade: a tecnologia tornou-se o amplificador do poder humano.

Os onipotentes modernos passaram a se ver felizes e realizados quanto mais poder e dinheiro tivessem; quanto mais conquistas e expansão alcançassem em todas as áreas. O que passou a ser chamado de capitalismo, e mais recentemente de “forças de mercado”, nada mais era do que a onipotência humana em sua forma de ações empresariais em busca de riqueza acima de qualquer outra coisa, acima de quaisquer outras regras ou autoridades morais.

Embora esta onipotência prática, política e social dos modernos tenha necessitado de outorgas intelectuais para se ver totalmente livre da visão de mundo monárquica e cristã medieval (praticamente todo o pensamento liberal e libertário pós- renascentista não deixou de cumprir esta função, de Espinosa a John Locke, de Maquiavel a Nietzsche), durante boa parte do tempo a outra linha de onipotência, a mais francamente intelectual, se ocupou em inventar, como fez Comte e Marx, formas racionais de conceber e colocar sobre controle esta onipotência prática dos burgueses, comerciantes, piratas, técnicos, profissionais liberais, industriários, etc. A igreja positivista de Augusto Comte nada mais foi do que isto. O Marxismo, a mesma coisa. E ambos de formas altamente grandiosas. Com menos grau de onipotência (às vezes) toda a sociologia e filosofia moral modernas não deixou de ter um pouco desta grandiosidade de pensamento, desde o racionalismo prático de Immanuel Kant até quase tudo que se fez em sociologia no século XX.

Mas como a onipotência intelectual nunca conseguiu deixar o campo da abstração pura (e quando deixava logo se via absorvida e modificada pelas forças da onipotência prática, burguesa), o que resultou, ao final do século XX e início do século XXI foi, principalmente, um polemismo de intelectualóides completamente dissociado de qualquer senso de realidade – já que a realidade, principalmente produzida pelas forças incontroláveis da onipotência prática, tornou-se um tanto quanto auto-destrutiva e contrária aos preceitos e valores que a onipotência intelectual moderna construiu como aqueles que seriam dignos de sua existência.

O humanismo igualitarista e idealizador da liberdade para todos é uma utopia da onipotência intelectual dos modernos, resíduo da moralidade cristã que os pensadores dos séculos XVIII e XIX transformaram em uma moralidade intelectualmente laica - e sem praticidade.

No século XX, à medida que a onipotência prática dos burgueses se difundia com todo o vigor, mostrando sua lentamente toda sua destrutividade (e gerando outras destrutividades como resposta, nas tentativas desesperadas de se colocar o capitalismo e seu poder destrutivo sob controle, como aconteceu com o nazismo e com as revoluções socialistas do leste europeu e da Ásia), também se tornava mais radical a onipotência intelectual ao tentar propagar e defender formas de sociedade e de vida que possibilitassem a não entrega conformada de todos à vida baseada nos “valores”da onipotência burguesa e seu imediatismo destrutivo. Existencialismos comunistas como o de Jean-Paul Sartre; utopias salvacionistas como a de Herbert Marcuse; revoluções da subjetividade moderna amortecida, como a de Michel Foucault; novas tentativas de retorno a um primitivismo utópico, como o de Gregory Bateson; tentativas e mais tentativas de reconstruir o comunismo e os anarquismos do século XIX; projetos e mais projetos de pensadores contra-culturais, como os de David Cooper e de Ronald Laing, que tentavam subverter todas as minorias (de loucos, de mulheres, de negros, de mendigos, etc.) contra as instituições do “sistema”; e incontáveis outros movimentos intelectuais que tentaram, a partir do pensamento, revolucionar e salvar o mundo para alguma nova forma de sociedade humana.

À medida que a onipotência prática mostrava sua destrutividade, a onipotência intelectual desesperada transformava o que antes era filosofia em “auto-ajuda” – tentativas de criar, pelo menos no campo simbólico, do pensamento, crenças laicas em algum novo mundo possível, em algum modelo de sociedade que não se auto-destruísse de dentro para fora. Esse espírito revolucionário adentrou a identidade da juventude de classe média intelectual dos anos 1960 e 1970 em quase todos os países ocidentais; e com todas essas doutrinas lhes dizendo que, ou se insurgiam para revolucionar tudo e construir outra forma de vida humana, ou tudo estaria perdido, com o futuro sendo caos e destruição. Mas como, de fato, estes jovens intelectuais utópicos tinham apenas o poder da palavra e do convencimento (já que suas utopias vinham do campo intelectual, e não da onipotência prática, a qual seguia seu curso incontrolável, com o capitalismo se radicalizando), o revolucionismo intelectual, a fim de garantir vida material aos seus pregadores, migrou para onde fosse possível: para as escolas, para as universidades, para o cinema (como aconteceu com o Cinema Novo no Brasil), para a literatura, para as agências de publicidade, para a auto-ajuda propriamente dita (que se tornou febre a partir dos anos 1980), para a televisão, e para todos os espaços e funções onde a onipotência prática necessitasse de trabalho intelectual.

Não houve nenhum poder centralizado real nesta difusão das utopias intelectuais da segunda metade do século XX, como alguns gostam de crer (vide o texto “Brasil Apocalíptico Parte 2”). Apenas todas as ciências humanas e sociais da segunda metade do século XX foram tomadas por tentativas intelectuais de revolucionar e reconstruir o mundo à medida que, ao analisarem o que era o “capitalismo” e sua força crescente, globalizante e incontrolável, tentaram arregimentar seguidores para assim imaginarem que ainda havia possibilidade de o futuro (ou mesmo o presente) não ser o horror que se apresentava. Em grande parte, isso funcionou. A intelectualidade desse período (anos 1960 e 1970), bem como as gerações seguintes, por ela influenciada, salvaram-se de se deparar com a inexorabilidade da destruição globalizada gerada pelo ser humano moderno. Até em países como o Brasil a juventude de classe média salvou-se de enxergar o óbvio: o país do futuro não tinha nenhum futuro que fosse razoavelmente promissor.

O resultado prático dessa difusão de utopias intelectualóides que pregavam revolucionismos salvacionistas foi a constituição de gerações de jovens que, acreditando no poder da palavra e de suas vontades pessoais para mudar todas as coisas, passaram a exercer, quase como obrigação, argumentações retóricas a fim de promoverem debates em que pudessem se mostrar discordantes de tudo que parecesse “integrante do sistema”.

Com o passar dos anos, a partir da década de 1960, as concepções de porquê as pessoas deveriam ser “contra o sistema” se esmaeceram, já que uma época de maior conformismo intelectual veio em seqüência – e a maioria dos jovens se transformou em debochados que tentam mostrar inteligência ao serem irônicos. Porém a moralidade ao estilo “vou discordar mesmo sem saber porque” continuou dando poder de identidade a quem começasse a ansiar por carreiras intelectuais.

Nas universidades brasileiras, onde quase todo debate sobre qualquer coisa é ralo, o que prevaleceu como um automatismo entre os estudantes de terceiro grau foi este estilo de ser: causar polêmica, opinar mesmo sem ter qualquer conhecimento de causa, discordar, ser crítico a quem parecer pertencer ao “establishment”. Sendo assim, discordar gratuitamente e opinar ironicamente continuou dando status de sábio ao estudante, como alguém provocador e perspicaz.

Em mestrados e doutorados, entretanto, os estudantes rapidamente aprendem a se tornar cordeiros mansos, bem como a puxar o saco de professores para conseguirem ”um lugar ao sol” (como discutido nos três textos sobre o “Academicismo Brasileiro”). Antes de chegar até o mestrado e doutorado, entretanto, e se ver obrigado a “dobrar-se” diante da farsa intelectual dominante - ou mesmo lá nunca chegando, já que a maioria das pessoas com curso superior não fazem pós-graduação -, os universitários adquirem como algo inerente à necessidade de parecem sábios a habilidade de ser polemista por vocação, discordando de tudo sobre o que possam opinar apenas com a finalidade de parecerem o que não são: se há algum lugar em que toda intelectualidade é uma farsa este país é o Brasil. As exceções, se é que existiram, já se mataram, desistiram ou foram embora. O que resta é pose.

Essa discordância indiscriminada, no entanto, é mais típica daqueles estudantes universitários com pretensão a posarem de intelectuais das áreas humanas ou sociais. Os outros estudantes, das outras áreas, freqüentemente costumam acreditar que, como profissionais, vão tornar-se pessoas que dominarão verdadeiras “técnicas modernas” de produzir algo ou interferir na vida humana. Tornar-se-ão, ou acreditar-se-ão tornando, verdadeiros técnicos para construir pontes, para salvar vidas e curar doenças, para advogar, para produzir medicamentos, para plantar alimentos, etc. Desse modo, estes estudantes que se acreditam adentrando profissões puramente “técnicas” costumam se ver menos na obrigação de discordar ou levantar polêmica apenas afim de se mostrarem sábios. Ao contrário, se vêem muito mais na obrigação de memorizar acriticamente tudo que lhes ensinam, por considerarem que desse modo se tornarão pessoas que dominarão técnicas com as quais ganharão dinheiro.

A discordância polemista nas áreas sociais e humanas, e naqueles meios mais influenciados por estas áreas, entretanto, tornou-se, nos anos 1980 e 1990, uma discordância exercida quase como um “tique nervoso”, no automático, sem conteúdo e sem referência concreta à realidade, mesmo à realidade imponderável da destrutividade das forças práticas que continuam a mover (e destruir) o mundo atual.

Em países como o Brasil, em que o racionalismo se mantém apenas como uma cópia superficializada (dos rótulos, dos títulos, do prestígio e do ato de publicar livros e trabalhos em série) daquilo que já foi o racionalismo em países como Inglaterra, França ou Alemanha, o ato de discordar argumentativamente não costuma ter consistência nem mesmo no nível retórico, menos ainda costuma estabelecer alguma relação de verdade com a realidade, seja do país ou do mundo.

Muito além destes polemistas por profissão universitária, a discordância como “tique nervoso”, vazia, costuma dar o tom de quase todo debate sempre que se tenta discutir qualquer coisa sobre algum problema real do Brasil, principalmente à medida que a situação, em todos os níveis e áreas, piora a passos largos. Praticamente todo jovem de classe média termina por ser quase um estudante em tempo integral durante as três primeiras décadas de sua vida, quando tem sua identidade como pessoa formada. Freqüentemente, seja no primeiro e segundo grau, ou depois, na faculdade, a visão de mundo deste estudante em tempo integral, principalmente se ele for CDF (ou “nerd”), se dá pelo contato com professores e ensinamentos provenientes das áreas humanistas e sociais do saber racional moderno - incluindo aí psicologias, ciências sociais, antropologias, filosofias, etc. -, bem como também pelo contato com as áreas do saber que se pretendem mais técnicas, como física, química, matemática, biologia, etc. Sua identidade como pessoa fica limitada a pender para o polemismo vazio ou para a memorização acrítica de técnicas ou pseudotécnicas – caso ele não vá tornar-se mais um playboy que raciocina pouco mais que o suficiente para conseguir comprar sua própria cerveja.

Nesta formação intelectual da identidade do estudante menos imbecil, a partir de um estudo sistematicamente moldado pelos saberes que seus professores reproduzem de maneira acrítica, mesmo que fragmentadamente, duas situações se constituem. A primeira delas é a de que esse estudante passa a ter sua visão de mundo organizada pelas áreas do saber mais influenciadas pela onipotência intelectual dos modernos, o que o levará, inevitavelmente, quando chegar na universidade, a tornar-se mais polemista vazio. A segunda situação é a de que esse estudante será formado principalmente tornando-se uma pessoa que memoriza alienadamente, de modo não pensado, conteúdos das áreas do saber que se propõem a fundamentar técnicas de produção para a sociedade de consumo em massa; memorização de técnicas que deixa para o estudante a sensação de que ele vai adentrar, como um especialista técnico de nível superior, as funções que são necessárias para fazer as engrenagens da onipotência burguesa moderna (as instituições do “sistema”) prosseguirem seu curso de dominação de tudo. Médicos, engenheiros e enfermeiros se enquadram aí. Advogados, apenas parcialmente, já que são especialistas nas macro-burocracias que enredam a vida civil nos estados modernos.

No Brasil, este último tipo de estudante, de profissional, que, ao tornar-se técnico, adentra mais cedo e acriticamente as engrenagens da onipotência prática, desejarão trabalhar para empresas de telefonia, para bancos privados ou públicos, para planos de saúde, para o governo (que no Brasil é mero refém da onipotência do capital, seja em sua forma arcaica, sob o jugo dos coronéis, ou seja em sua forma “pós-moderna”, sob o jugo do “mercado liberal” e de seus ideólogos contratados).

Críticos a estas profissões acríticas e conformadas, aqueles estudantes que se tornarem mais influenciados pelas crenças da onipotência intelectual, em sua versão polemista e constituída de utopias fragmentadas, tenderão a adentrar (num ciclo que se fecha) a carreira acadêmica nas universidades, a militância “humanista” em ONGs e em partidos políticos “de esquerda” (como fora o PT) e governos que se promovem através da defesa de utopias intelectuais voltadas para minorias mais desalojadas das benesses imediatistas produzidas pelo “sistema” (minorias que, no Brasil, são maioria o que explica ó fato que defender “minorias” no Brasil é algo possível até de eleger um presidente da república).

Todas estas opções de vida para o intelectual, no entanto, que pode se beneficiar do polemismo irrestrito como forma de promoção pessoal, terminam com o sujeito tendo que se conformar, mesmo que um pouco mais tardiamente, com o fato de vir a ser mais um integrante cínico ou ingênuo do “famigerado sistema”; sendo obrigado a fingir que não o vê ou que, com o amadurecimento, deixou de ser o jovem “revolucionário”ingênuo que fora enquanto estudante.

As conseqüências sociais dessa onipotência intelectual, em sua forma de polemismo como fim em si mesmo, são muito fáceis de serem percebidas no Brasil. Em qualquer lugar que se vá onde sejam discutidos quaisquer problemas brasileiros – sejam programas de televisão, reuniões de governo, partidos políticos, ONGs; ou sejam em debates, congressos ou aulas acadêmicas – três tipos de pessoas são as predominantes, senão as únicas, a dominar o debate. O primeiro grupo vem a ser daquelas pessoas que organizam burocraticamente os encontros “intelectuais” – formam no Brasil uma verdadeira casta social, a fazer projetos, vernissages, festivais de cinema, exposições, tomando conta dos “centros culturais”chapa-branca. É o grupo das pessoas que se profissionalizaram, mesmo que informalmente, em promover debates de problemas, independentemente de quais resultados concretos possam sair dos tais debates – geralmente apenas dinheiro para o promoter ou curador. Um segundo grupo vem a ser o de pessoas que discutem com paixão e prazer o que estiver em pauta, sempre polemizando tudo que conseguem. Geralmente, ao final de cada polêmica em que conseguem dar suas opiniões, costumam abrir um grande sorriso de satisfação, como ao dizer “está vendo como sou esperto, arguto e crítico!?”. Já o terceiro grupo, quase sempre majoritário, vem a ser o de pessoas que apenas tomam partido de um outro polemista mais falante, aplaudindo ou vaiando como uma torcida apaixonada e arrivista; ou então ficando calado, entediado, distraído, presente na reunião por obrigação, e apenas se manifestando diante das falas mais eloqüentes, vibrantes – o brasileiro não consegue prestar atenção em falas normais, apenas nos gritos e nas “frases de efeito”.

Por trás destas cenas mais visíveis, nos bastidores das administrações públicas (no meio dos grupos políticos que tomam os cargos de governo a cada quatro anos) e nas veiculações publicitário-midiáticas dos governos e das grandes empresas de mídia que se sentem na obrigação de ter um aparente papel social quanto aos problemas do país, uma outra conseqüência da difusão da onipotência intelectual moderna se faz presente por meio de um determinado estilo de relação entre formadores de opinião (a mídia e a publicidade, incluindo aí os ideólogos e marqueteiros que para ela trabalham) e a população em geral.

Nas últimas décadas do século XXI a difusão da onipotência intelectual moderna (com sua crença de que, se desejar e souber pensar, o ser humano é senhor de si e do mundo em que vive) se estabeleceu para além dos guetos intelectuais. Através dos meios de comunicação de massa, os quais simplificam e difundem o pensamento dos ideólogos do humanismo onipotente ou da picaretagem mercantil disfarçada de pensamentos propositivos e evolucionistas (como no caso do neoliberalismo), a manada foi temporariamente dominada. Ao difundir-se por esses meios, a onipotência intelectual moderna ganhou características de onipotência individualizada, ao estilo “eu, um sujeito comum, posso salvar o mundo!” - o que tornou-se bem visível nos filmes e séries norte-americanos populares produzidos nos anos 1990 e 2000.

No Brasil, esse modo de levar a onipotência intelectualizada para o “povão” se deu de forma ainda mais individualizada e despolitizada. Na eleição para Presidente da República ocorrida no ano de 2006, por exemplo, a campanha publicitária oficial do governo Lula do PT em relação à própria eleição (e não em relação a sua candidatura) ocorreu com os seguintes dizeres: “Pense e vote! O Brasil é tão bom quanto o seu voto. O Brasil está nas suas mãos!” A crença onipotente dos sujeitos foi transferida para um gesto individual que no Brasil desse período nada significava, que era o ato de votar. Motivos para essa insignificância do voto, se é que alguém ainda estranha isso, apresentei em vários outros textos, mais diretamente nos textos “FHC e a ingovernabilidade do Brasil”, “O circo da democracia brasileira” e “voto nulo ou voto consciente? Como os ingênuos ainda se esforçam para acreditar no futuro”.

Em todos os ambientes da vida brasileira, qualquer discussão sobre problemas do país e sobre o futuro desta “quase-nação” está fadado ao vazio, ao debate permeado por falsas polêmicas, com opiniões sem pé na realidade, marcadas por vaidades e preciosismos pessoais, ou por disputas imediatistas por cargos ou pequenos poderes. Mesmo uma eleição não foge a esta regra. O Brasil acabou. É uma questão de tempo para que o caos, junto com tentativas messiânicas e desvairadas de pôr ordem na casa, tome conta de tudo. Mas isto já é assunto velho...

Enquanto o previsível ainda se afigura como distante, podemos assistir (e não só no Brasil) os ingênuos intelectualóides onipotentes acreditando que, com suas boas ações pessoais, poderão salvar o planeta do “aquecimento global”, da explosão demográfica da pobreza, da fome, do consumismo e hedonismo desenfreados, da AIDS, do auto-extermínio, do tráfico de drogas e do que mais pareça estar ameaçando o fim de alguns milênios de delírio de onipotência, de humanismo ilusório.

Aliás, quando, logo atrás, falei que eram três os tipos de pessoas que se encontram em quaisquer discussões sobre os problemas do Brasil, me equivoquei. Aos três citados acrescente-se mais dois: os ingênuos, que acreditam que, com a generalização de atitudes pessoais positivas, seja possível mudar o país e a humanidade; e os pensadores mais realistas. Mas estes, por estarem tornando-se trágicos e niilistas justamente por perceberem a realidade, estão deixando gradualmente de freqüentar em público este tipo de debate. Antes o recolhimento do que o palavreado inútil.

Tropa de Elite: Quem vai assumir o comando da guerra?

A comoção gerada pelo filme “BOPE: Tropa de Elite” que, mesmo antes de seu lançamento nos cinemas, foi assistido por alguns milhares ou milhões de brasileiros de classe média (quase todos assistindo com cópias piratas vendidas nas ruas, o que por si só já é um bom indício de como anda a criminalidade no Brasil, entranhada na vida de quase todos), nos mostra um fenômeno de transição no Brasil: de uma fase esquerdista-populista (como forma de explicar o caos) para uma fase que provavelmente levará o país para seu próximo governo “linha-dura”.

O filme em si segue um padrão novo no cinema brasileiro: é um filme policial, de aventura, ao estilo do “cinemão” de Hollywood: feito para que as massas; para que elas, enquanto se divertem, sejam catequizadas com uma determinada visão das coisas, a visão de que a vida é uma luta para se conseguir objetivos imediatos. Nos EUA isso serve tanto como valor moral para a vida privada quanto para nortear a vida política e social de um país, bem como a relação do país com o resto do mundo.

Nesse sentido ideológico, o filme “Tropa de Elite” também segue um modo de pensar bem mais comum nos Estados Unidos do que no Brasil.

Os EUA são um país onde grande parte da população aceita o fato de que uma certa civilidade e ordem pública somente podem ser mantidas às custas de repressão policial, pena de morte, muito sangue e muita porrada; principalmente contra os pobres e marginalizados em geral, os quais, não conseguindo alcançar uma vida burguesa por meios “politicamente corretos”, tentam usar o crime como ponte para conseguir poder e dinheiro.

Nos EUA o pobre tem o direito de cumprir a lei. Além disso, se for muito habilidoso para descumprir a lei sem ser pego, ou se tiver disposição de trabalhar feito cão para os ricos, ou ainda se possuir alguma habilidade especial, pode até deixar de ser pobre. Fora isso, o cacete come com facilidade. E com apoio da justiça e consentimento, mesmo que nem sempre declarado, da maior parte da sociedade. Uma preocupação “social” com o pobre, como se diz no Brasil, só existe de forma minoritária e sem muita expressão política – ou com expressão apenas “para inglês ver” (ou, mais adequadamente, “para francês ver”).

O filme “Tropa de Elite” tem um protagonista-narrador da história que vê o mundo sob essa ótica, da vida como uma luta para conter o caos auto-destrutivo e a ignorância da sociedade, e ainda tentar ser individualmente feliz.

Não há no filme uma preocupação social-solidária com a pobreza. O lado mau da pobreza, independentemente de qual possa ser a origem “sociológica” ou “histórica” desse mal, deve ser eliminado, morto; e o lado bom, caso não se suje ajudando ou sustentando o lado mau, pode ter permissão para continuar vivendo e sendo pobre.

No filme, traficante de droga é inimigo de guerra; e numa guerra ao estilo antigo: quem estiver do outro lado do front deve ser morto, não ser preso – a não ser se for para ficar sob tortura até delatar mais algum colega.

Advogado de classe média, no filme, que fica estudando Michel Foucault, idealizando os excluídos e condenando as formas sociais de poder e repressão na modernidade, é tratado como um idiota afeminado – no sentido de alguém que adere a uma moralidade cristã humanista que o torna covarde para a luta; e que o faz por meio de ONGs para ficar bem com sua própria consciência cristã culpada.

No filme, o Brasil é um país em guerra com sua própria barbárie interna, contra traficantes bem armados com armas suíças contrabandiadas e que conseguem dinheiro vendendo a luxúria das drogas para estudantezinhos imbecis da Zona Sul, para se divertirem em suas baladas “cheiradas”; e ainda poderem posar, vez ou outra, de pacifistas e de intelectuais com capacidade de crítica sobre a situação social do país.

Mas o caos vai muito além de uma territorialidade restrita à favela e à pobreza. Quase ninguém, do lado rico e “ordeiro” da sociedade, quer assumir a guerra como sua. A maioria dos policiais preferem negociar com os bandidos a lutar contra eles – já que nenhum policial anda muito afim de se matar para proteger a vida de “playboys”. Os comandos das polícias preferem fazer vista grossa ou também lucrar, indiretamente, com o crime organizado. Os políticos preferem não se meter, ou se meter apenas quando é para “tapar o sol com a peneira”. No filme, a ordem tática do que a polícia deve fazer contra a bandidagem só vem “de cima”, de políticos, quando o que se quer é apaziguar temporariamente uma favela durante a visita do Papa; quando, então, muita gente morre para que o Papa não corra o risco de ser acordado à noite com barulhos de tiro. Ao mandar matar mais um, o policial grita: “Põe na conta do Papa!” (Será que tem cinema no Vaticano?).

Fora demandas pontuais, e inúteis (como esta da visita do Papa, ou a dos Jogos Panamericanos de 2007 – que não aparece no filme), a guerra da parte ordeira da sociedade contra o caos não é assumida por ninguém. Não há comando geral, nem metas nem objetivos. O BOPE, a tropa de elite, que só existe para esta guerra (e que no filme é idolatrado ao estilo da idealização que filmes americanos patrióticos fazem de policiais honestos e de soldados heróicos), age isoladamente contra tudo e contra todos para matar traficante e apreender armas.

O BOPE age contra bandidos, mas também contra todo o resto da sociedade. Seus “heróis” têm que lutar contra advogados “humanistas” e picaretas, contra ONGs de classe média, contra movimentos sociais ingênuos ou demagogos que só querem saber de vitimizar o bandido e, principalmente, contra a corrupção/conivência de todo o restante da sociedade com o crime que se alastra como um câncer.

É um filme definitivamente pós-petista, e nisso ele é realmente um marco. Tanto um marco para o cinema brasileiro, que começa a ter uma referencia bem sucedida de que é possível filmar o “mundo-cão” sem o viés esquerdista. E um marco de como vai ficar a sociedade brasileira com o fim das ilusões humanistas que o PT ajudou a sepultar.

Deve ter sido muito difícil para os produtores de “Tropa de Elite” arrancar dinheiro do Ministério da Cultura do Gilberto Gil e do PT. Não há no filme a apologia das minorias, nem a visão “socializada” de pobreza e do crime. Também não há nenhuma compaixão cristã com os pobres que se tornam bandidos. Ou seja: tudo aquilo que fez o PT atrair tantos militantes bem intencionados nas décadas de 1980 e 1990 desapareceu da ideologia que sustenta o filme. E as platéias estão gostando disso.

Mais até do que pós-petista, “Tropa de Elite” é um filme anti-visão petista de mundo.

Desde que o PT mostrou que suas fachadas “éticas” e propositivas sobre real mudança social existiam principalmente para atrair eleitores ingênuos e cabos eleitorais que trabalhassem de graça – enquanto nos bastidores alguns poucos lideres petistas faziam de tudo (literalmente falando) para construir um poder verdadeiro para tentar governar o país –, passou a haver uma crescente demanda de muitos brasileiros por endurecimento com o crime, com a corrupção, com a malandragem e com a pobreza que perdeu o respeito por qualquer forma de autoridade. Muitos brasileiros, talvez os que logo irão formar a opinião da massa, estão querendo “comando”, “força”, “autoridade”... Estão querendo ver algum poder sendo exercido de fato, com firmeza e sem piedade. E estão começando a ficar dispostos a dar carta branca para quem tiver peito (e loucura) de assumir o comando dessa guerra.

O filme “Tropa de Elite” e sua espantosa popularização vêm a ser a primeira manifestação pública de massa dos últimos 20 anos (pós-ditadura) que reflete este pensamento que clama por autoridade para conter o caos nacional.

Vozes – certamente ainda isoladas – conseguiram construir o filme e arranjar dinheiro para lançá-lo, mesmo que a duras penas e, provavelmente, indo contra as dificuldades que o Ministério da Cultura deve ter colocado para seu financiamento. O filme, por exemplo, não foi o escolhido como candidato brasileiro ao Oscar; isso, pelo menos, o governo petista conseguiu evitar. Colocou em seu lugar mais uma insossa farsa idealizando os “esquerdistas” que lutaram contra a ditadura – deve ter mais gente querendo ganhar indenizações do Estado.

Com esse ardor, é possível que, ainda bem longe das opiniões públicas e publicáveis, forças profundas da política e do poder militar brasileiros já estejam se organizando para emergir e subverter a atual ordem das coisas – a qual, por enquanto, ainda é a do caos salvaguardado por humanistas utópicos, por ex-esquerdistas picaretas e pela adesão silenciosa de quase todos ao ilícito.

Espero, contudo, que durante um bom tempo esse filme continue sendo apenas um marco do cinema brasileiro, e só do cinema; ou ainda um marco de “quando a pirataria esvaziou os cinemas”, e passe longe de se tornar um marco político desse novo Brasil que se afigura. Nosso país não é como os Estados Unidos. Aqui, tentativas de corrigir o caos pela força costumam apressá-lo.

E boa sessão de DVD pirata a todos os moralistas!

17.9.07

Academicismo em geral, Parte I: Como as especializações do saber protegem a humanidade da decadência moderna.

Para quem não sabe, ou continua fazendo esforço para não saber, a decadência moderna é o colapso das sociedades atuais, das sociedades com pretensão a uma globalização civilizada, tecnológica e humanisticamente desenvolvida, rica (materialmente) e igualitarista. É o colapso que se dá à medida que os recursos naturais do planeta, dos quais esta humanidade é dependente, são destruídos. É o colapso que se dá à medida que a concentração de renda em alguns nichos humanos e corporativos de prosperidade material deixam a maioria desta humanidade vivendo de modo imediatista e suicida, numa luta mesquinha pela sobrevivência; e enquanto toda esta destruição torna-se perceptível a um número maior de pessoas, simultaneamente descobre-se que estas forças destruidoras atuais, todas humanas, são elementos fora de controle, e que boas intenções ecológicas, ideológicas, humanistas, racionalistas, governamentais, militantes de ONGs e de partidos políticos nada podem fazer a não ser pregar utopias e demagogias, quando muito.

Mas enquanto a destruição global acelerou-se à medida que o ser humano avançava seu domínio sobre tecnologias (desde o domínio do fogo e confecção de lanças até a revolução industrial do século XVIII), gerando o ápice de destruição humana que é a globalização de um certo modelo de humanidade do fim do século XX e início do século XXI, o saber racionalista tratou de ficar cego para a realidade antes que pudesse enxergar o suficiente durante o século XX e gerar um grande desespero acerca do futuro (ou melhor, acerca da ausência de futuro.

A par uma racionalidade técnica, mais empírica, prática, do que analítica (esta última que já fora, até certo ponto, capaz de tirar conclusões sobre o destino das sociedades), a capacidade humana de perceber a realidade de seu mundo minguou justamente ao longo do século (o XX) em que a racionalidade técnica produtora de bombas, de antibióticos, de vacinas (estes dois últimos os principais responsáveis pelas explosões demográficas do século XX) e de passa-tempos tecnológicos de massa (como televisão, cinema, música, entre outros, capazes de manter as populações relativamente tranqüilas, ordenadas e contidas), tornou-se o cerne da vida cotidiana de quase todas as pessoas - para as gerações que antecedem o colapso de tudo isso.

Antes dos entretenimentos tecnológicos predominarem como aquilo que determina o pensamento de quase todos, a racionalidade analítica teve que passar, no século XX, por algumas décadas de lento desmoronamento de sua possibilidade de construir e divulgar popularmente conceitos mais realistas sobre a vida, até chegar ao estado de morte em que vimos nos textos sobre o academicismo brasileiro. Não sei exatamente (por não ser mesmo possível saber, imagino) como se procedeu esta morte da racionalidade analítica moderna, porém tenho algumas suspeitas.

A primeira delas (a primeira que me surge à mente e não a primeira em ordem cronológica) é a agonia da filosofia, o pensamento racionalista ocidental mais profundo, como ele se processava até o século XIX.

O filósofo Arthur Schopenhauer já protestava solitariamente, na primeira metade do século XIX, sobre o fato de que a filosofia havia se tornado, já naquela época, um ato de populismo intelectual, de pensadores vaidosos querendo brilhar em suas aulas alunos embasbacados e junto a seguidores predispostos a afirmá-los como “gênios”. Também neste período Schopenhauer já afirmava que a filosofia havia se tornado um bom “cabide de emprego” estatal para professorzinhos e, ao mesmo tempo, um espaço de produção de ilusões para usufruto dos governantes de momento – coisa que os governos do final do século XX em diante não mais precisaram fazer, já que o marketing tecnológico de massa (via TV, principalmente) mostrou-se mais eficaz para razoável manipulação das populações. Embora a filosofia nunca tenha sido algo muito diferente disto (desde quando existiu, e nas sociedades em que chegou a ter alguma importância), até o século XIX ela conseguia gerar algumas percepções realistas sobre o mundo, fosse nos raros momentos de apego à verdade entre os filósofos cooptados, vaidosos e rendidos, ou fosse por meio de filósofos mais ligados à busca de verdade do que de sobrevivência pessoal confortável.

Até o século XIX, consequentemente, muitos filósofos conseguiam pensar a totalidade das coisas, sem deturpá-las em demasia em prol de alguma grande ilusão totalizadora. Contudo, antes mesmo que a possibilidade destes filósofos se esgotasse, um outro processo (que talvez já fosse parte do primeiro) vinha colocando fim à busca racionalista de saber a verdade sobre tudo que fosse possível. Este outro processo era a especialização do saber, ou da própria filosofia, ou do próprio ato de pensar racionalmente, pesquisando a realidade.

A maioria das pessoas atuais, de final de século XX e início de século XXI, parece se contentar em enxergar estas especializações modernas do saber racional como algo que resulta em avanço do próprio saber humano; ou, se lastimam este fato, o justificam diante do conhecimento racionalista ter se tornado grande demais, no século XX, para que uma única pessoa pudesse sinteticamente, em vista de as ciências modernas e suas técnicas de alcançar conhecimento terem ultrapassado a capacidade da mente humana em sintetizar conceitos e agir com objetividade. O que vou escrever daqui em diante, entretanto, contradiz um tanto quanto estas simplificações explicativas que a meu ver estão a serviço apenas de gerar conforto para uma humanidade decadente, gerando a manutenção das ilusões modernas dos morrentes atuais a seu próprio respeito.

Para facilitar a compreensão daquelas pessoas mais empedernidas em suas ilusões, vou começar contando uma pequena história pessoal – só assim talvez seja possível atrair a atenção de mentes dispersas demais para conseguir pensar com coerência por mais que 20 ou 30 minutos.

Por falta de outra coisa a fazer com minha necessidade de pensar, por desconhecimento de que a morte do academicismo era total, e pela necessidade de ter um diploma que me tornasse mais adequado a alguns concursos públicos, no ano de 2002 fui fazer um doutorado em um departamento de saúde pública de uma famosa universidade no Estado de São Paulo. Já sabedor de que as disciplinas da área da saúde são baseadas totalmente em retóricas e receitas de bolo - para manter os médicos como serviçais acríticos de técnicas para prolongar a vida de pacientes ou para minimizar-lhes a dor e possíveis perdas funcionais de seu corpo, além de serviçais de mentiras que a população gosta de ouvir para acreditar que está conseguindo prolongar suas vidas ou para acreditar que está conseguindo algo mais para suas competitividade pessoais - tentei fazer disciplinas de pós-graduação que fossem menos inúteis do que ouvir o de sempre na área da saúde. Vi-me, assim, num determinado semestre daquele ano, simultaneamente fazendo uma aula de antropologia da saúde (na faculdade de ciências sociais) e uma outra disciplina de bioética, na própria faculdade de medicina. Comecei a perceber que, em ambos os grupos, o de cientistas sociais, de um lado, e o de médicos e outros profissionais da saúde, de outro, alguns temas em comum surgiam para o debate geral. Logo constatei que os profissionais da saúde tinham a capacidade de relatar experiências (as quais viviam nos seus cotidianos) que, com um pouco de análise sociológica e antropológica a costurar aqueles relatos dispersos, serviam muito bem para dar conta de explicar no que se transformou a área da saúde numa sociedade como a brasileira. Contudo, os profissionais da área da saúde, que apenas relatavam suas vivências pessoais no trabalho, não conseguiam fazer tal análise do que relatavam como fatos que viviam no dia-a-dia. E, quando alguém tentava fazer alguma análise daqueles relatos e fechar algumas conclusões, geralmente eu próprio ou algum raro outro colega que se propusesse, os demais profissionais da saúde ali reunidos não aceitavam a priori, ou mesmo nem ouviam, as conclusões que alguma generalização antropológica ou filosófica permitiam que se fizesse. Quase sempre ficava bem claro que discordavam por serem tais conclusões doloridas demais, chocantes demais, ou pessimistas demais.

Era impossível concluir que o médico, a serviço da técnica e da ilusão popular sobre o saber e tecnologia médicos, ao manter, por exemplo, um “morto vivo” em uma UTI, precisa se tornar um sujeito com capacidade total de se dividir em dois ou três papéis a fim de que não enlouquecesse, não se matasse, não se drogasse demais, não se torne um sociopata, um sujeito frio e que despreza o valor da vida humana, ou mais um candidato a abandonar a profissão. Mais especificamente, o médico precisava se dividir entre os seguintes papéis:

1 – aquele que mente explicitamente para a população, para que esta continue a vê-lo de modo idealizado e não desconfie de que a sua ilusão acerca do saber moderno e suas especializações não tem fundamento real;

2 – aquele que se anula como pessoa para conseguir trabalhar 100 horas por semana apenas para fazerem máquinas funcionarem, drogas agirem sobre o organismo dos pacientes ou executarem cirurgias puramente mecânicas sobre o organismo individual das pessoas; e ainda tendo que mentir sobre a relevância destes atos, já que a maioria das vezes as drogas, exames e outras interpretações médicas são feitos apenas para satisfazer as ilusões populares sobre a medicina, e ao mesmo tempo gerar maior lucro para a indústria da saúde, incluindo os próprios médicos trabalhando;

3 – e aquele que tem que conseguir, pelo menos algumas horas por dia, isolar-se afetivamente de seu trabalho, para que seu dia-a-dia, que é do jeito dito acima, fique suficientemente de lado para que ele possa levar uma vida ilusoriamente normal ao lado de filhos, esposas, maridos, amigos, etc.

E, apesar disso tudo, quando ainda resolve falar algumas dessas coisas de seu cotidiano profissional para alguém em público, ainda fica paranóico com a possibilidade de poder ser perseguido pelos seus conselhos profissionais que são os responsáveis institucionais pelo impedimento de que os subterrâneos da área da saúde venham a público, o que causaria grande descrédito, desespero, desconfiança e processos judiciais em grande quantidade contra médicos, e, inevitavelmente, um colapso dos sistemas de saúde, públicos ou privados.

Embora todos estes fatos que compõem o quadro geral da medicina atual possam estar presentes nos desabafos que os médicos reunidos em uma sala de aula fazem, o são apenas de modo fragmentado. O ato interpretativo de agrupá-los em um todo que explique porque cada um dos relatos isolados dos médicos se dá de determinado modo não ocorrem durante as aulas em que os médicos discutem sua realidade de trabalho.

Os relatos dos fatos particulares que cada médico vivencia atualmente em suas profissões tornaram-se meros desabafos daqueles que não agüentam mais ter que guardar consigo sobre suas caóticas experiências cotidianas. Desse modo, alguns, quando tem ao menos um espaço em que podem falar sem serem pressionados para se calarem, terminam por falar, mesmo que apenas para desabafar e se aliviarem momentaneamente, e não para entenderem, em termos gerais, o que estão contando. As teorizações propriamente ditas, da disciplina de bioética sobre as quais estavam formalmente agrupados, vinham apenas trazer moralismos ingênuos que terminavam por encobrir o caos que surgia nos desabafos pessoais.

Dias depois, todas as semanas durante um semestre, eu me sentava com um grupo de antropólogos sociais, sociólogos e historiadores que discutiam a medicina com base em suas teorias próprias. Todos estavam fazendo seus “trabalhos de campo” observando a área da saúde. Iam a hospitais, postos de saúde, UTIs, maternidades, nas casas de pessoas pobres, entre outros, tentando entender socialmente a relação da população com a área da saúde, seus profissionais, e a relação destes com o seu dia-a-dia no próprio trabalho. Todos estes cientistas sociais, sem exceção, pareciam pessoas sem contato com a realidade brasileira que os médicos reunidos na outra disciplina mostravam conhecer, na prática, quando desabafavam sobre seu cotidiano.

Ao contrário dos médicos, os antropólogos e sociólogos ali reunidos viviam entre o lado ordeiro da cidade onde residiam e o mundo acadêmico onde durante vários anos vinham se atendo a teorias e estudos de métodos teóricos sobre como captar alguma realidade social. Depois de formados, iriam enfim, no mestrado ou doutorado, em seus “estudos de campo” na área da saúde, poder observar, captar e interpretar a realidade médica de acordo com o seu aprendizado formal obtido durante a graduação - onde muitos passaram mais tempo fumando maconha do que estudando. Na pós-graduação, ao menos em tese, iriam para a realidade da vida colocar sua teoria em prática.

Mas os trabalhos de campo das ciências sociais tornaram-se, na verdade, um modo controlado para que aquelas pessoas saíssem de seus mundos encantados e ilusórios, estruturado em suas vidas nos bairros ordeiros das cidades e no racionalismo acadêmico, o qual, em teoria, no academicismo, é coerente e onipotente, capaz de doutrinar a realidade de acordo com a intenção e conclusões da razão.

Aquele grupo de cientistas sociais com o qual eu assistia aulas estava fazendo seu trabalho de campo visitando serviços de saúde pública, ao contrário do que mais comumente antropólogos faziam até décadas atrás, que era estudar tribos indígenas - as quais, contudo, atualmente não mais existem em número suficiente para serem estudadas pela quantidade de antropólogos que se formam anualmente.

Os relatos que os antropólogos e sociólogos traziam de seus “campos” eram, perante os desabafos que os médicos produziam na outra disciplina, de uma superficialidade impressionante. As análises teóricas que eles faziam até eram boas, demonstrando que tinham capacidade teórica para apreenderem a realidade que estavam se propondo a estudar. Porém, como se baseavam em suas observações superficiais (já que não viviam de fato o que profissionais da saúde passavam), e nas próprias ilusões que profissionais da saúde formalmente costumam falar e no que populares acreditam, os resultados de suas pesquisas tornavam-se grandes trabalhos (literalmente falando) que giravam em torno de ilusões retóricas e idealismos nos quais os próprios antropólogos, os profissionais da saúde e a população acreditam – muito longe dos relatos grotescos que os médicos desabafavam no ambiente de aula de bioética em que se sentiam seguros para falarem sem contenção.

Além disso, os relatos dos antropólogos eram tingidos, com freqüência, pela própria moralidade das ciências sociais no Brasil, que é de um humanismo marxista envergonhado (que não se assume mais como marxista) ou de um humanismo “saudosista” de uma hipotética vida primitiva do ser humano, em contato com a terra, com a natureza, e exultante de uma afetividade espontânea e sincera. Apenas criticavam a medicina por sua frieza técnica, pouco afetiva, e não tinham olhos para mais nada (quem quiser saber um pouco mais sobre o que se esconde na prática médica brasileira pode ler os textos “Vida de médico no caos”, “Academicismo em geral - Parte II”, “Um brinde aos conchavos”, “Baixa tolerância para a vida universitária” e “Dinheiro: a morte em vida do brasileiro de classe média”).

Na prática, e não nas utopias racionalistas, as especializações do saber serviram para isso: para alienar os sujeitos quanto a uma compreensão totalizadora do que realmente ocorre ao ser humano atual, neste período de decadência globalizada. A racionalidade técnica, em parte, pode ter existido pela impossibilidade de uma mesma pessoa dominar profundamente áreas de conhecimento aplicado muito distintas. Seria difícil, por exemplo, um mesmo engenheiro projetar desde chips para computador até técnicas de exploração de petróleo em alto mar. Mas em termos de conhecimento analítico sobre a vida humana, em sua totalidade, as especializações parecem mesmo não terem ocorrido devido à quantidade de conhecimento obtido nas diversas áreas científicas “especializadas”. Pode até parecer que isso seja, em princípio, verdade, ao menos para os mais ingênuos. Se um candidato ao estudo do ser humano em sociedade, um antropólogo, por exemplo, acredita que tem que ler os textos de centenas de milhares de autores oficialmente antropólogos para assim se grassar com capacidade de entender o ser humano, obviamente ele poderá passar sua vida toda apenas lendo, sem contato com a realidade. Logo concluirá que fumar maconha e ter um empreguinho público é muito melhor negócio. É claro, no entanto, que nem todos os empregos públicos combinam com o auto-entorpecimento ilícito. O de presidente da república, por exemplo, não combina (e quem quiser saber por que pode ler o texto “FHC e a ingovernabilidade do Brasil”).

Sou grandiloquente mesmo, por isso generalizo que este processo de alienação dos profissionais intelectuais brasileiros vai além de qualquer decadência puramente brasileira. Cresci lendo generalizações ridículas de intelectuais ingleses, alemães e franceses, e sendo pressionado a memorizá-las e a acreditar nelas. Agora não sei fazer diferente, só mudei o eixo das coisas, falo a partir da posição do submundo desgraçado, de um país que é dos primeiros países modernos a chegar ao ápice da modernidade. É pura balela que o Brasil nunca se modernizou nem se civilizou, ao estilo ocidental. Pelo contrário, o Brasil foi totalmente a fundo na modernidade; por isso que aqui se sente na pele o que muitos países ocidentais ricos vão demorar um pouquinho mais para sentirem.

O que descrevi sobre as alienações de médicos (que vivem a realidade caótica mas não conseguem, não podem e não querem explicá-la) e de cientistas sociais (que decoram teorias sobre as coisas mas não têm contato real com o mundo) é o trivial do pensamento intelectual, acadêmico, em qualquer lugar do mundo, seja na França, na Inglaterra ou na Somália. Cada qual vive em seu gueto imaginário e profissional para que a vida atual não se revele em toda sua desgraça. A razão moderna, no século XX, fez um esforço brutal para que a realidade saísse de cena. E deu certo.

1.9.07

FHC e a ingovernabilidade do Brasil

Faz parte dos mitos populares modernos acreditar que um presidente da república eleito por voto direto da maioria da população realmente governa o seu país. A realidade, porém, é outra. Muito pouca coisa um presidente pode decidir. Às vezes ele pode escolher o seu cardápio diário de refeições (e até certo ponto), onde vai morar durante os anos de governo (até certo ponto) e se vai manter ou não relações sexuais com a primeira dama (também até certo ponto, já que isso depende do acordo que o casal mantiver acerca das obrigações do marido para evitar os escândalos públicos que uma mulher traída ou abandonada pode causar).

Quanto a questões de políticas nacionais, então, nem se fala. Um presidente, principalmente em países totalmente desgovernados como o Brasil, trabalha apenas no negativo, tapando buraco (não raro literalmente); quer dizer, tentando impedir que as coisas piorem muito rapidamente, a olhos vistos, e seu nome fique muito associado a esta piora. Toda a energia e esforço cotidianos de um presidente se esvaem na tentativa incessante de contornar crises e problemas. Nada de produtivo, de projeto para o país que não seja imediatista, é possível de se fazer.

Todos os ex-governantes brasileiros, desde Getúlio Vargas, entretanto, não conseguiram dissociar totalmente seu nome da piora inexorável da condição brasileira no mundo. Exceção, talvez, de João Goulart, por ter sido cassado pela ditadura militar e ter entrado para a história (desde que contada sob uma determinada ótica) como um governo popular que foi impedido de governar pelos malfeitores do momento. João Goulart se é exceção, portanto, o é apenas por não ter realmente governado (no sentido de se manter no cargo). Se tivesse governado por um pouco mais de tempo, e não terminasse destituído arbitrariamente do cargo, não seria exceção.

Os militares também foram exceção, pelo menos durante algum tempo, e á custa de censura á liberdade de opinião de alguns segmentos da população. Mas também foram exceção, num outro sentido, por terem tentado realmente governar o Brasil – e justamente por isso tendo que se manter ditatorialmente no poder. Mas não tiveram êxito. Logo viram que, em relação a políticas internacionais, governos ditatoriais brasileiros nada conseguiriam sem muita dor e guerras; sacrifícios por independência nacional, no entanto, que estavam muito distantes da cordialidade alienada do brasileiro mediano e do esquerdismo político reinante na classe intelectualizada de então, que sonhava ingenuamente em aliar-se à União Soviética – como se isso fosse significar a fundação da nação brasileira, e não apenas alinhamento subalterno a outro estilo de dominação predatória.

Durante a ditadura militar, contudo, logo os militares constataram que, em relação ao lugar econômico e militar internacionalmente cabível ao Brasil, nada era possível fazer: o país estava condenado a ser sugado até não sobrar nada; enquanto sua população sairia do feudalismo moderno (algo tipicamente latino-americano) diretamente para a bestialidade nas grandes cidades-favelas, e enquanto a pretensa intelectualidade nacional ficaria debatendo e se digladiando em torno de castelos de areia.

Enfeitiçados com o mito de que nações civilizadas modernas são verdadeiramente democráticas, os brasileiros se afastaram totalmente da possibilidade de serem governados. Qualquer grupo de pessoas que viesse tentar governar de fato o Brasil, logo seria chamado de ditadura. Esta é a maldição que trazem as democracias para as populações decadentes: a liberdade que conduz à promessa prazeres e realizações individuais imediatos fala mais alto do que qualquer projeto coletivo de viabilidade futura. Diante da decadência do caos humano batendo à porta, alinhar-se a qualquer liderança logo se revela, em realidade ou fantasia, um perigo ao qual parece ser mais viável ter ao menos liberdade para sonhar. O brasileiro optou por viver suas últimas décadas, como país único e não totalmente entregue à “guerra de todos contra todos”, na base do ato de sonhar.

Para um país carente de liderança para tentar sair de sua situação de origem – povos e uma grande riqueza natural sendo pilhados -, a crença da maior parte da população em democracia tornou-se mais um empecilho a qualquer governabilidade real. Fugindo do jugo de caciques que sobraram do colonialismo predatório, o brasileiro passou a viver em grandes cidades-favelas como se vivesse em quilombos. Qualquer tentativa de por ordem na vida social ele logo entendia como autoritarismo e risco retornar ao tronco, se opondo do seu jeito habitual: abaixando a cabeça, como se acatasse os mandos, as ordens, e tentando viver na base do jeitinho, da malandragem, na desobediência disfarçada em aceitação de tudo. A arte do brasileiro em sobreviver, sempre cercado de leões querendo devorá-lo, foi a de exercer a covardia e a esperteza dos ratos. Apenas os líderes populistas, messiânicos, como Getúlio Vargas fez-se crer para as massas, podiam governá-las, e somente durante algum tempo.

A tão famosa cordialidade do brasileiro nunca foi uma real submissão ao mando dos coronéis. Foi sim uma forma de não entrar em franco atrito com o mais forte e brutal. Aparentando submeter-se à autoridade, o brasileiro conseguia uma razoável liberdade para continuar levando uma vida razoavelmente digna de continuar sendo vivida, nas brechas da autoridade ou em suas concessões.

O brasileiro comum, dado este duplo jogo de relações com o poder predatório, tem uma desonestidade essencial entre o que expressa diante da autoridade e o que faz na surdina, às escondidas, nas brechas das leis ditadas pelo patrão ou governante (diferença, aliás, que pouco existe no Brasil).

Mas não nos enganemos: mesmo essa aparente cordialidade do brasileiro está acabando, sendo substituída por uma bestialidade humana que, incapaz de discernir o quê ou quem está do seu lado ou contra, adquire uma atitude egoisticamente agressiva de não aceitar, em nível algum, qualquer tipo de autoridade real, venha de onde for. Não tardará o tempo em que a intelectualidade brasileira, que condenava de forma veemente a passividade do brasileiro, estará tendo saudades da pacífica empregada doméstica que não lhe mostrava ódio no olhar nem lhe maltratava os filhos.

Após a ditadura militar (1964-1979), a situação não mudou muito. Apenas na forma pareceu ficar diferente. O esquerdismo utópico dos anos 1960 encontrou na tentativa dos militares de colocar civilidade e desenvolvimento no feudo um novo algoz querendo impor de novo um autoritarismo predatório, contra o qual armaram suas guerrilhas de brinquedo, auto-convencendo-se e convencendo muitos de que uma real libertação somente viria por uma revolução comunista. Mas não havia havia adesão popular a esta utopia intelectual. Sem a ditadura, os esquerdismos brasileiros teriam continuado a se opor desordenadamente ao pós-trabalhismo de João Goulart e de outros governos que continuariam perdidos na ingovernabilidade habitual do país. Com a ditadura militar como oposição, entretanto, o esquerdismo comunista brasileiro pode ganhar alguma unificação (pelo menos tinham um inimigo em comum), materialidade (alguns mais ingênuos se alçaram a guerrilheiros, algumas pessoas foram mortas, e muitas foram presas ou tiveram que se exilar) e, consequantemente, aparência de algo mais que utopias intelectualóides.

Quando os militares desistiram de tentar governar um povo que não aceita ser governado, e de tentar desenvolver um país que o resto do mundo não aceitava que tivesse vontade própria, e desistiram de seu sonho de “Brasil Grande”, de “Brasil país do Futuro”, os esquerdistas, os simpatizantes da esquerda e os oportunistas coronéis regionais voltaram aos postos públicos. Como os coronéis haviam, raposas que eram, se aliado aos militares, estavam, no início do fim da ditadura, mais próximos das máquinas de governo propriamente ditas. Com o retorno gradual dos militares aos quartéis, os coronéis foram gradativamente assumindo, por nomeação ou eleição democrática, todos os cargos na administração pública. Começava a fase nacional de caciques regionais como José Sarney, Antonio Carlos Magalhães, Íris Rezende Machado, Paulo Maluf, Fernando Collor e dezenas de outros, todos associados a uma nova forma de controle da opinião popular: a Rede Globo – mais eficaz na manipulação da opinião popular do que qualquer censura direta.

Já no outro braço dos que ascenderam após a ditadura militar estava o esquerdismo. Este invadiu as universidades públicas, construindo a versão que se tornou hegemônica do que teria sido o militarismo e o esquerdismo nos anos 1960 e 70. Também dominou ou influenciou, com ânsia de poder e crença em revolução ou mudança nacional, sindicatos, parte da Igreja Católica e vários movimentos sociais, fazendo destes seguimentos (estudantes universitários, movimentos de sem-terra e de quaisquer outras “minorias” ou “excluídos”que se possa imaginar, trabalhadores sindicalizados, professores de universidades, jornalistas, artistas, etc.) seu nicho eleitoral – até culminar no petismo dos anos 1990 e 20000 (que discuti no texto “Brasil Apocalíptico, Parte II”). Petismo esse que tentou tomar (e em grande parte tomou) o lugar dos cacique políticos nos cargos da máquina pública.

Esse desfecho do PT, no entanto, foi o máximo de governança que o PT de Lula conseguiu. A pequena parte do partido que ainda sonhava em governar de fato o Brasil foi, em 2005, despejado do poder, quando tornou-se público o modo como estavam fazendo para tentar chegar à conquista real de poder para governar: corrompendo com dinheiro público todo o restante da elite política (os oportunistas de sempre), para que dessem mais poder ao PT dentro do governo, frente aos bancos, frente à mídia e internacionalmente, a fim de que em futuro próximo o PT pudesse se transformar em ditadura para tentar governar de fato. O sonho de governança (inevitavelmente ditatorial) de José Dirceu, no entanto, fracassou em seu início, e o que sobrou do PT teve que se conformar em dividir os lucros possíveis (e os infinitos problemas) de se administrar um máquina pública que não tem poder real governar praticamente nada.

Mas entre a tentativa dos militares brasileiros em civilizar o Brasil na base da pancada, e o sonho de petistas em revolucionar o Brasil iniciando pela compra direta de sua elite política prostituída, tivemos um interessante período de desgovernança em que estava à frente do governo o ex-sociólogo esquerdista (típico fruto do Brasil dos anos 1960) Fernando Henrique Cardoso, vulgo FHC.

FHC só não era totalmente típico dos anos 1960, por não acreditar que o Brasil era passível de ter revoluções populares, ou unificadas, em prol da independência nacional; e por ter, após o fim da ditadura, desistido de manipular, com o restante do esquerdismo, os movimentos das classes populares - como passou a fazer os líderes que fundaram e foram se associando PT.

Mas o que é interessante em FHC foi que ele, após deixar a presidência da república, e não precisar mais mentir o tempo todo, começou a se tornar um pouco mais sincero em público. Escreveu dois livros, após sair do governo, “A Arte da Política” e “Accidental President of Brazil” (este último lançado apenas em inglês, para consumo internacional), em que ainda tentava cavar para si um lugar digno na história dos presidentes da republica brasileiros. Muita ingenuidade, entretanto, de uma pessoa que se julga tão intelectualmente bem dotada: como ficar bem na fita se alçando como governante de um país que há décadas apenas afunda em sua desgraça?

Depois dessa tentativa, sua tática de vaidade parece que mudou. Neste ano de 2007 passou a falar, com ironia, que o país era mesmo ingovernável, e que todos os anos em que esteve na frente do governo nada mais fez que não apenas ceder às pressões de momento. Mesmo o seu grande legado de um pouco mais de destruição para o país, que foi vender muitas empresas estatais brasileiras para a pilhagem mercantil internacional , passou a colocar na conta da ingovernabilidade essencial desta pseudo-nação. Em suas palavras:

“Acontece que nunca fui um idealista, no sentido de utópico. Sou um realista, sei até onde é possível ir. Há um momento em que a realidade se impõe. Sou um pragmático, no sentido americano. Diante do Estado inepto e da prevalência da burguesia estatal, privatizar era o jeito. (...) Batizaram de Consenso de Washington a constatação de que o Estado estava falido e de que não se pode gastar o que não se tem; se tivessem batizado de Consenso de La Paz, não teria havido problema”.

FHC está atualmente, mais de 04 anos após deixar o cargo, vivendo de dar palestras mundo afora (pra quem não sabe, existe uma indústria de palestrantes famosos a cobrar altos preços de associações empresarias milionárias - um verdadeiro cabide de emprego para celebridades que conseguem convencer como intelectuais). FHC também conseguiu, por certo com auxílio de seu amigo e ex-presidente americano Bill Clinton, um cargo de professor visitante em uma universidade dos EUA, onde dá algumas palestras durante alguns dias por ano, bate papo com aluninhos entediados e tem tempo de sobra para ficar viajando pelo mundo – incluindo vir de vez em quando ao Brasil dar uma de sábio. Uma boa forma de se aposentar sem se sentir inútil.

Nessa sua vida de ex-estadista internacionalmente requisitado, FHC recebeu a visita do cineasta João Moreira Salles, que lhe acompanhou em sua rotina durante alguns dias. Essa visita resultou em uma insólita matéria na revista Piauí, de Agosto de 2007 (disponível na íntegra em http://www.editoraalvinegra.com/artigo.aspx?id=187).

Para nosso interesse neste ensaio, vale a passagem em que um estudante de pós-doutorado em física nos EUA procura FHC querendo saber se o Brasil é um país viável pra ele voltar e tentar exercer o seu poder como mais um brazuca que vai á metrópole e pretende retornar e abafar, levando razão à bestialidade inculta. O estudante-doutor lhe pergunta: “Presidente, eu quero voltar. Então a minha pergunta é: existe um projeto de nação no Brasil?”. E assim João Moreira Salles narra a continuação do diálogo em que FHC lhe responde:

“Um projeto de nação...”, FHC começou. “A pergunta pressupõe que exista um centro decisório, alguém que planeja. Não há mais. O Brasil é um dos últimos países a ter Ministério do Planejamento; na América Latina, acabaram todos. É um dos efeitos do neoliberalismo. Dito isso, acho que tem lugar para você lá. Agora, você vai ganhar pouco... Não é o que inquieta Ferrante: “Emprego eu consigo”, diz o rapaz. “O senhor me perdoa, mas existe o projeto da UniLula, em São Bernardo, eu podia ir pra lá. E sei que vou ganhar pouco. Minha pergunta é outra: existe curiosidade no Brasil? Existe desejo de ciência?” Ele hesita antes de completar: “É que eu sinto essa obrigação de devolver. Minha idéia é criar um fórum de discussão na internet, uma rede de divulgação científica para a comunidade lusófona. Quero tornar o conhecimento acessível a mais gente. É possível, ou eu vou morrer na praia?”

“Não precisa morrer na praia, não. Mas repito: falta centro.” Fernando Henrique se aproxima de um dos temas que mais o têm ocupado, o da desintegração nacional: “Quais são as instituições que dão coesão a uma sociedade? Família, religião, partidos, escola. No Brasil, tudo isso fracassou. Na América Latina, em certos lugares, 50% das crianças não têm pai, a família se dissolveu. A religião preponderante é a católica, que vive uma crise danada depois que decidiu se lançar na política. As igrejas pentecostais são a própria expressão da fragmentação. Os partidos fracassaram. O último deles foi o PT, que cumpria um papel importante como aglutinador de entusiasmo. No meu governo, universalizamos o acesso à escola, mas pra quê? O que se ensina ali é um desastre. A única coisa que organiza o Brasil hoje é o mercado, e isso é dramático. O neoliberalismo venceu. Ao contrário do que pensam, contra a minha vontade”.

FHC parece, com essa estratégia, ao menos fazer as pazes com sua vaidade de intelectual acadêmico, analisando seu próprio (des)governo como se esquecesse que se esforçou, como presidente, para ser reeleito em 1998. Ou será que os quatro primeiros anos como presidente ainda não haviam lhe ensinado que os governos democráticos brasileiros não governam de acordo com suas vontades próprias? Imagino que FHC devia ao menos estar gostando do cargo, das pompas, da sensação, mesmo que falsa, de poder que o título lhe dava, do reconhecimento internacional que continua a lhe garantir passe-livre no mundo dos países ricos. Ou será que durante aqueles anos de presidência ele verdadeiramente se iludiu que governava, já que todos à sua volta lhe tratavam como se ele tivesse verdadeiro poder? Será que só lentamente, depois de deixar o cargo, é que ele está podendo se deparar que foi apenas uma marionete útil para tantos interesses oportunistas e mercantis ä sua volta? Será que demora tanto, mesmo para alguém perspicaz como ele, poder abrir mão de ser mais um fetiche a não desmascarar a crença de um povo fodido nos jogos fantasiosos da democracia? Agora que pouca gente o ouve, FHC parece ter voltado a falar em público algo mais do que retórica de um presidente que não quer se fazer entendido. Até sobre o Brasil anda dizendo coisas interessantes, ao estilo mea culpa:

“Os militares fizeram coisas bem-feitas. De certa maneira, construíram um Estado. Telecomunicações é coisa deles. Collor, este sim, seguiu uma receita neoliberal burra e destruiu o Estado. Mas, antes dele, quem realmente desmanchou a máquina do Estado fomos nós da oposição, o PMDB, no governo Sarney. Foi quando começou o loteamento dos cargos, todo mundo querendo uma fatia, uma sede tremenda e o Sarney entregando. Tudo foi trocado contra favores, uma vergonha. O regime militar tinha ocupado as empresas estatais, militares reformados em diretorias, essas coisas. Com o PMDB, o que se loteou foi a máquina do Estado: ministérios, hospitais, todo tipo de órgão, até o mais insignificante, tudo. O Estado desapareceu, virou patrimônio dos políticos.”

Mas e o governo FHC, o que fez além de rifar as estatais brasileiras, tirando-as das mãos das quadrilhas nacionais? Algumas palavras de João Moreira Salles dão um bom tom: “O próprio Fernando Henrique, no entanto, ao chegar à Presidência, parece ter concluído que política no Brasil era assim mesmo. Protegeu os três ministérios que considerava essenciais — Saúde, Educação e Fazenda — e entregou o resto aos de sempre, sob o argumento de que era isso ou a paralisia. Acomodou-se, a seu modo.”

19.8.07

LADYLAND: retorno e morte do vampiro de Curitiba

É, brou, estou de saco cheio dessas primárias dissertações sobre a vida nesta merda! De tanto observar e escrever sobre o cotidiano neste caos de país ando chegando até a sentir gosto de sangue e fezes na boca – este é o presente sabor do “país do futuro”.

Então agora vou voltar às cronicazinhas tradicionais, nas quais ao menos me divirto com a idiotice dessa gente - além de apenas sofrer com ela.

Estive visitando por alguns dias a cidade de Curitiba, no estado do Paraná, ao voltar de algumas semanas passadas em Porto Alegre. Nasci nesta última cidade, embora há mais de 10 anos habite os sepulcrais edifícios do plano piloto da cidade de Brasília, a insólita capital do Brasil.

Em Brasília vivo o mais que posso afastado do máximo de pessoas que consigo. Tento viver como um “bicho na toca”, trabalhando em horários que me afastem das confusões urbanas e freqüentando lugares em que a maioria das pessoas não freqüentam - o que não é difícil, já que tenho tanta afinidade com as brasilidades populares quanto com os rituais tribais dos Azande, na África. Tenho horror ao brasileiro, quanto mais tipicamente brasileiro ele pareça. O típico brasileiro atual me dá nos nervos, ao vê-lo com suas idéias moldadas pela publicidade, pelo jornal nacional, pela revista Veja ou Época, por telenovelas infantilóides e por filmes americanos de ação, suspense ou romance. O típico brasileiro atual é um total idiota, mas que sempre tenta ser, ou parecer, “esperto”, “gostosa” ou “fodão”. Suportar essa gente não é fácil!

Visitando o Sul do país tenho comumente momentos de ilusão com um Brasil menos decadente. Porto Alegre e Curitiba tinham, e até certo ponto ainda têm (mas agora em menor extensão, vivendo mais escondidos e mais assustados em suas “tocas”) tipos urbanos mais “europeizados”, mais silenciosos e reflexivos, com quem a convivência (ao menos a uma certa distância) é mais fácil, ou, pelo menos, menos medíocre e intolerável.

Ainda reconheço esses tipos quando cruzo com alguns deles nas ruas de Porto Alegre. De forma idêntica ao passarem por mim, também parecem reconhecer-me como um deles. Acho que todos nós, estes esquisitos, já desistimos da vida em grupo, sociável; no máximo, nos solidarizamos entre si sem deixar-mos de lado nossa solidão, trocando rápidos olhares de reconhecimento mútuo ou singelos pedidos de desculpas quando nos aproximemos muito ou nos esbarremos.

Mas não fiquei, desta vez, muito tempo em Porto Alegre: depois de alguns dias, família enche o saco! Fui pra Curitiba. Fazia muito tempo que não visitava a cidade. Tendo tempo livre e disposição, resolvi passear por alguns lugares tradicionais da cidade e ficar, como gosto de fazer, observando a esmo as pessoas. Em outros tempos eu já transitara muito pelo centro de Curitiba à noite, em momentos de vampiragem explícitos, à caça de bocas e bucetas disponíveis, e até de algum papo ou outro que me interessasse por alguns instantes.

Tentei, então, devido a esta merda de saudosismo maldito, da época em que eu era mais humano e sociável, caminhar outra vez pelo centro de Curitiba, à noite.

Consegui caminhar contemplativamente, relaxado, por no máximo três ou quatro minutos. Logo comecei a ser invadido por um pavor crescente das pessoas que se aproximavam. A quantidade de mendigos, moradores de rua, loucos, bêbados e drogados não era tão grande assim, mas era quase o único tipo de gente que havia por ali. Os demais transeuntes noturnos que não pareciam estar nessas condições, mais descaradamente sofridas ou desesperadoras, de algum modo demonstravam estar um tanto quanto desconfiados ou mesmo apavorados por terem que atravessar aquelas ruas às 10 horas da noite. Uma minoria, contudo, da qual logo comecei a ficar mais temeroso ainda, parecia estar totalmente à vontade por entre aquela fauna, como a andar com segurança em um campo minado. Pareciam estar a esperar que otários como eu lhes caísse nas mãos, pra pedir algo ou por distração.

Tive, portanto, nos dias seguintes, que me contentar em caminhar durante o dia, principalmente nas regiões mais centrais da cidade. Infelizmente concluí que a população noturna local já se tornara demasiadamente selvagem para ex-vampiros amadores como eu. Curitiba não conseguiu deixar de ser mais uma grande cidade brasileira afundando-se no horror. E eu havia envelhecido demais, mentalmente, para não ter medo do caos. Estranho mesmo, no entanto, seria se Curitiba tivesse conseguindo passar incólume ä decadência brasileira.

Com as pessoas retiradas artificialmente de cena por algum programa de computador, numa eventual fotografia da cidade, talvez a cidade ainda parecesse a mesma Curitiba sofisticada e civilizada de outrora. Mas não: as pessoas, ao contrário dos prédios, infelizmente, não conseguem viver todo o tempo de acordo com as peças publicitárias que os governos da cidade continuam a produzir. Arquitetonicamente, tudo parece bem. Humanamente, entretanto, tudo vai mal.

Bom, ao menos isso era o que eu pensava. Até que, numa de minhas andanças pela cidade (durante o dia, é claro), acabei deparando-me com um vistoso shopping center. Não gosto de shoppings; de modo que eu não entraria não fosse sua peculiaridade: à medida que eu me aproximava das entradas da imponente fachada do prédio, as mulheres que eu via passar por mim pareciam-me cada vez mais bonitas e sedutoras. Além disso, na redondeza do shopping a quantidade de mendigos e bêbados era suficientemente grande. Devia haver pelo menos um ou algum grupo pedindo esmola a cada 50 metros de caminhada. Era suficiente para que eu me cansasse de ter que ficar o tempo todo dando negativas e tendo que ficar atento e incomodado com possíveis e sutis ameaças.

Dentro do shopping, logo de cara, senti-me mergulhando repentinamente em algum artificial paraíso celestial. Deslumbrar-me com um shopping center a esta altura da vida não estava em meus planos, mas ainda assim deixei-me levar. A sensação de alívio momentâneo, de segurança e tranqüilidade súbitas me fizeram dar ainda maior valor ao que logo de início saltou-me aos olhos: eu parecia realmente ter chegado ao paraíso do bem estar pessoal e da beleza estética. Não gosto da artificialidade arquitetônica de shoppings e suas lojas, sempre cheias de vidros e pisos reluzentes, de muitas luzes e cores espalhafatosas. Muito menos gosta das multidões de pessoas embevecidas e fúteis que costumam freqüentar estes lugares.

Naquele momento, entretanto, aliado a meu cansaço, tanto físico, por ter caminhado muito, quanto mental, por estar saturado da cidade “real” lá de fora, entrei na onda daquele lugar. Uma sucessão de rostos e corpos femininos a passarem por mim, como se estivessem a desfilar em alguma passarela angelical, onde apenas loiras de corpos sarados fossem permitidas, absorveu-me por completo. Deslumbrei-me com aqueles corpos bem torneados, à mostra em fartos decotes, que me mostravam justamente o que cada uma daquelas mulheres julgava ter de melhor e de mais arrasador para os homens.

A maioria claramente estava ali passeando e fingindo distração justamente para ter seus raros momentos de desbunde, de adoração, de franca sedução grupal. Muitas delas, então, se deixavam apreciar. Faziam caras e bocas de “a mais bela do pedaço”. A maioria dos homens fingia não estar ali para olhá-las. Mas eu não! Olhava, olhava, olhava! E me lambuzava!... Olhar ainda não dá cadeia. E elas estavam lá pra serem olhadas. Quanto mais eu olhava, guloso, mais elas posavam, desfilavam, com seu ar exibido e expressão de arrogância. Sentiam-se também no céu. E eu era o diabo. Olhavam-me com desprezo. Mas apenas desprezavam-me após terem certeza que eu as olhava enfeitiçado. Quase todas, ao passarem por mim, fitavam-me por instantes, até ter a certeza que eu não as ignorava. Como a dizer: “Sim, eu sei que você está me achando o máximo, mas eu sou intocável!”

Nesse ritmo, e nessa contemplação, andei pelos corredores de um andar após o outro, sempre com mais e mais mulheres a cruzar meu caminho. Pensei: “Meu Deus, onde estavam tantas curitibanas deliciosas que eu não as tinha reparado antes?!” Como eram maravilhosas! E estavam ali, ao meu alcance, ao alcance de meus olhos, de mau olfato, até de minha pele se em algumas delas eu esbarrasse, fingindo distração; ou mesmo, em meu pensamento, ao alcance de meu gozo se eu me dispusesse a seduzir e a deixar-me seduzir por aqueles olhos deslumbrados; ao alcance de minhas mãos, de minha respiração, face a face, olho no olho, boca a boca, língua a língua... Eu apreciaria como um viciado fissurado cada cheiro daqueles poros, cada sabor daquelas reentrâncias e músculos, cada milímetro de pernas torneadas infinitas horas de academia; cada fragrância a esvair-se em minha memória, a lembrar-me aqueles possíveis momentos de total entrega à volúpia, ao prazer, ao sexo, ao sexo, ao sexoooooooo!!!.........

Toda aquela escandalosa realidade brasileira, de mendigos, bêbados, de crianças sujas e de putas perambulando assustadoramente entre modernosos edifícios e reluzentes carros e ônibus nas ruas centrais de Curitiba haviam se apagado de minha mente enquanto eu me deixava absorver por aquela fortaleza estética artificialmente bela. Minha vontade de apenas gozar feliz e alegremente, de sentir-me um deus entre aquelas mulheres, tendo qualquer uma delas entre minhas mãos e meus sentidos, e de voltar a crer, a partir do prazer total, em um mundo ideal, cheio de beleza e de segurança; tudo isso ao mesmo tempo e ao meu alcance enfim levaram-me com toda a intensidade a fazer com que eu entendesse a maravilhosa beleza dos shopping centers, da modernidade ocidental, da loucura humana, da perversão total, do desespero estético... É isso que dá vida a esse bando de gente imbecil que eu odeio! Mas naquele momento, não. Tornei-me mais brasileiro do que jamais fora:

- Ah... Como era difícil esquecer os mendigos, a decadência social, os conchavos e artimanhas de minha perversa vida de classe média no caos! Mas aí está: em um instante o sexo esvazia-me dessa dor.

A essa altura, continuando a caminhar, a observar e a sentir, eu já devia estar com a mesma expressão fútil e deslumbrada de todos aqueles que passavam por mim, muitos dos quais já deviam ter como hábito se refugiar do caos e do horror neste templo do prazer e da artificialidade moderna.

Sim, eu já me sentia pronto para uma nova vampiragem. E ao velho estilo de outros tempos. Pronto e ávido! Muito ávido por abandonar minhas tocas solitárias e embebedar-me no seio daquela beleza exibicionista. Deviam estar todas carentes de vampiros entusiasmados como eu. Eu iria sugar-lhes a alma, toda aquela energia de vida tão concentrada em tantos esforços para mover sedutoramente seus corpos e para fazer expressões faciais de luxúria, de promessa de gozo, de alegria, de prepotência... Sim, eu queria toda aquela vida, todo o sangue daquele mundo estético idílico. Eu queria o maior de todos aqueles gozos, um após o outro, esfregando-me em todas aquelas pernas, naqueles seios, deixando-me esmagar naqueles braços, sendo engolido por todos aqueles rostos e olhares...

- Ah! Eu quero todos estes olhares me absorvendo, me emocionando. Depois ensandecidos a me verem gozar e a gritar, feito um louco... Descontrolado!...

No auge de toda aquela viagem emocional eu já estava no quarto ou quinto andar do shopping, próximo aos cinemas, a algumas lanchonetes, em sua parte mais luxuosa. Continuava a andar, a admirar e a viajar, quando então deparei-me com uma grande parede de vidro transparente ä minha frente. Ela se estendia por dezenas de metros, como se o shopping se transformasse de repente em um castelo de cristal, um grande labirinto de pequenas salas envidraçadas,